rdb_estrangeirosemportugal_header

De lá para cá…

Vêm de países tão distintos quanto a Bélgica, o Nepal, a Argentina ou a Áustria, por exemplo, e de sorriso no rosto fazem um caminho de descoberta. Enraizados no nosso país, de novos encantos pontuam hoje esse recanto que um dia conquistaram, aqui.

Jimmy

Ex-porteira do BedRoom, Bairro Alto

O meu primeiro patrão, no Café Diário, era do Chile e obrigava-me a falar português! [risos] Isso foi bom para me forçar a aprender. Mas, mesmo assim, demorei cerca de dois anos para conseguir falar fluentemente…

É a prova provada de que em Portugal as coisas também fluem bem e depressa, quando a conjuntura assim o permite e as circunstâncias se conjugam na perfeição.

Tudo aconteceu há 14 anos, quando o euro ainda não nos levava à crise, nem o desemprego ao desespero: “Cheguei aqui em 96. Eu sempre quis viver num país com sol e com um clima agradável, com praia… Tinha uns amigos que tinham aberto cá uma loja e então vim ter com eles, sem trabalho, sem nada, e nem sequer sabia falar português. Mas não demorou nem dez dias para que conseguisse um emprego. Fui viver com mais quatro pessoas numa casa na Bica. Era um francês, uma franco-portuguesa e uma portuguesa. Comecei a trabalhar no Bairro Alto, no Café Diário. Depois, passei ao Café Suave, o Clube da Esquina, o Frágil, A Capela, fiz a abertura da Capela.

Depois comecei a trabalhar de dia, ao mesmo tempo. trabalhei para o realizador Edgar Pêra. Na Bélgica tirei um curso de cinema e depois, quando cheguei, cá procurei trabalho em cinema. Não foi muito fácil, mas cheguei a conhecer o Edgar Pêra e então trabalhei com ele, tratei dos festivais e ainda no Festival de Curtas de Barcelona, em Hamburgo e na Grécia. Foi muito giro! E depois, claro, era uma área complicada, porque não havia muito dinheiro e acabei por sair. Entretanto, comecei a dar aulas de francês… E depois, como trabalhava à noite, fui conhecendo imensa gente, como o Anthony Millar, que é DJ e comecei a ajudá-lo a encontrar sítios para tocar, acabei por trabalhar na agência onde ele estava agenciado e depois, quando ele saiu, fiquei agente dele. Entretanto, comecei a trabalhar mais nesta área e depois acabei por criar a minha própria empresa, uma agência de organização de eventos e que também trazia DJ’s de fora, nomeadamente da Bélgica e da França. Trouxe o DJ Jo Foian, por exemplo, da Bélgica e o Ivan Smag, de Paris. Só que também não era assim tão fácil, porque se ganhava à percentagem e como eles não vinham, claro, todos os fins-de-semana, acabei por fechar a agência.

Entretanto, fiz muitas coisas, trabalhei na Bica do Sapato, como Relações Públicas, foram três anos da minha vida muito giros! Depois, trabalhei no Mundo Mix, em três edições, na Moda Lisboa, no Stockmarket, em duas edições… Também estive no Garage, nos afters. Essa também foi uma altura muito gira, mesmo! Na altura em que os afters do Garage eram mesmo um mundo! Encontrava-se lá toda a gente, figuras públicas, estava o mundo inteiro lá… Era uma época muito engraçada e um ambiente muito giro. Fiquei a trabalhar aí dois anos e conheci imensa gente. E depois o Bedroom chegou porque conheci os donos na Bica do Sapato, o Ricardo Pinho e o Duarte Uva, e eles convidaram-me para integrar um projecto novo que estavam a preparar. É um sitio muito engraçado e gostei muito de lá estar! Só que depois de três anos, cansei-me um bocado… Entretanto, trabalhava de dia, na Fujitsu, onde comecei há dois anos e continuo, e queria ter os fins-de-semana também para mim para descansar.

Hoje, estou na Fujistu e tenho uma amiga, a Bárbara Noronha, que está a organizar umas festas que se chamam The Club e acontecem uma vez por mês, o que para mim é óptimo: dá-me para fazer porta e RP ao mesmo tempo e é sempre num sítio diferente, é muito giro!”

