Interpol em Madrid

25 de Abril de 2005.

Ainda que já lá vão mais de 10 anos, recordo-me bem da tristeza que sentia pela impossibilidade de ver concertos de bandas ou artistas internacionais em Portugal. Hoje em dia, a situação alterou-se substancialmente mas ainda há alguns casos que nos vão remetendo para o sentimento de frustração de outrora. Como diz o ditado popular: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé! E lá rumámos no dia 25 de Abril a terras vizinhas para assistir ao encerramento da digressão europeia dos Interpol em Madrid.

A controversa Sala Riviera (conhecida pelas deficiências acústicas), à beira rio plantada junto ao palácio real da capital espanhola, esperava-nos completamente esgotada e com uma consequente monumental fila no exterior. Já lá dentro, o recinto envidraçado com direito a vista para a savana da estufa situada mesmo ao lado, remetia-nos para a dimensão das fábulas de bosque encantado. Foi neste ambiente quase idílico (ainda que com excessivo calor à mistura), que fomos confrontados com o que restava da actuação dos norte-americanos Spoon, convidados para fazer as honras de abertura da noite. O novo longa duração Gimme Fiction serviu de mote para a tímida apresentação ao vivo, e do pouco que ouvimos ficou a vontade de repescar este último disco para a nossa playlist.

Poucos minutos depois da hora marcada, as luzes de presença baixaram, o fumo branco invadiu o palco e da penumbra emergiram Paul Banks e companhia. À semelhança do alinhamento do último trabalho de originais – Antics -, Next Exit foi também o tema eleito para o arranque da hora e meia de actuação. Seguiu-se o primeiro single de apresentação do segundo trabalho dos Interpol, Slow Hands, e com ele a primeira de muitas entusiastas manifestações do público. Sem surpresas, as cores escuras e a sobriedade demarcavam respectivamente o guarda-roupa, iluminação e a postura e atitude em palco do quarteto nova-iorquino. Antics continuava a indicar a direcção musical e ninguém conseguia ficar indiferente à qualidade e ao extraordinário desempenho ao vivo da banda liderada por Paul Banks. Com ligeiros arranjos num ou noutro tema, foi sem dúvida a toada de crescentes sensações sonoras transmitidas pelos Interpol que prevaleceu sempre. E nos momentos em que faixas como ‘Take You on a cruise’ indiciavam uma natural propensão para a obscuridade, logo a banda lançava um turbilhão de energia sinfónica com temas como ‘Evil’, C’Mere’ ou ‘Obstacle 1’ e ‘Stella Was A Driver And She Was Always Down’ (estes dois últimos do primeiro álbum ‘Turn On The Bright Lights’ de 2002). Doze temas volvidos e as luzes voltam a baixar, deixando o palco vazio. O inevitável encore é preenchido por três temas do disco de estreia, com Roland a ditar o encerramento do concerto.

Se me pedissem para descrever numa palavra a sensação que me ficou deste acontecimento musical, talvez dissesse que tinha sido absolutamente intenso. Mas provavelmente estaria a ser injusta, pois a música quando se nos entranha vai muito para além de terminologias, consegue ser tão desconcertante e inexplicável que qualquer tentativa de transposição escrita da sensação seria no mínimo insuficiente.
Diga-se o que se disser dos Interpol – e caso não tenham reparado fiz por não entrar pelos campos das comparações musicais com os demais gurus do passado – eles são uma banda legítima com dois genuínos trabalhos de estúdio que transpõem para os palcos com toda a grandeza e segurança de incontestáveis músicos que são. E sabem o que é melhor disto tudo? É que apesar de estarem bem próximo do estatuto de banda sensação, continuam a tocar com a garra e a humildade que tanto caracteriza os grupos de garagem.



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