Festival Cuca Monga (26/27.09.2025)
Com a segunda circular como pano de fundo
Infelizmente só apanhamos a ponta final do concerto da fantástica Bia Maria. Chegamos mesmo a tempo para o «Lenço Papel», sobre partidas de quem importa. A voz de Bia Maria é afiada nas palavras entre canções e certeira nas canções. «Aconchego de um Sujeito» versa sobre a procura pela cara metade. Com direito à partilha de algo que Rodrigo Amarante lhe disse em Guimarães há um par de semanas: que por vezes a procura do amor, da cara metade, têm uma forma que não aquela que nós estamos à procura. Está no que nos rodeia, no espírito de comunidade, que alguns por sorte ou por acaso já estão a desfrutar, sem que se apercebam disso. «Marcha da Paridade» fala por si, com áudios de mulheres a falar sobre feminismo, direitos e igualdades. E depois, log de seguida, sem encores, porque “evita desilusões”, «Qualquer um pode cantar».
F.C. Éme e Moxila jogam em casa e fazem um fantástico uso do espaço exíguo que têm no palco. As canções são curtas mas sempre certeiras. «Estocolmo 1984» é entoada em coro e tem direito a simples e singelo, mas não menos honesto “Obrigado, malta!”. Éme tem o talento de conseguir cantar sobre aquilo que conversamos; umas vezes entre copos, outras mais a sério. Ainda cedo no concerto, o violino de Francisca Aires Mateus cede, levando-a a deixar o palco e enquanto isso escutamos algumas canções novas. Depois «Branco Maduro» cavalga de forma épica e «Exílio» onde “Trabalhar não é uma prisão, trabalhar é um exílio”. É impossível sair de mau humor de um concerto de Éme e da Moxila. Facto.
Há uma bandeira da Palestina estendida no palco e depois há Luís Severo a mostrar como fazer muito com pouco. É que Severo é um exímio escritor de canções. As palavras não são nem a mais, nem a menos. São as necessárias e isso é incrível. Escutamos as canções e sentimos que não há desperdício.
A Sul surge minimalista, apenas acompanhada por Marta Fonseca na guitarra. As canções são deliciosamente melancólicas e se nesta versão mais despida perdem um pouco da sua aura cinematográfica, não perdem a sua beleza. Sentimo-nos acolhidos ao som de «Já Agora», parcialmente em inglês. Algo que neste contexto chama realmente a atenção, porque destoa do registo, ainda que momentaneamente. «Tela» consegue apresentar aquele registo de banda sonora. É uma canção com um tempo próprio, que tem uma respiração própria e profunda. Segue-se «Foi Deus», de Amália Rodrigues, com um arranjo próprio da autoria de Marta Fonseca e verdadeiramente belo. Troca de papéis em «Bleba», com a guitarra a mudar de mãos e Marta Fonseca a simular a percussão suave com um saco de plástico, seguida de «Vinho de Caixa», porque há coisas das quais não nos esquecemos. A fechar está «Metáforas» numa versão à guitarra que pisca o olho à bossa nova.
Os Expresso Transatlântico arrancam sem demoras, no outro palco, desde logo com a guitarra portuguesa de Gaspar Varela a desbravar caminho, num post-rock em versão lusitana, mas com braços abertos para o mundo. “Ressaca Bailada” foi o passo em frente que a banda dos irmãos Varela e Rafael Matos, que volvido um ano continua a ser consolidado e a crescer, sempre à procura de novas dimensões. «Avalanche» integrará o novo álbum, piscando o olho a outras sonoridades, mas procurando manter a sua matriz. «Beco da Malha» envolve-nos numa monta russa de crescendos sucessivos verdadeiramente contagiantes.
Jasmim, parte integrante do cardápio da Cuca Monga, trás um registo assente nos teclados, suave e com um requinte e fragilidade a próprios. No palco, voltados para nós há três ecrãs que ora passam imagens, ora fazem as vezes de um karaoke. Escutamos «À Tua Vontade», «Dias em branco» e «Aprender a ver», esta última de guitarra em punho. «Agradecer» é dedicada aos pavões que habitualmente andam pelo espaço, para depois escutarmos um cover de «Norte Litoral» de Duquesa, alter ego de Nuno Rodrigues, também membro dos Glockenwise. Bia Maria, junta-se para a belíssima «Campo Cidade», que existe porque a Cuca Monga existe.
Sob aviso de tempestade, cantar, cantar
Segundo dia. Emmy Curl já canta quando chegamos, mesmo a tempo de escutar a voz de Agostinho da Silva, uma parte importante do seu “Pastoral”. O solar punk hoje terá de procurar em si mesmo, toda a energia que conseguir, porque o sol teima em não aparecer. Mas ao menos não chove, o que dado todos os avisos emitidos pelo IPMA é óptimo. Entre apelos à empatia, essa característica cada vez mais rara entre humanos, vamos passeando pelas canções de Emmy Curl. Pelo meio escutamos Zeca Afonso e Fausto Bordalo Dias. «Maio, Maduro Maio» e «Lembra-me um sonho lindo», respectivamente e com a devida afinação da guitarra pelo meio. Hoje todos os concertos vão desafiar as hipóteses e os desígnios climatéricos incertos que pairam sobre Lisboa durante esta e as próximas horas. Fecha-se ao som de «Nascimento», sobre esperança, que bem que precisamos.