Conjunturas à parte, hoje, aqui e agora, é onde se sente bem: “Hoje em dia não é tão fácil, as pessoas estão a passar por um mau bocado, mas mesmo assim os portugueses têm uma característica muito boa: sorriem e andam para a frente”, admite em registo de sorriso. Mas este não é um sorriso qualquer. Foi construído e conquistado e neste pedaço à beira-mar encontrado: “Na Bélgica, as pessoas são muito mais centradas no trabalho e em construir uma carreira e ganhar dinheiro. Mas eu pergunto-me: ‘ganhar dinheiro para quê?’ As pessoas lá, acabam por guardar, são mais poupadas, mas não lhes serve de nada o dinheiro, apenas poupam… Aqui em Portugal, as pessoas vivem! Vivem com ou sem dinheiro… E depois, logo se vê! [risos] E eu adoro isso. É algo completamente diferente. Já na Bélgica eu era assim… Portanto, aqui é mais fácil para mim!” [risos]

Encantou-se um dia por este lugar e de novos encantos traça hoje esse caminho. Jimmy, como aqui a conhecem, vive bem, de acordo com o que sempre quis e hoje é feliz, neste que é um lugar em constante mutação: “Há muitas coisas boas que começam a nascer agora. Penso que Lisboa, à semelhança de outras capitais europeias, está a ficar uma cidade alternativa, com propostas alternativas de lojas que abriram e exposições que abrem à noite. O LX Factory, por exemplo, é um espaço fabuloso. Depois, os concertos de jazz aos domingos nos jardins, também são iniciativas bem giras! Eu adoro Lisboa e adoro Portugal. Gosto do facto das pessoas andarem muito na rua, o que não se faz na Bélgica… Não penso, tão depressa, sair daqui.”

Origem: Bélgica

A viver em Portugal há: 14 anos

Encantam-lhe: “As diferenças de norte a sul do país. A beleza do Alentejo. As paisagens singulares e a riqueza natural ímpar num todo.”

Gosta de passear: “Na marginal de Cascais, onde moro. Na zona antiga de Lisboa. Adoro a zona do Príncipe Real, o Jardim São Pedro de Alcântara, o Jardim da Estrela, o Chiado, a Baixa, também é muito bonito. E agora a zona ribeirinha, que se está também a desenvolver muito e onde estão a nascer projectos giros, como o Urban Beach.”

Tanka Sapkota

Chefe proprietário do restaurante Come Prima, em Lisboa

“Uma palavra muito difícil em português?

Chá! Nunca na vida vou aprender a pronunciar chá como deve ser. [risos] Quando peço, tenho de escrever para as pessoas me entenderem.”

“Sabia onde nasceu o Buda? Foi no Nepal e não na Índia, contrariamente ao que muitas pessoas pensam. É um país lindo!” explica o responsável pelo Come Prima, um dos restaurantes mais carismáticos da capital portuguesa.

Era “um miúdo”, como refere, quando deixou a terra natal, há 18 anos atrás. Para trás, ficaram os estudos e a paisagem, que tanto ama. Pela frente, a vontade de conhecer o mundo: “Tinha um amigo, também nepalês, na Alemanha e quis ir ter com ele, queria ir conhecer a Europa. Então, larguei os estudos, deixei o Nepal e fui ter com ele. Trabalhei 4 anos e meio na Alemanha em restauração, que era o que sabia fazer. De início, a lavar pratos e depois como ajudante de cozinha num restaurante de primeira classe. Nesses 4 anos e meio consegui aprender mais ou menos um bocadinho de alemão, um bocadinho de italiano e também um bocadinho de cozinha italiana, porque a Alemanha tem emigração de anos de guerra, 40 ou 45, e então tem muitos italianos e muitos restaurantes italianos. Mas a Alemanha é um país um pouco racista e acabei por ir embora.”

Destino: Portugal. E o que era para ser um período curto de tempo, rapidamente se transformou numa vida, como explica: “Em 96 cheguei a Portugal. Não era para ficar muito tempo, era para ficar umas semanas… Mas acabei por ficar. Quando cheguei, a restauração e nomeadamente a cozinha italiana era muito escassa, havia poucos restaurantes. Comecei por trabalhar na cozinha do Tratoria, um restaurante italiano. Trabalhei em mais dois restaurantes e depois, em 1999, abri um restaurante meu, o Casanova, o restaurante que tive antes do Come Prima. Começou a ter um sucesso tal, que tive de ampliar o espaço, passando para onde estamos agora, na Rua do Olival, isto em 2001. E o sucesso continuou… Primeiro, porque quis, desde logo, marcar a diferença por ser um restaurante de cozinha tradicional italiana, onde as pessoas comem de forma requintada, onde os produtos são escolhidos em pormenor, para que a qualidade da refeição seja primasia.”

