JÁ NÃO EXISTEM HERÓIS #3 – Diego Armés

Já não existem heróis #3

Drama Microfundiário

A minha introdução ao mundo da agricultura veio a acontecer por causa dos coentros. Certo dia, estou eu de visita aos meus pais quando vejo, no quintal da casa que já foi dos meus avós, uma multidão de coentros, rebeldes e viçosos, nascendo em cada canto, junto ao muro, sem requerer canteiro, vaso ou cuidados mínimos. E digo eu para o meu pai: “ando a pagar balúrdios por saquinhos de coentros e tu aqui com esta selva de borla”.

Um saquinho de coentros custa 99 cêntimos no meu supermercado. 99 cêntimos. Leio as notícias em que se fala de economia, de negócios e de dívidas e deparo-me com aqueles números “9 milhões de euros” e penso “ena, tanto dinheiro”, mas é um “tanto dinheiro” que tanto faz ser nove como nove mil: do milhão para cima, fica tudo muito indefinido, tudo se torna abstracto. Agora, 99 cêntimos por 40 gramas de coentros, eu sei muito concretamente o que é: é um roubo! E diz o meu pai “oh, mas se calhar vêm já cortados, filho”. Bom, eu posso cortar os meus próprios coentros.

O meu pai deu-me então uma mão cheia de sementes de coentro. Já em casa, cortei ao meio cinco garrafões de água, aproveitando as metades de baixo para fazer vasos provisórios. Dei assim início àquilo que vim a designar por “cultura de micro-fúndio”. Enchi os vasos de terra, plantei as sementes, reguei e esperei. Começaram, como previsto, a despontar. Porém, o crescimento não correspondeu às expectativas e eu pensei “talvez seja preciso podá-los”. Comprei uma tesoura de poda, mas era demasiado grande. Resolvi então apará-los com a tesoura com que, mais tarde, viria a usar para a barba – ainda hoje a utilizo -, mas que, na altura, não me servia para nada.

A Rosa, uma vizinha minha que também aprecia ervas aromáticas e o cultivo doméstico de coisas inúteis em geral, soube da minha plantação e, certo dia, bateu-me à porta a perguntar se me tinham sobrado sementes que lhe dispensasse. Tinham realmente sobrado algumas e eu dispensei-lhas. Conservando a fé na minha própria sementeira, ofereci-lhe o que tinha restado da mão cheia que o meu pai me dera. Ela semeou, seguindo as minhas instruções e, semanas mais tarde, tinha uma belíssima sementeira a despontar com viço dos seus vasos à varanda. A minha sementeira, por seu lado, apresentava-se tão raquítica como antes da poda. E eu pensei com ira “cabra sortuda, isto não fica assim” – fui a casa dela com a minha tesoura de poda e cortei-lhe os coentros todos. Espalhei-os pelos chão da varanda e pisei-os com gosto.

Texto de Diego Armés
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Ilustração de Tiago Moura
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