O Palco Bosque perdeu um pouco o seu encanto fruto das circunstâncias e passou para dentro de uma pequena tenda, mesmo ao lado do palco principal. Aí, Yeri & Yeni, duo munido apenas de uma guitarra e as suas vozes, apresenta o seu R&B e pop, com raízes africanas em Cabo Verde, descontraído e sempre em inglês para que ninguém percebesse nada em casa, enquanto estavam a ser compostas, entre 2020 e 2023. O futuro, será cantado em português, mas até lá disfruta-se a última vez que estas canções serão cantadas ao vivo.
B Fachada voltou a provar, num concerto molhado pela chuva, que continua igual a si próprio — inclassificável, teimosamente livre e irresistivelmente próximo do público. Entre uma piada sobre pipocas e a promessa de “cantar canções com 20 anos”, o músico construiu um espetáculo que se move entre a provocação e a comunhão, tocando temas que todos conhecem “para não ter de se apresentar”. E, de facto, não precisa: há muito que o nome de Fachada dispensa apresentações, bastando-lhe um acorde para dar contexto a tudo o que o rodeia.
O concerto foi um vaivém entre o riso e a reflexão, entre as “maldades e agonias” e o “céu dos agnósticos”. Uma mulher subiu ao palco “para acalmar”, e logo a seguir o músico mergulhou em temas que atravessam o país real — dos fascismos à imigração, das contradições quotidianas às violências que se disfarçam de normalidade. No meio disso tudo, surgem peças como “Padeirinha” ou “Eu não sou daqui”, canções que já pertencem à memória coletiva, mesmo que o próprio insista em reinventá-las a cada atuação.
Com o Fachada, é impossível discutir o alinhamento ideal — e ainda bem. Parte do encanto está exatamente nessa imprevisibilidade que transforma cada concerto em algo único. Canções antigas ressurgem ao lado de outras mais recentes, todas ligadas por uma coerência interior que só ele compreende. Fachada continua, assim, a contribuir ativamente para o que se vai afirmando como o novo cancioneiro português do século XXI: uma tradição reinventada, feita de anti-fado e de “tradmosh”, de solidão filosófica e ternura popular.
No final, a sensação que fica é a de ter assistido a um ritual em permanente mutação. Entre a chuva, o humor e a crueza das palavras, B Fachada reafirma-se como um grande amante da imperfeição e da veracidade. A sua música, simultaneamente erudita e popular, parece querer apenas uma coisa: lembrar-nos de que continuamos todos a olhar uns para os outros, “enamorados”, mesmo depois de mil anos de destruição.
Sob a tenda que a escondia do olhar direto do público, Chica deixou que fossem as canções — belas, delicadas e intensas — a ocupar todo o espaço. A frustração de não a ver contrastava com o prazer de a ouvir, tornando-se, paradoxalmente, um elogio à força da sua música. Entre temas novos e antigos, apresentou um comovente cover de Violeta Parra, La Carta”, e partilhou histórias que revelam um caminho claro e confiante num futuro álbum já prometido por contrato. No calor sufocante das residências que inspiraram parte destas canções — “43 graus e nem brisa a passar” —, Chica mostrou que a vulnerabilidade também pode ser afirmação. Fechou com ironia e ternura, cantando “Isto é só para quem quer” e «Brincar com o Cão», deixando-nos com a sensação de ter testemunhado uma artista em pleno florescer, mesmo que parcialmente oculta.
Zé Ibarra trouxe ao palco uma leveza que parece exclusiva de quem nasceu com o violão nas mãos e o Atlântico como pano de fundo. Carioca até à medula, o músico mostrou que a sua musicalidade não é apenas técnica, mas também uma extensão natural da sua forma de estar — doce, curiosa e desarmada. O concerto começou sem pompa nem estrutura rígida: não havia banda, apenas a vontade de cantar, partilhar e criar um instante comum. A cada canção, Ibarra revelava fragilidade e coragem em doses iguais, lembrando que se pode ser “frágil pra caralho” e, ainda assim, profundamente verdadeiro perante os outros.
A noite ganhou uma “tropicalidade picante” com «Segredo», e seguiu com momentos de pura empatia entre artista e público. A química foi imediata — bonita de se ver e sentir — sustentada por essa entrega total que fez de «Transe» um ponto alto, mesmo despida dos arranjos originais. Zé cantou também em inglês, num gesto subtilmente provocador, antes de homenagear Sofia Chablau e Bala Desejo, cruzando-se entre linguagens e referências com naturalidade desconcertante. Cada interpretação parecia um convite à vulnerabilidade partilhada. “Vamos sofrer juntos?” perguntou, antes de se lançar à melancolia luminosa de uma canção sobre amor e desencontro.
Entre risos, confissões e improvisos, Ibarra contou como uma canção nova nasceu do medo momentâneo de um voo — um medo incomum, mas revelador de um desejo simples: querer estar vivo. Já perto do fim, tocou um derradeiro tema como quem se despede sem saber se há mesmo um ponto final. “Será que este é um ponto final?”, canta, deixando a dúvida no ar. No espírito dos festivais como o Cuca Monga, o espetáculo manteve-se fiel a um princípio raro: a descontração como valor artístico. Sem exigência de perfeição, apenas espaço para o erro, para o riso e para aquela centelha de humanidade que faz com que certas noites perdurem muito depois da última nota.
Nota do autor: não foi possível estar presente até ao final de ambos os dias por motivos profissionais, razão pela qual a reportagem não menciona as últimas bandas de cada uma ds noites.
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