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Fantochada na Alemanha

Entrevista a Friedrich Wollweber, puppeteer alemão com trabalho na "Rua Sésamo" e "Hallo Spencer".

Já todos sabem que o Big Bird amarelado dos americanos difere um pouco do nosso Poupas, e que o Ferrão yankee possui uma pigmentação diferente da do nosso. Mas a adaptação da rua que faz quarenta anos não se praticou só em terras lusas.

Friedrich Wollweber, 51 anos, é um actor com uma carreira multifacetada – o seu projecto mais recente foi como modelo em “Heinrich’s Welt”, uma espécie de conto fotográfico de teor cómico – mas foi como puppeteer que criou o seu trabalho mais reconhecido. A Rua de Baixo fez algumas perguntas ao actor acerca dos seus tempos como coruja vidrada em Jazz na “Rua Sésamo” alemã, bem como sobre os vinte anos passados na pele do simpático dragão-trapalhão Poldi, um dos protagonistas da série de culto alemã “Hallo Spencer”.

Como e que entraste na profissão de puppeteer?

Inicialmente tinha estudado ballet clássico; após dois, três anos notei que não era bem ai que eu pertencia e segui para o teatro. Participei em duas ou três pecas num pequeno teatro em Munique, e foi nessa altura que começou a aparecer gente do Studio Hamburg, que e a produtora responsável tanto por “Hallo Spencer” como pela Rua Sésamo alemã, a perguntar se estaríamos interessados em participar num casting para puppeteers. Nos dissemos que não tínhamos conhecimentos a esse nível, e eles responderam que não fazia mal, eles ensinavam. Isso foi o caso com quase toda a gente da primeira geração dos programas que em alemão chamamos “bonecos de boca de dobradura”, não havia profissionais treinados. Havia quem soubesse tratar de fantoches de mão e de marionetas, mas este tipo de boneco tem a sua própria técnica. Para alem disso, e ao contrario do teatro de marionetas, aqui tratava-se de trabalhar para a televisão, ou seja, controla-se o que e feito através de um monitor; não estas a trabalhar para um público ao vivo, onde te podes orientar pelas suas reacções. Estas num estúdio, em silêncio, com um microfone, e estas a trabalhar para a camera. Parte da ideia também era gravar com o som em simultâneo, o que mais uma vez levou a que não se pudessem utilizar os marionetistas tradicionais: mesmo que estes se tivessem adaptado a técnica dos bonecos de boca de dobradura, regra geral nessa altura as pessoas nessa profissão falavam com sotaques regionais muito pronunciados. E assim alguém lembrou-se de recrutar actores. Começaram por perguntar nos teatros mais conceituados, mas ai os actores eram demasiado vaidosos, a posição era “a minha cara não vai aparecer, o meu nome não vai estar nos créditos? Não estou interessado”. Por isso decidiram ir ter com o pessoal dos teatros mais pequenos, que foi onde encontraram a gente indicada. No lugar onde eu trabalhava arranjaram cinco ou seis pessoas, mais cinco ou seis noutro, e ficou reunida a nossa primeira trupe. Aprendemos quase ao longo das emissões como trabalhar esse tipo de boneco e como desempenhar os nossos papéis – as cenas costumavam ser gravadas sem interrupção, o que significava que um take podia ir bem para alem dos cinco segundos e entrar na área de um minuto, minuto e meio, tudo isso gravado de quatro perspectivas diferentes, pelo que era muito importante ver no monitor o que a camera estava a gravar. Por exemplo, o olhar destes bonecos por si só e bastante estático, e podes estar a fazer com que o teu boneco olhe para outro na perspectiva da camera central, mas se mudas para a camera da direita de repente parece que o boneco esta a olhar para alem do outro. A edição era feita em simultâneo, portanto era preciso saber corrigir essas coisas ao sabor da camera. Tratava-se portanto não só de saber trabalhar com esses bonecos, mas de saber trabalha-los para a televisão.

Quanto tempo de aprendizagem tiveram?

Relativamente pouco, para ai umas quatro ou cinco semanas. Depois disso fizemos as primeiras gravações, que claro esta ficaram asquerosas, ou quando por vezes uma resultava era por sorte…depois, lentamente, ficamos melhores.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar na “Rua Sésamo”?

Enquanto trabalhava no “Hallo Spencer”, a mesma produtora começou a tratar da “Rua Sésamo” alemã. Naturalmente, decidiram recorrer aos talentos que já tinham.

Quando a “Rua Sésamo” estreou na Alemanha foi logo com uma versão própria?

