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Já não existem heróis #1

Carta de condução

O nome pareceu-me bem, Já não existem heróis, até por se tratar de um tema que me é querido. Quando, aliás, contei, orgulhoso, aos meus amigos que tinha sido convidado para escrever uma crónica mensal na Rua de Baixo, eles perguntaram-me “e como é que se vai chamar?”, eu disse “Já não existem heróis” – acharam logo bem, todos. O nome pode, porém, induzir em erro e, por isso, sinto a necessidade de o explicar.

A minha ideia não é vir aqui uma vez por mês desanimar as pessoas demonstrando que os heróis são um mito, que se trata de uma espécie de profissão que já não se usa; não é isso. Os heróis existem, tenho a certeza de que existem, e aceito inclusivamente a possibilidade de eu próprio conhecer alguns. Não é essa a questão.

A primeira vez que usei esta frase – é uma frase tão singela, tão acessível, que não pode ter sido inventada por mim; decerto já existiria e é por essa razão que considero que a “usei” – foi na letra da «Mustang», canção de Feromona. Na altura, detive-me na sua superfície e não fui ao seu fundo: o pacato deserói (prefiro deserói a anti-herói uma vez que, na verdade, se trata de uma personagem inofensiva, quotidiana, que fica na história mas só de raspão – e isto se vier a dar-se o caso de alguém, daqui a uns anos, ainda se lembrar da tal canção), dizia eu que o desafortunado deserói se sentava no seu Opel Corsa ou no seu Fiat Punto ou no seu Renault Twingo e, de repente, numa reacção à sua vida aborrecida e sempre por acontecer, se imaginava ao volante do Ford Mustang de Bullit, vestindo a pele que Steve McQueen vestiu.

Portanto, na época, olhei-a, à frase, e li nela, ignorando o seu lado B, apenas a beleza sedutora dos heróis extintos, heróis à antiga, aqueles tipos que impressionam uma pessoa, até porque, por norma, têm as suas regalias em troca do seu heroísmo, seja em forma de automóvel, seja em forma de mulheres voluptuosas ou de múltiplas outras formas. Quando não as têm, ou quando essas regalias não são óbvias ou evidentes, estes heróis apresentam, no mínimo, muita pinta, muito charme – este é o ponto que me importa: um herói, um herói à antiga, tem de me fazer admirá-lo e querer ser como ele. O rapaz do Mustang queria ser o Bullit.

Mas agora penso no Bullit e nos tais heróis à antiga e não sei muito bem o que fazer com eles, da mesma forma que perdi o jeito para lidar com o Pai Natal ou com o Super-Homem quando compreendi e aceitei que eram ilusões – ideias muito boas, porém defeituosas de realidade. E ao mesmo tempo dou por mim a conceber heróis que são deseróis, peritos em levar vidas banais e acidentadas, sem direito a finais felizes nem redenções épicas. E é nesses heróis, os que subsistem no meu imaginário – não os tais heróis à antiga -, que tentarei focar-me. Porque os outros, cheios de pinta, com carros velozes, elegantes copos de martini na mão e capas esvoaçantes, já não me salvam de nada, nem sequer me impressionam. O meu sonho já não é ter um Mustang e ser o Steve o McQueen – o meu sonho é só tirar a carta.

Texto de Diego Armés
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Ilustração de Tiago Moura
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