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Os fins do princípio

Partamos do princípio de que chegámos ao final. O nosso mundo acabou. O mundo como nós o conhecemos até agora acabou. Mas este não foi um fim do mundo singular, teve vários fins. Apresento-vos em lista os 7 fins do nosso mundo:

Final do ano. Não choveu, estava sol. Não nevou, fez frio. Estar em casa e evitar a rua continuou a chamar-se Dezembro. Acaba o mundo. Início do ano. Não chove, está sol. Não neva, faz frio. Estar em casa e evitar a rua continua a chamar-se Janeiro. O mundo acabou mas ficou tudo igual. Mudámos o tempo do verbo e, acabando, o mundo ficou exactamente igual. Todos, acreditando ou não no fim dos tempos, terão de viver no depois do fim dos tempos. Foi o fim nº1_o fim do tempo.

Vivemos num tempo de conclusões em que já ninguém morre por uma causa ou pelo completar de uma ideia. Inventámos conclusões sobre os outros que partilhamos como definições de nós próprios: Eu sou livre. Eu quero aquilo. Eu gostava de. Eu estive lá. Eu estudei muito. Eu mereço. Eu não tenho nada a ver com isso. No meu tempo é que era. A vida é minha. Nunca serei como eles. Eles não me enganam. Eles são todos iguais. Eles é que deviam pagar. Coitadinhos. Pobrezinhos. Pequeninos. Aleijadinhos. Ceguinhos. Da caridade à estátua no pedestal, quem somos nós hoje? Foi o fim nº2_o fim do nós.

Em que acreditas? Pergunta a mulher a um homem que acaba de conhecer. Acredito em mim como tu deves sempre acreditar em ti. A conclusão na mulher nasce assim do equívoco de não se ter feito a pergunta certa. Ela sabe agora que devia ter perguntado diferente mas por princípio já sabia que nem a pergunta nem a resposta poderiam viver juntas nessa história. Façamos nós a separação por eles: o homem conclui sem confiança, enquanto repara que a mulher está enquadrada num resto de rua que se desenha entre dois carros estacionados na berma. Foi o fim nº3_o fim do amor.

Estamos a finalizar um livro e a começar outro, a viver aquela sensação angustiante entre livros. Entre um livro que lemos e relemos centenas de vezes e um outro livro que nos foi posto nas mãos sem resumo ou crítica amiga. Estamos a ler a última página de uma longa história com mais de 500 páginas, em que o primeiro parágrafo continha as frases da queda de Constantinopla às mãos dos otomanos e da entrada dos portugueses na cidade de Ceuta. Foi o fim nº4_o fim da história.

O tempo de fazer anedotas com portugueses, ingleses e franceses acabou. O tempo em que um bilhete de identidade definia o nosso estilo de vida: português-católico-homem-branco-de-bigode, acabou. A época das certezas, geográficas e políticas, das identidades nacionais definidas, dos Estados como culturas, acabou. Podemos viajar para todo o mundo como nunca, mas encontrar o mesmo de tudo como nunca também. Não há cancelas nas fronteiras. Todos podem falar Inglês no check-in e comprar Chanel no duty-free. Viajamos, mas nunca saímos do mesmo sítio. Foi o fim nº5_o fim da geografia.

A revolução já acabou há muito, mas só agora é que se sente, diria alguém em Nova Iorque com pele escura e sotaque asiático. Mas como começou esta revolução, que só agora é que se sente? Esta revolução começou com os artistas. Nas artes tem mais de um século o advento do individualismo hipermoderno. Os principais artistas há muito que defendem que a arte não é fácil, nem deve ser obrigatoriamente acessível. A crise neoliberal teve três vagas: a primeira com a conceptualidade liberal na arte, a segunda com a conceptualidade liberal na cultura popular e a terceira com a conceptualidade liberal na economia global. A revolução está feita e ganha. A experienciação libertária individual sobrepôs-se à experiência patrimonial técnica. A época do virtuosismo morreu. Foi o fim nº6_o fim da revolução.

O mundo acabou em 2012 como se tinha previsto. Mas não assistimos às explosões atómicas, às pandemias globais, ou ao levantamento dos mortos nos cemitérios. A desilusão é que o mundo acabou, continuando, aparentemente, igual. Da mesma maneira que os romanos não perceberam que com a entrada de Odoacro em Roma o seu império tinha acabado. Ou da mesma maneira que os Iucaians ao cumprimentarem, na praia, os marinheiros europeus, não sabiam que estavam a assistir à descoberta da América. O espectacular não aconteceu. Este fim do mundo foi só normal. Foi o fim nº7_o fim do mundo.

Para entrarmos agora num novo princípio temos de sair, de uma vez, deste último final. Os fins que conhecemos antes foram estes. Começa agora a enprincipar-se este novo mundo, nascido do tal mundo que acabou de acabar para que este mundo possa finalmente começar a começar. Apesar disso, ambos os mundos continuam a sair-nos escritos nas mesmas minúsculas com que escrevemos deus ou amor, cultura ou revolução. Com que escrevemos entrada ou saída.

Porque todos os mundos já escritos por deus, ou já escritos pelo sexo, terão sempre os seus princípios e os seus fins. Comecemos, então, a escrever este pelo seu princípio, outros que escrevam o seu fim.

Texto de Pedro Saavedra.
Ilustração de Sónia Rodrigues.



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