“Ir a Havana” de Leonardo Padura
Mapa emocional de uma cidade
Pegar num livro do cubano Leonardo Padura Fuentes, nome maior da literatura universal contemporânea, é deixar-se ir, ser guiado, principalmente quando o veículo é a exploração do mapa territorial e emocional de uma omnipresente Havana. Desse contacto real, com essa cidade também real, nascem várias sensações. Uma delas é uma espécie de paradoxo entre a vontade de percorrer um caminho e a noção de não conseguir regressar dessa viagem, pelo muito que vivemos nessa demanda, pelo que se ganha e perde ao fazê-lo.
Essa vitória, ora doce, ora amarga, traz-nos, por entre memórias e desencantos, a voz de Padura que versa sobre uma cidade que é um lugar mítico, apesar da ferida aberta que carrega de forma crónica.
A Havana de Padura, mais do que um conjunto de coordenadas no mapa, um ponto perdido no azul de um oceano, é uma ideia. É também essa a razão que em Ir a Havana (Porto Editora, 2025), o autor de clássicos como Ventos de quaresma, A neblina do passado ou Pessoas decentes, não escreve apenas sobre uma cidade – não, este livro não é um roteiro turístico… –, indo mais além, abraçando o sentimento de pertença e dor que ela provoca, cruzando a história dessa com a sua própria enquanto homem e escritor.
O livro divide-se, genericamente, em duas partes. A inicial, denominada «Como fui de Mantilla a Havana», revela-nos a cidade observado por Padura sob a forma de um conjunto de ensaios que começa a partir da sua infância no bairro Mantilla – onde ainda hoje vive na casa que nasceu – e se vai desenvolvendo à volta do território e respetiva história, nunca esquecendo as suas gentes. Essa é também, garante, a base da sua inspiração para escrever as desventuras de Mário Conde, protagonista da maioria dos seus livros. Já a parte complementar, «A cidade, a méria de alguns bairros e de algumas personagens», ligeiramente inferior no número de páginas, é preenchida por peças jornalísticas da sua autoria, especialmente crónicas, por vezes em forma diário íntimo de fidelidade crítica à sua ilha natal, que dão a conhecer melhor a Havana contemporânea, desde a década de 1980, mas também textos sobre a origem de algumas das mais apaixonantes personagens criadas por Padura. Pelo meio, o leitor pode fazer uma pausa na leitura e deliciar-se com mais de duas dezenas de fotos assinadas por Carlos T. Cairo, fotógrafo cubano.

Esta é a oportunidade que os fãs de Padura tanto esperavam. A oportunidade de ler Padura fora do registo (mais ou menos) ficcional das narrativas do detetive enamorado por canções como Strawberry Fields Forever, dos Beatles, ou Proud Mary, dos Creedence Clearwater Revival, e deixar-se levar pelo espírito confessional de episódios quotidianos de um homem observador e perdidamente apaixonado pela sua cidade «parada no tempo», mas também desencantado com os seus destinos sociais e políticos, assombrados pelos ecos da revolução.
Essa dor da pertença, leva Padura a escrever, por via de um discurso que funde os universos da literatura e do jornalismo, sem nunca cair num tom mais “panfletário”, por exemplo, sobre a extrema dificuldade de viajar para o estrangeiro, mas também o espanto que sentiu ao verificar que em Madrid e Paris podia comer gelados made in Cuba.
E sejam textos mais densos ou outros que busquem sentido na trivialidade, ler Ir a Havana é uma prova de resistência literária, um exercício que se quer pausado e que desmonta utopias, reflete tensões, descreve memórias ou oferece viagens entre passado e presente.
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