Habituado, desde sempre, ao trabalho árduo, fez de um caminho que se adivinhava complicado, um processo de aprendizagem: “No início fizemos sacrifícios, mas tivemos depois os frutos, também. Logo na segunda ou terceira semana depois da abertura, começámos a ter filas para o almoço, tínhamos fila para o outro lado da rua, de pessoas que faziam questão de almoçar no nosso restaurante. Tínhamos 32 ou 34 lugares e aos almoços nós fazíamos isso três vezes, ou mais! Era comida feita por amor e os clientes sentiram logo isso. Mesmo à noite, por volta do terceiro mês, já não se aguentava de gente. Foi um trabalho muito árduo, mas graças a isso hoje crescemos e estamos aqui.”

Num primeiro contacto com o chão português e estas gentes de terras lusas, o saldo foi, desde logo positivo: “Achei a paisagem linda… E depois também gostei logo das pessoas, super simpáticas, acho que até um bocadinho mais próximo do nepalês e muito diferente do alemão.”

Hoje, quando olha para trás, é com carinho e um orgulho do tamanho da sua coragem, que o faz: “Há 11 anos atrás, eu era um miúdo e as pessoas perguntavam sempre quem eu era, se era cozinheiro, se era italiano… Dentro do mundo da restauração, ouvia as pessoas comentarem: ‘ah é nepalês e faz comida italiana?’ Mas como as pessoas faziam fila, nós nem sequer tínhamos tempo para conversar, nem eles tinham coragem para questionar porque era nepalês e não italiano.” Fácil de fazer amizades, no nosso país a integração em nada foi complicada, como explica: “Eu consigo fazer amizades tão facilmente, que não me custa nada! Até com as pessoas da Segurança Social! [risos] Quando eu cheguei aqui a Portugal, a Junta de Freguesia de Odivelas, onde precisava de um documento, não conseguiu desbloquear a situação. Fui ao SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras – e arranjaram-me não só o que queria, como um papel assinado por 11 funcionários a dar o ok à minha vinda para Portugal! Com esse papel, fui à junta de freguesia e ficaram admirados como foi fácil… [risos] Fui muito bem aceite em Portugal e o meu restaurante foi muito bem acolhido.”

A língua, um desafio inicial, diz: “Ainda não aprendi! [risos] Aprendi na rua, mesmo, nunca aprendi numa escola. Mas, se tivesse tempo um dia, estava a dizer para a minha mulher, vamos estudar… Mas eu consegui perceber bem, porque falava italiano, é mais fácil. Mas até perceber, é um bocadinho complicado…”

Origem: Nepal

Em Portugal há: 14 anos

Encantam-lhe: “Gostamos de tudo! Da paisagem, que tem a mesma beleza natural que tinha o Nepal. Da calma… Gostava de conhecer Portugal inteiro: Porto, Madeira, que dizem que é muito bonita, Açores… E depois adoro a cozinha, gostava de fazer um curso de cozinha portuguesa, para conhecer melhor os produtos, como o bacalhau, que fazem de mil maneiras.”

Gosta de passear: “Pela praia, têm praias fantásticas! E pelos jardins, eu e a minha mulher passeamos muito pelos jardins, que são lindos! Também vou muitas vezes ao Colombo, mas por causa da minha mulher! [risos] Gostamos muito de passear pela cidade. Um amigo meu um dia perguntou-me: ‘vocês não estão abertos ao domingo?’ Ao que respondi que não. Se eu estivesse aberto ao domingo, era o terceiro dia mais forte da semana, mas fecho porque para mim o domingo é um dia especial, é o dia de descanso e de passeio com a minha mulher e os meus filhos”

Barbara Ostwalt e Catherine Bauer

Proprietárias do Pois Café, em Lisboa

Um hábito que tenha adquirido cá? Beber caipirinhas! [risos] Na Áustria, os cocktails eram caríssimos e além disso, aqui são muito melhores!

