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Gil Scott-Heron @ Aula Magna

A arte da desaparição.

“Gil Scott-Heron voltou” ler-se-ia nas parangonas de todos os jornais pelo país fora, se a música fosse mais relevante que a crise mundial e a visita do papa e a vitória do Benfica no campeonato. Ainda assim, o regresso de Gil Scott-Heron aos discos com “I’m New Here”, depois de 16 anos à deriva, depois de 10 anos dentro e fora da prisão por posse de cocaína, foi saudado um pouco por todo o lado, até em Portugal.

E Gil leu todas essas críticas ao seu disco (imagino que não as portuguesas), porque, a meio do monólogo que precede o concerto, diz ter descoberto por elas que tinha desaparecido. E brinca com isso, que desaparecer dá jeito, quando se vê alguém a quem se deve dinheiro ou quando se passa pelo namorado da rapariga que se anda a “comer”. Avisa também que se desaparecer a meio do concerto que não lhe peçamos o dinheiro de volta.

O mais engraçado é que ele não estava a brincar, Gil Scott-Heron desapareceu mesmo do seu próprio concerto, mas o que é certo é que não passou pela cabeça de ninguém pedir o dinheiro de volta.

Gil Scott-Heron entra pelo palco da Aula Magna e já alguns se levantam para o aplaudir. Gil agradece e fica algum tempo a mandar umas larachas para o público, qual stand-up comedian, a quem perdoamos as piadas mais gastas, por uma ou outra bem metida.

De seguida, após se afirmar bluesologista – Doutor Gil, especialista em toda a música negra – lança-se a “Blue Collar” sob uma nuvem de fumo azul, sozinho no palco, sentado ao órgão, só órgão e voz, e na aquele momento sabemos que aquele vai ser o melhor concerto do ano, o melhor concerto de sempre. O conto oral africano das estações africanas e “Winter in America” só o vêm confirmar.

A voz de Gil Scott-Heron já não é jovem, cheia de limpidez, vigor e activismo político, agora é suja, gasta. de uma rouquidão que só uma vida dissoluta pode causar, é velha, cansada, cheia de arrependimento e exaustão, mas a urgência é a mesma. E as canções que vem de outro tempo são tão deste tempo como a voz de outrora se transformou na de hoje.

Gil demonstra o seu bom humor entre as canções, embora se lhe note algum agasto pela quantidade de vezes que foi “samplado” – ele, que aos 61 anos, já não tem idade para essas coisas – principalmente com a canção “The People” de Common que lhe sampla “We Almost Lost Detroit”, que ele toca para não se esquecer que é dele.

É por esta altura que se lhe junta a teclista, e depois o tocador de congas e o tocador de harmónica. E juntam-se-lhe bem, todos músicos virtuosos, não se mostram em excesso. Até aqui o concerto é tão bom como os do Bill Callahan (de quem faz uma versão no novo álbum): justo, simples, numa palavra, perfeito.

Mas começa-se a notar um cansaço em Gil Scott-Heron, que sai de palco, dando lugar a uma composição da sua teclista Kim Jordan. O que é para ser um interlúdio, um intervalo, foi o início do resto do concerto: a justeza que até aí imperava dá lugar ao despique de músicos virtuosos, aos solos derivativos que relegam Gil – mesmo depois de voltar – para os bastidores do seu próprio concerto.

Ele bem que avisou que era capaz de desaparecer e assim o fez, se ainda tivemos fogachos do génio de Gil Scott-Heron: “Pieces of a Man”, “The Bottle”, eles foram sendo submergidos pelo espectáculo “Montreaux” (como disse um amigo meu), ensaiadíssimo, rotineiro, chato.

E o que era o melhor concerto do ano, o melhor concerto de sempre deixou de o ser. Não se lhe pedia que tocasse as emblemáticas “The Revolution Will Not Be Televised” ou ” Home is Where the Hatred is” ou mais do seu último e muito bom álbum “I’m New Here” (do qual só tocou uma canção), e até percebemos que tenha de se ausentar por momentos para descansar, mas não era preciso ser tão parco, tão parco como é nas suas letras precisas ou no uso da sua voz, não era preciso ser tão parco ao ponto de delegar o concerto aos seus músicos.

Fica a memória das três primeiras canções, que só por si mereceriam a Gil Scott-Heron as três justíssimas ovações de pé a que teve direito e o retorno ao palco já depois do P.A. estar a debitar música. E fica também o desejo que haja “Better Days Ahead” na vida de Gil Scott-Heron, porque apesar de todas as agruras, de todas as tristezas, da pobreza, do racismo que passam por toda a música de Gil Scott-Heron, e também pela sua vida, há sempre uma esperança ao fundo do túnel.

Ilustração de Isabel Salvado



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