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Há Luz Para Além do Negro: Film Noir

Dizem que os tempos são de “crise” e a depressão associada à repressão monetária sempre trouxe liberdade artística de formas pouco convencionais e sempre originais. O film noir liberta o cinema clássico de Hollywood e pinta de negro o melodrama e o crime policial.

O film noir é um termo cinematográfico usado para descrever um certo tipo de filmes policiais dramáticos vulgarmente pintados de tonalidades cinzentas que roçam os limites da condição humana, polvilhados com algum inuendo sexual. É na tradição dos grandes romances policiais que se escrevem as estórias de sedução, crime, intriga, violência e desespero, sempre associadas à fotografia a preto e branco que é directamente influenciada pela vaga do expressionismo alemão.

Situamo-nos numa América no final da segunda-guerra, os anos 40 foram tempos de crises e contenção e o país foi invadido uma vaga de imigração. Muitos directores e técnicos alemães trouxeram as suas visões e ensaios sobre a luz e técnicas diferentes de filmar o já vulgar melodrama de Hollywood. Nessa altura estava também vigente o Hays Code, uma espécie de código de censura que proibia a sexualidade explícita, os beijos longos, a promiscuidade, a subversão moral, no fundo, promovendo o bom espírito Norte-Americano da ordem e o estilo conservador. O film noir é caracterizado por conseguir subverter subtilmente muitas dessas convenções.

Os filmes que se catalogam como film noir eram vistos na altura apenas como dramas, estórias de paixão e traição, que privilegiavam a literatura policial: muitos dos filmes são adaptações directas de romances como os de Raymond Chandler ou Dashiel Hammet. A figura do detective privado (private eye) e a femme fatale são ícones do noir. A difícil e concreta categorização do género deve-se a vários factores, o termo film noir só foi usado em 1955 pelos críticos Franceses Raymond Borde e Etienne Chaumeton. O noir é principalmente um estilo visual, a utilização de iluminação pouco convencional, o uso das sombras e da câmara subjectiva, tudo artifícios importados do expressionismo alemão dos anos 10 e 20. Os protagonistas nem sempre são detectives, há o ocasional homem comum que se vê numa teia de crime e conspiração (por exemplo em “Detour”), ou o serial killer (“The Night of the Hunter”). Não é aceite com unanimidade que film noir seja um sub-género específico de cinema, como a comédia de situação.

Mas há uma aura no film noir que é mais forte que todo o cinema clássico do pós-guerra, a subversão do happy ending, a atmosfera de sonho/pesadelo, o diálogo cortante que é uma consequência directa do romance policial, a noite que é quase sempre o palco preferido destes filmes pintados de negro. As teias de conspiração intrincadas e a própria personagem do detective privado, elementos chave de muitos noirs clássicos. São também filmes de baixo custo, nunca excedendo a hora, hora e pouco, e por isso bastante experimentais na sua forma clássica de contar a estória: novamente, a influência e participação de muitos técnicos e realizadores Alemães que procuraram refúgio na terra das oportunidades.

Um dos mais clássicos noir, são todos eles filmes clássicos – passo a redundância, é sem dúvida “The Maltese Falcon”, que introduziu Humphrey Bogart. O actor iria ser conhecido pelos seus papeis em Casablanca e como detective Phillip Marlowe, e protagonista de um dos mais tórridos romances do grande ecrán: “Bogart e Bacall”. Este é o clássico filme do detective e da mulher fatal, personagens cínicas e fora do estereótipo do galã de Hollywood. Sam Spade é um detective privado que é apanhado numa teia de mentiras e conspiração quando um grupo de três homens sem escrúpulos o tenta contratar para obter a relíquia mais fantástica de sempre. É um marco também pela forma como John Huston filma este noir, cuidadosamente enquadrando os personagens segundo as suas motivações, especialmente Bogart. Mary Astor desempenha aqui o papel da femme fatale.

Um dos noir mais aclamados pela sua perfeição é “Out of the Past”, de Jacques Tourneur. O uso da cinematografia que utiliza a luz para dar profundidade é sublime e a atmosfera é de quase-sonho, onde a realidade confunde-se com a magnífica fotografia. Robert Mitchum é exemplar no seu papel de ex-detective que vê o passado tomar-lhe as rédeas do futuro. Perfeito em todos os segundos, este é um noir que para além de estabelecer um género, é um filme absolutamente essencial.

Uma pequena pérola é “Detour” de Edgar G. Ulmer, um filme de muito baixo custo filmado numa semana. Um pianista parte à boleia para atravessar os Estados Unidos de forma a re-encontrar-se com a sua noiva, mas pelo caminho o condutor que o auxilia morre sem explicação. Com medo de ser apanhado como culpado, livra-se do corpo e troca de identidade com o morto. A reviravolta dá-se quando entra em cena a femme fatale deste noir, Anne Savage. A narração é sombria, assim como a cinematografia que usa artifícios simples para dar espaço aos actores de brilharem no meio da escuridão e do pesadelo das suas personagens.

Outro brilhante exemplo é “They Live by Night”, a primeira longa de Nicholas Ray. Desta vez é um casal em fuga que protagoniza um romance trágico e cruel que é filmado em comunhão perfeita entre os dois actores que o desempenham, Cathy O’Donnel e Farley Granger.

O segundo período clássico do noir continua pelos anos 50. Destaque para “The Night of the Hunter”, um filme pouco convencional para a época, a única realização do actor Charles Laughton, que encena de forma perfeita a estória real do assassino Harry Powers. O estilo expressionista, a utilização de planos subjectivos e metáforas visuais acentuam o argumento de cortar à faca. A fotografia é simplesmente perfeita; a luz e a escuridão são também personagens, os ângulos enquadram as personagens no meio dos seus pesadelos utilizando a arquitectura e a natureza para o efeito. Infelizmente, este filme foi quase ignorado na estreia e só anos mais tarde considerado uma obra prima do cinema clássico de Hollywood, e também um dos primeiros thrillers de quase terror.

O noir clássico lembra-nos que há luz para além do negro. Há estórias de uma perfeição notável que merecem ser absorvidas, a estrutura clássica é como um refrão que não cansa o ouvido, a escola de actores mais conservadora, que vem do teatro, a utilização da iluminação e da fotografia para criar uma atmosfera forte. Nem só de gabardinas vive o cinema do século passado, as crises servem para fazer clássicos. Mãos à obra.



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