Luis Sepúlveda | Palavras em Tempos de Crise

Luis Sepúlveda | Palavras em Tempos de Crise

Quando escrever é sinónimo de resistir

A Porto Editora traz-nos “Palavras em Tempos de Crise“, do escritor chileno Luis Sepúlveda (n. 1949), autor de uma vasta obra publicada em Portugal onde se destacam “O Velho Que Lia Romances de Amor” ou “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”. Forçado ao exílio após o golpe militar que depôs Allende e instaurou a ditadura sangrenta de Pinochet, Sepúlveda iniciou então uma vida de andarilho, com passagens por vários países da América do Sul e da Europa, onde exerceu os mais variados ofícios e militâncias – foi alfabetizador de indígenas no Equador, revolucionário na Nicarágua sandinista, e tripulante de um navio da Greenpeace. Da sua obra literária – seja no romance, no conto, na fábula ou na crónica – transparece sempre a sua alma de viajante, incessantemente atraída por lugares remotos e pelas suas gentes.

Neste conjunto de artigos e reflexões marcados pela crise, Sepúlveda denuncia as (ir)responsabilidades dos actores políticos, banqueiros e especuladores imobiliários que provocaram a crise, em particular em Espanha, onde o escritor está radicado desde meados da década de noventa. Mas há também espaço para um registo mais intimista e confessional, com vários episódios da infância do autor, um almoço de uma família espalhada pelos quatro cantos do mundo, embates com os pequenos opressores do quotidiano (como os guichets das companhias aéreas ou os trolls das redes sociais), ou memórias afectuosas dos vários mestres de Sepúlveda, como Gabriel García Márquez, Pablo Neruda ou José Saramago – que admira «pelo rigor ético que outorgou à tarefa de narrar, são elementos que trago entre a pele e a camisa» (pág. 98).

Em Sepúlveda não há espaço para a indiferença, pois não entende a literatura como um acto meramente estético, mas antes política e socialmente responsável: «a cada dia que passa amo mais a vida, a rua, os atos sociais, porque aí descubro que as palavras ainda cumprem uma função necessária» (p. 45). Precisamos de mais escritores como ele.



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