louise_kennedy

“Transgressões” de Louise Kennedy

Amor proibido em tempos de cólera

A escrita de um primeiro livro é uma tarefa hercúlea e o que dela resulta pode ser decisivo no que toca ao futuro de quem quer fazer dos livros a sua vida. Nessa caminhada, muitos autores ficam pelo caminho, outros têm nessa estreia a confirmação de um presente que se quer futuro no universo literário.

A norte-irlandesa Louise Kennedy, natural da politicamente efervescente Belfast e que antes destas coisas dos livros foi chef, é um dos nomes que faz parte desse segundo grupo de “elite”, e a sua estreia com Transgressões (Porto Editora, 2025) é o exemplo de como um livro pode ser cru, feroz, difícil, mas profundamente humano, tendo mesmo feito com que a autora tenha integrado a lista de finalistas para prémios como o Women’s Prize for Fiction e o Dylan Thomas Prize.      

Mediante uma trama que se assemelha a verdadeiro murro no estômago, tal a sua intensidade e sensibilidade, Transgressões surpreende pela forma como mescla temas como a política, o desejo e o trauma, assumindo-se um retrato devastador da Irlanda do Norte durante os anos mais tensos do conflito conhecido como “The Troubles” – período de violência que durou desde meados dos anos 1960 até 1998, envolvendo tensões entre nacionalistas católicos, que defendiam a reunificação da Irlanda, e unionistas protestantes, que queriam manter a Irlanda do Norte no Reino Unido.

No epicentro do turbilhão que é a leitura deste livro, com início no ano de 1975, está Cushla Lavery, uma jovem professora católica que trabalha num colégio protestante e que (ainda) vive com a mãe que luta contra o fantasma do alcoolismo. Além de lecionar, Cushla continua a dar uma pequena ajuda no velho pub da família, local onde conhece um homem que irá mudar a sua vida e com o qual manterá uma relação clandestina. Esse homem é Michael Agnew, um advogado protestante, de meia-idade e casado, conhecido pela dedicação a casos que envolvam direitos humanos. 

A relação entre ambos é sinónimo de um elevado risco, muito à semelhança do ambiente que caracteriza uma Belfast dos anos 1970 a ferro e fogo, marcada pelo sectarismo, violência e medo, onde os atentados, a vigilância e as divisões religiosas quase intransponíveis são figuras omnipresentes.

Através de uma escrita intensa, por vezes contida, outras cortante, Loiuse Kennedy transporta esse ambiente explosivo para as páginas de Transgressões que estão carregadas de emoções, sejam diretas ou escondidas nas entrelinhas, e que, por vezes, pesam mais do que os diálogos. Mas, em vez de querer construir uma tensão cujo desfecho é um clímax redentor, Kennedy mergulha-nos numa realidade onde o perigo e a impotência são parte da espuma dos dias, das horas de um povo em constante ameaça com a violência que se esconde atrás de cada esquina.

De facto, tal como o nome do livro indica, neste romance tudo é alvo de uma possível transgressão, sejam as normas sociais ou éticas, ou a esperança de que o amor possa ser a salvação de quem está, à partida, condenado, apesar das muitas tentativas de se querer uma vida “normal”.

A força da escrita de Louise Kenney encontra-se na capacidade de atingir um equilíbrio entre as esferas íntimas e políticas de personagens, de pessoas que estão à beira do colapso e no seio de barricadas erguidas em nome da liberdade, sem o objetivo de almejar um final feliz. O perfil dos protagonistas ajuda a essa definição, sendo Cushla o paradigma de uma mulher dividida entre identidades, desejos e deveres, “entalada” entre o amor e a sobrevivência, enquanto a relação com Kennedy serve como uma metáfora que mostra como o corpo feminino carrega o peso das guerras feitas pelos outros, mas cujos estilhaços ficam permanentemente cravados em si, especialmente numa sociedade onde a violência sectária, a desigualdade de género e a repressão sexual são recorrentes.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This