De inicio, como em quase todos os países, começou com a versão original a ser transmitida em formato sincronizado. Mas a Children’s Television Workshop (a produtora da Rua Sésamo, agora conhecida como Sesame Workshop – nota do autor) teve a ideia que se poderia fazer mais negocio a volta do conceito. Começaram-se a criar contratos com a ideia de construir personagens próprias para os países; ter-se-ia, à mesma, pequenos excertos com o Cocas, o Poupas, etc. mas cada país que quisesse os direitos de distribuição teria que produzir conteúdo próprio. Claro que usaram argumentos pedagógicos, numa de “cada pais tem que ter algo fiel a si mesmo, existem terras com mais ursinhos e outras com mais sapos”, mas também havia um grande fundo empresarial, uma vez que isso permitia a Jim Henson criar novos bonecos, que eram pagos pelas estacões de televisão e bastante caros, e para alem disso vinham também instrutores da companhia, mais uma vez pagos, ensinar-nos a utilizar os bonecos “a seria”, porque os americanos claro que sabiam faze-lo muito melhor. Tudo isso mostra de forma bastante clara que também havia razoes económicas para esses acordos. Um dos professores que eu tive foi o Kermit Love, um membro do elenco original da “Rua Sésamo” americana e a inspiração para o nome americano do Cocas, para além de ser simplesmente o detentor de um nome excelente. Segundo o Kermit, a origem da serie veio menos da grande ideia pedagógica de fazer algo para os miúdos e mais da simples procura por uma lacuna no mercado. O Jim Henson, com o seu talento na área, tinha notado a falta de uma serie infantil de qualidade com valor pedagógico – e a esse nível a “Rua Sésamo” continua a ser a escala pela qual as outras series se medem, também pelo seu mérito em tratar de temas que vale a pena ensinar logo as crianças, harmonia racial e coisas assim. Mas e preciso não esquecer, o primeiro ponto de partida foi a vontade de ganhar dinheiro – não quero sobrevalorizar isso, mas foi um elemento bastante importante na origem da “Rua Sésamo” e da Henson Company, que acabou por valer milhares.

Que papel desempenhaste na “Rua Sésamo”?

Fiz o papel de uma coruja chamada Buh – não era uma grande tarefa, costumava ficar sentada numa árvore, volta e meia olhava para baixo e fazia um comentário. Na maior parte das vezes estava a ser arrancada do seu sono: era noctívaga, e as noites tocava trompete num clube de jazz. Tendia a ser uma personagem carrancuda, os outros brincavam e faziam barulho e o Buh só queria dormir.

Quem escrevia os guiões?

A NDR, o canal que transmitia a serie na Alemanha, criou a sua própria equipa para isso, sendo que os americanos também participavam no processo – os guiões eram regularmente submetidos a Henson Company.

Achas que a adaptação alemã da “Rua Sésamo” foi bem feita?

Assim assim, por vezes achava bastante secante, havia pouco para fazer. Era muito diferente do humor, na minha opinião mais arrojado, dos americanos – quando o Egas e o Begas falam, acabam por brigar bastante, e assim representavam também os instintos menos nobres da raça humana. Na Alemanha havia uma certa esterilização pedagógica, eram todos bonzinhos uns com os outros. Quando queria ser mesmo carrancudo com a coruja travavam-me, “não demasiado, não podemos assustar as crianças”. Prefiro de longe a americana, porque de vez em quando as personagens são mesmo mas umas com as outras, o que também e mais divertido para os actores. A maior parte das crianças que viram a versão alemã preferiam as personagens americanas, tinham mais timing e eram mais divertidas. O erro da redacção alemã foi pensar que, la porque as crianças não sabem contar piadas, isso significa que também não as entendem.

Mas o teu primeiro trabalho na área foi com “Hallo Spencer”. Como surgiu essa serie?

Quando a “Rua Sésamo” surgiu na Alemanha, viu-se que era possível trabalhar com esse tipo de bonecos, e surgiu a ideia de fazer um programa semelhante, mas “puro”, sem os elementos live action da “Rua Sésamo”. Havia personagens mais humanóides, outras mais parecidas com animais. A minha era um pequeno e estúpido dragão chamado Poldi. As personagens tinham o seu próprio microcosmo, o dragão vivia numa cratera, havia uma personagem que era uma espécie de esquilo que vivia numa árvore, e por ai adiante.

Quanto é que tu contribuíste para o Poldi?

Foi um processo bidireccional. Primeiro houve os bonecos – cada um dos puppeteers recrutados teve a oportunidade de pegar em cada uma das personagens, no fim ficávamos com a com a qual nos sentíamos mais confortáveis. Depois veio a questão de criar uma voz – adoptei um tom assim muito agudo e infantil. E os guionistas começaram a trabalhar com o que tínhamos improvisado. Claro que já antes houve uma certa linha orientadora, que dizia mais ou menos o que era suposto cada personagem ser, mas através da nossa pratica o conceito ficou bastante mais forte. E por ter estado no programa desde o inicio tive a possibilidade de inserir muito da minha personalidade – tinha dezanove anos, era tão ou mais palerma que o dragão, e deu para usar isso de forma produtiva. Havia uma maior autenticidade, porque as taras dos diversos actores eram integradas nas personagens. No “Hallo Spencer” tinha simplesmente mais liberdade, na “Rua Sésamo” tinha que me ficar pelos guiões.

Preferiste trabalhar em “Hallo Spencer”?

Foi mais agradável, porque deu para evoluir a personagem e os guionistas davam-nos mais espaço, podíamos ser mais maldosos uns com os outros, podíamos fazer mais slapstick, e eu aproveitava isso ao máximo. Mas a maior diferença era o “Hallo Spencer” ser 100% uma serie de bonecos, ao contrario da “Rua Sésamo”, que funcionava num formato de antologia, com uma acção de fundo a servir de base para varias rábulas e segmentos sem bonecos. No “Hallo Spencer” tínhamos trinta minutos para contar uma historia, e também dava para doar mais personalidade as personagens.



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