A culpa foi da viagem que fizeram pela América Latina: deixou-lhes o gosto por terras de sangue latino. Saíram da Áustria, terra mãe, para um progresso na carreira em Londres. O progresso veio, mas cedo veio também a vontade de descobrir novos horizontes, como explica Catherine Oswalt: “Queríamos as duas ir viver para outro sitio. Depois de dez anos em Londres, queríamos partir à descoberta de algo novo. Foi então que iniciámos uma viagem pela América Latina. Nessa viagem, surgiu a ideia de fazermos algo juntas, como abrir um café. E queríamos um lugar que nos trouxesse um pouco da vida latina, mas calmo, ao mesmo tempo, e que tivesse mar perto e um clima ameno. Viemos a Lisboa ver a cidade e apaixonámo-nos logo!”

A paixão mora no número 93-95 da Rua São João da Praça e foi “muito fácil de encontrar”, como refere a proprietária: “Estávamos em pleno Euro 2004, uma loucura por todo o lado… E então andámos à procura de lugares… Demos com um anuncio num local para arrendar em Alfama e nem pensámos duas vezes! Vimos lugares, por exemplo, no Bairro Alto, mas quando chegámos a Alfama, sentimos algo de muito especial: o ambiente de bairro, as pessoas… E depois é uma zona muito antiga, com muito fado, muito tradicional. E vimos que aqui não havia um café confortável, para as pessoas ficarem até um pouco mais tarde. E foi assim que tudo começou!”

A completar 5 anos, o Pois Café, que dantes era uma loja de mobiliário, rapidamente se tornou um lugar de  referência na capital. Poucos são os que lá se dirigem e não se sentem um bocadinho ‘em casa’. O ambiente confortável e a atmosfera tranquila são linhas mestras, como explica Catherine: “Não tínhamos nenhum plano quando abrimos, não delineámos que iria ser de uma forma específica, apenas queríamos que fosse diferente. Fomos às lojas de mobiliário ver opções e então fizemos uma colecção engraçada, onde encaixámos as coisas de forma muito natural, e acabou por ficar uma mistura descontraída, que faz com que as pessoas se sintam em casa.” O nome, “sem tradução fácil para alemão ou inglês”, como explica, acaba por funcionar como o slogan perfeito: “Quando chegámos a Portugal, reparámos que as pessoas repetiam a palavra ‘pois’ umas 600 vezes durante o dia! [risos] Perguntámos às pessoas o que queria dizer e todas nos diziam que não tinha nenhum significado em especial… Então, fomos ver ao dicionário e encontrámos uma tradução para alemão que dizia: ‘quando se está a dar importância e a indicar que estamos a perceber o que a outra pessoa está a dizer.’ Achámos a palavra tão engraçada, que acabou por ficar o nome do café. E resulta na perfeição, porque o conceito do café é esse: estamos aqui para ouvir o cliente e para o servir bem, quase como se fossemos um posto de turismo!” [risos]

Apaixonadas hoje por um país onde “as pessoas andam como querem e são o que são, sem ninguém apontar o dedo, uma sociedade aberta, ao contrário da Áustria ou a Alemanha”, admitem que as saudades de casa começam agora a apertar. A viagem de regresso, no entanto, não tem data marcada, nem se prevê para perto, porque Portugal continua a falar mais alto.

Origem: Áustria

Em Portugal há: 5 anos

Encantam-lhe: “Gosto muito da Costa Alentejana, aquelas praias, gosto de descobrir e ir à aventura! E gosto também de algumas praias fluviais que há cá em Portugal. Vi muitas o ano passado e adorei. Acho que é algo ainda pouco explorado. Vamos sempre para a praia da costa e acho que em Portugal há sítios lindíssimos de praias fluviais, no interior, que ainda têm muito para ser descobrir. Outra paixão é o peixe fresco e o marisco! O melhor da Europa, especialmente fora de Lisboa. Na Áustria ou em Londres, nem pensar em comer marisco, porque é caríssimo! Mas também comer marisco no centro da Europa é algo um bocadinho estranho, porque não há tradição de gastronomia proveniente do mar… E aqui não, porque se trata de comer algo que existe em volta, que é o produto do mar desta costa toda!”


Fotografia de Enrique Díaz



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This