Enprincipio #5 – Ilustração de Sónia Rodrigues

Enprincipio #5

Seres humanos precisam-se

Hoje ao almoço tive uma conversa sobre filhos. A minha namorada não estava presente logo a conversa decorreu na terceira pessoa do singular com outra mulher. Ela discorria argumentos, entre garfadas de folhas de alface avinagradas, de como as condições não eram as melhores, de como seria difícil aos trinta anos sequer pensar nisso. Nunca se engasgou ou contornou argumentos. Para ela ter filhos, neste momento, é impossível. Enquanto falava sobre os custos da maternidade na actual situação económica, a minha mente viajou para outra conversa acontecida dois dias antes.

Já na casa dos meus pais, éramos dois casais a falar sobre fotos de um casamento com 37 anos. Os meus pais casaram em 1975. Em 1975 era costume as mulheres engravidarem ainda antes de serem mulheres, e os homens serem maridos ainda antes de serem homens. A natalidade acontecia normalmente como uma consequência do desejo entre um homem e uma mulher. Não havia tempo para planear filhos. Tinha-se filhos porque era esse o efeito secundário do sexo. Logo, as crianças nasciam com naturalidade. Apesar disso, o medo de engravidar era superior ao medo de ficar sem emprego. Engravidar já era então um problema. Mas acontecia e pronto.

O País tinha saído de uma revolução política, mas economicamente continuávamos pobres como todos os outros ao Sul da Europa. A nossa natalidade era gigante e mesmo depois de subtraída a elevada taxa de mortalidade infantil continuávamos a ser orgulhosamente férteis. As mulheres engravidavam e os homens tinham de casar com elas. Tudo era parecido com agora, mas com duas diferenças substanciais; já ninguém é obrigado a casar, agora, e todos acreditavam, antes, que as crianças teriam uma vida melhor que os pais.

Era bom? Não sei, felizmente produziu-me a mim, algo que hoje seria impossível pela idade dos meus pais à altura e pelo facto de serem tão pobres que nunca hoje aceitariam, naquelas condições, o meu nascimento. Quem aceitaria hoje viver num quarto com os sogros e trabalhar apenas para pagar aquilo que se comia? Nisso o meu pai foi corajoso e não hesitou. A minha mãe foi corajosa e não hesitou. Era assim e pronto.

Mas e hoje? Quais são as condições ideais para decidir ter um filho? O sexo mantém-se como um ingrediente fundamental, mas de resto tudo mudou. Não somos ricos mas também não queremos ser pobres, logo as crianças passaram a ser (antes de nascerem claro) como um crédito bancário. Esperamos pelos melhores juros e por um spread que não nos mate no processo. Acreditamos que, apesar de o tempo e a idade nos atrasar, haverá um tempo melhor para os ter. É assim e pronto.

De facto é preciso ter coragem para ter filhos. Temos de abdicar de coisas que poderíamos comprar e do poder para as comprar. Temos de abdicar de coisas que queremos ver e visitar. Temos de fazer sacrifícios para os educar e na melhor das hipóteses imaginar que os vamos sustentar nos quarenta anos seguintes. Mas nada disso tem a ver com a maternidade ou a paternidade da decisão.

Se queremos tudo não teremos nada. Parece um daqueles provérbios antigos de aldeia. Poucos têm a coragem para perceber logo isso antes da natureza ligar os seus alarmes e exigir uma decisão. Mas muitos são os que, quando param de pensar nas consequências, percebem que ser mãe ou pai não é uma decisão, é sobretudo uma aceitação da ordem natural das coisas. Esses são os seres humanos. Nem melhores nem piores, apenas humanos.

Excepcionalmente, há pessoas que são racionais ao ponto de fazerem planos para a vida. Eu prefiro acreditar naqueles que vivem a vida sem planos mas que, nos acontecimentos, e um a um, os usufruem. Parabéns aos corajosos que, apesar de todos os sinais de que o mundo pode acabar, continuam a criar para o futuro. Seres humanos precisam-se, e cada vez mais. E tenho tantos amigos e colegas que o são.

Fechado o álbum com as famosas fotografias do oldsmobile com noiva e noivo em 1975, e sem uma única palavra de incentivo proferida, percebi que, depois de 36 anos, finalmente estava pronto. Regressei ao almoço e, olhando directamente a minha colega a fechar a boca depois da última garfada de alface avinagrada, não disse nada. Não era preciso. É assim, estou pronto.

Crónicas anteriores: #0 – Os fins do princípio // #1 – No princípio era o número // #2 – Intervalo dos heróis // #3 – O Prémio da Crítica // #4 – Opinião Amiga

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Sónia Rodrigues



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