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Enprincipio #1

No princípio era o número

Comecemos o ano com um filme sobre números. Montada a tela e projectado o filme, vemos o protagonista a atravessar, a passo ritmado, as avenidas de uma grande cidade. É um protagonista que mesmo emoldurado numa multidão de figurantes em geral, continua a ser um protagonista desfocado no primeiro plano. 2013 é assim o actor principal no filme que começámos a ver.

O  filme é um drama histórico.

O protagonista nasce número, com pai calendário e mãe data. É registado com nome 1 do 1 e apelido 31 do 12. Como muitos dos outros anos da sua família de milhares de anos, tem 365 dias. Com primos bissextos, tem como padrinho, na sua cerimónia de baptismo, o século XX. 2013, no início do filme, é só mais um na constelação anónima dos anos. Mas, acabado de nascer, ele ainda não sabe nada disso.

À primeira vista, o recém-nascido 2013 parece-nos inofensivo quando olhamos para ele pela primeira vez na cena do baptismo. Inofensivo sorri, mas antes que lhe sorríssemos de volta, sentimos nele um daqueles pesos típicos de herdeiro de coroa ou filho de senhor doutor. Com a expressão da inocência, o sorriso sincero da infância, surge também o presságio da pergunta: é mais parecido com pai ou com a mãe?

Nesta altura do filme, não sabemos ainda de onde vem 2013. Tudo nesta criança de quatro algarismos tem sinal de invenção, de experiência genética de laboratório cabalístico. É como se um alarme de sinal de invenção se ligasse, cada vez que reparamos na combinação dos seus algarismos: 0, 1, 2, e 3.

Até quando o tentam sonorizar, soa-lhe um sinal de invenção na sua dupla sonoridade. No filme, há os que lhe chamam treze e depois há os outros que lhe chamam treuze. 2013 parece assim como que inventado por intervenção divina, propositada para nos confundir.

Neste filme bíblico, um 1 é como um Adão. Habitante primeiro de um jardim do éden matemático, o 1 é aquele número em que tudo ainda só começou a ser contado; em que todos os zeros a acrescentar são uma promessa viável. O número 2 já é diferente, é uma Eva, um primeiro par, uma possibilidade de multiplicar, morta à nascença no 1×1. O 3, esse, faz nascer o desempate, faz ser possível o conflito, a escolha, a entrega ao mundo das opções. Mas o melhor é o número 0, que acrescenta a parcela final do espírito,  do número holístico de princípio e fim ao mesmo tempo. Na força das suas parcelas, 2013 é uma personagem épica perfeita.

Mas 2013 cresce, e ao som da partida, no 1-2-3 partida-lagarta-fugida das crianças com quem brinca, baralha tudo. A cena começa a meio, transforma-se em nada, reinicia-se com o protagonista e acaba por acabar em desempate como era esperado desde o início. Se as parcelas lhe dão força, a ordem dos números baralha-lhe a personalidade. 2013 ainda agora nasceu e já é uma personagem convencida que é especial.

Aqui há um grande plano emocional.

Um narrador explica-nos que, antes do nascimento do número 2013, o fim era o número 2012 e a humanidade sofria antecipadamente o onde e o com quem estaríamos, todos, antes do fim. Durante a passagem tínhamos de viver a surpresa desagradável de aquela ser igual a todas as outras passagens de ano do antes e do depois. E depois de passarmos de ano todos acenávamos positivamente, quando nos perguntavam: como foi a passagem? A medo, começámos logo a responder em vénia e beija-mão: Calminha, nada de especial, o costume, como sempre. A 2013 bastou-lhe nascer para a humanidade inventar o medo.

Nas primeiras cenas do filme, passámos o tempo a ouvir dizer bem de 2013. Abusaram dos bons adjectivos, sempre que alguém se cruzava com ele, para ele os ouvir logo em positiva opinião. Bom ano. Bom ano. Bom ano para si também. Repetiam até gastarem os seus bons sorrisos, bem amarelos, naqueles bons anos. Todas as personagens disseram bom ano como quem diz bom dia, seja manhã, tarde ou noite. E o ano de 2013 aprendeu a crescer assim.

Todos gostavam de 2013 porque ninguém tinha gostado de 2012. Numa sequência de flash-backs, vemos todos a dizerem-lhe coisas inarráveis, a arrombarem-lhe os portões, a invadirem as propriedades, abrindo gavetas, experimentando camisas, cuspindo nos espelhos e até a dormirem, à vez, nos muitos quartos das suas muitas propriedades. Já na praça em frente ao palácio, a multidão grita: O ano morreu, viva o ano!

Intervalo.

Texto de Pedro Saavedra.
Ilustração de Sónia Rodrigues.



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