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Enprincipio #3

Prémio da Crítica

Todos gostamos de uma boa crítica. Todos gostamos de oportunidade para fazer uma boa crítica. No fundo gostamos da desvalorização da solução. De tomar partido pela anarquia das decisões. De ser um daqueles que não se compromete nem com o problema nem com a solução. Que vive, por enquanto, num apartamento entre duas ideias estratégicas para inglês ver.

Criticar sem nada esperar. Defender a neutralidade criativa. Isso não sei muito bem o que é mas aquilo eles é que têm que decidir. Dar ao outro o ónus da decisão. Pois pois, eles querem é isto. Eles querem é que eu faça isto ou aquilo. Todos gostamos de uma boa crítica desde que não nos comprometa com aquilo que estamos a criticar.

Mas cada um de nós prefere, secretamente, ser a crítica ela própria. Explico: a cada código genético as suas particularidades e no código genético da crítica também a teoria da evolução das espécies foi aplicável. Aqui Darwin ajuda: a todas as espécies é oferecido, em momento certo, a oportunidade de mudança para melhor. Muitas espécies nunca vêem a oportunidade, desevoluem e extinguem-se. A lei da selecção natural adora os críticos mas não espera que seja deles o motor da evolução.

Por críticos entendo aqueles cuja espécie é viver da crisis, de um qualquer evento que possa levar a uma situação instável ou perigosa que afecte um indivíduo ou um grupo de indivíduos. A crítica vive da dúvida a meio caminho entre dois pontos definidos. Se chamarmos a A o ponto de partida da produção e a B o ponto de chegada da solução, a espécie do crítico habita o ecossistema entre a produção da ideia e a catarsis da solução. O crítico habita o T0 da existência e é feliz nisso.

Aos críticos a natureza saúda com o dom da ubiquidade da fuga, compensando assim a falta de dentes assassinos e garras punhalformes fundamentais à evolução. A maioria identifica-se com a crítica toque e foge daquele género típico de quem opina livremente mas não espera nenhuma solução do objecto que critica. A esses gosto de nomear pelo nome de críticos herbívoros. Mas há mais espécies.

Há a da crítica amiga, da crítica mordaz, da crítica pedagógica, mas há sobretudo as da crítica construtiva. Aqueles que criticam com a certeza da crítica construtiva são os piores dos críticos, porque acrescentam à crítica a moral de quem tem a certeza que está a ajudar. Ajudar propondo a preposição do instável é como servir uma extraordinária refeição, num extraordinário serviço de loiça, com extraordinário requinte na colocação dos guardanapos, copos e talheres, mas servida fria, por tanto ter sido o tempo em que a refeição esperou ser servida.

Mas para quem vai o prémio da crítica? Quem é que nos surpreende constantemente com a sua capacidade de criticar? Quem é o crítico dos críticos? O príncipe da crítica? Todos temos pelo menos um, que nos acompanha em momentos especiais da nossa existência. Alguém a quem demos a confiança e a esperança na crítica construtiva e amiga para ajudar quando já não temos certeza na decisão que estamos prestes a tomar?

O psicoterapeuta responderia tu. O teu médico o teu cérebro. O teu terapeuta o teu coração. O teu contabilista o teu patrão. A nossa mãe o nosso pai. O nosso pai a nossa mãe. O teu patrão o contabilista. O amigo heterossexual elas. O estranho na paragem de autocarro eles. Elas o teu amigo heterossexual. O colega que faz ioga aos sábados de manhã nós. A tua ex-namorada ela. Nós o teu amigo que insiste em fazer ioga aos sábados de manhã. Eles os estranhos na paragens de autocarros. E tu, o que responderias? Sim tu, para ti, quem é o crítico dos críticos?

Desculpem, mas tenho mesmo insistir:

Para quem vai o prémio da crítica?

Crónicas anteriores: #0 – Os fins do princípio // #1 – No princípio era o número // #2 – Intervalo dos heróis

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Sónia Rodrigues



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