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“Chuva pesada” de Don Carpenter

Retrato cru e rude de um sobrevivente

Há livros que não envelhecem. Apenas esperam que o mundo amadureça o suficiente para os compreender. Chuva pesada de Don Carpenter, que chegou a trabalhar como argumentista em Hollywood, é um desses casos raros. Publicado em 1966 e agora editado em Portugal pela D. Quixote, o romance volta a lançar uma sombra densa sobre o sonho americano, hoje cada vez mais uma miragem face a uma administração retrograda, assumindo-se como um clássico esquecido que voltou para incomodar.

Jack Levitt é o protagonista e a sua vida tem sida madrasta. Foi abandonado pelos pais, cresceu em várias instituições, vai sobrevivendo nas ruas de Portland e mergulha de cabeça num universo de salões de snooker, esquemas e prisões. É nesse universo em estado bruto que encontra Billy Lancing, um jogador genial, franzino e marcado por uma identidade racial que o mundo não sabe onde encaixar: não é branco, nem preto… Juntos, partem à aventura, cruzando-se entre a liberdade e a reclusão, integrando um retrato pungente da marginalidade, abraçando a solidão e o que resta da humanidade quando tudo o resto falha.

Através de uma narrativa direta, dura e sem filtros, Carpenter descarta sentimentalismos, mergulhando numa escrita tensa, muito física e cinematográfica. E pelos olhos dos protagonistas somos confrontados com a pobreza, a violência e a exclusão, ainda que exista um pudor em transformar o sofrimento em espetáculo. Dessa dinâmica e diálogo, nasce uma empatia especial com base numa compaixão que recusa falsas piedades, conseguindo iluminar, ainda que de forma breve, os cantos sombrios das personagens.

Mas, em Chuva pesada há também uma ideia de ascensão social, qual mito fundacional da América, que implode, com Carpenter a mostrar-nos o reverso do sonho, o quotidiano dos que nunca chegam ao que ambicionam. E a esses, restam as prisões, os becos, as vidas cortadas por acasos e injustiças, palcos de uma reflexão sobre as contas do destino e das escolhas. Nessa equação, Jack e Billy não são heróis nem vilões, mas sobreviventes de um sistema que não os reconhece. E a chuva que versa no título deste livro pode ser uma metáfora do ambiente em que a dupla deambula, qual prenuncio de castigos e desventuras. É metáfora e ambiente, prenúncio e castigo. Para isso contribuindo uma intensidade emocional devastadora que rima com uma precisão cruel que torna cada frase numa bala perdida.

Não sendo um livro fácil, devido a várias camadas de violência, solidão e melancolia, Chuva pesada é um desafio que causa desconforto, que fere, mas cuja honestidade faz com que devoremos página após página, num exercício de encontrar a redenção no seio de uma beleza perdida e marginal, onde os sonhos rapidamente se transformam em pesadelos.



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