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Jeff Tweedy @ Capitólio (07.02.2026)

Foi um luxo.

Ficamos logo desarmados quando Tweedy começa invocando os Wilco ao som de «I Am Trying to Break Your Heart». Não se começa um concerto assim, com uma rasteira destas…

Na recta final do ano que findou há pouco mais de um mês, Jeff Tweedy ofereceu-nos um belíssimo álbum triplo, de seu nome nome “Twilight Override”, numa concreta demonstração da razão pela qual é considerado um dos melhores compositores e escritores de canções em actividade nos Estados Unidos da América. «Caught Up In The Past» e «Throwaway Lines», interpretadas sequencialmente provaram-no, dúvidas houvesse.

O alinhamento é fluído. Há flexibilidade. Há descontracção. E há silêncio da nossa parte, o público privilegiado que tomou a sã e correcta decisão de, mesmo com o mau tempo que se faz sentir um pouco por todo o lado, ir até ao Capitólio.

Regressamos aos Wilco, mais precisamente a «Evicted», canção que integra o último álbum de originais da banda de Chicago, e que contou com a produção fresca e ousada de Cate Le Bon. “Am I ever gonna see you again?”, canta Tweedy, com aquela capacidade inata de comunicar com alguns cantautores são “abençoados”.

Os Uncle Tupelo foram uma das bandas de que Jeff Tweedy fez parte, antes dos Wilco, e «New Madrid» é a canção com que evoca a sua memória.

«Impossible Germany», canção do fabuloso”Sky Blue Sky” de 2007 enche-nos o coração, mesmo sem aquele inesquecível solo de guitarra. Fazem falta mais Jeff Tweedys no mundo.

«Having Been Is No Way to Be» é a única investida, na discografia a solo, que não é parte integrante do mais recente lançamento, como é o caso de «Forever Never Ends» que faz a sua aparição logo de seguida. A guitarra molda-se ao que Tweedy quer mostrar, aliado ao uso sempre certeiro da palavra.

As quatro canções que se seguem, colocam todo o seu foco nos Wilco: «Handshake Drugs», «You and I», «If I Ever Was a Child» e «Dawned on Me» e sentimo-nos a tocar o céu. Em palco está alguém, que apenas com um guitarra – na realidade são duas que vai alternando entre canções – nos consegue deixar com aquele arrepio na espinha, persistente, do início ao fim.

Em 2000, Billy Bragg e os Wilco lançavam “Mermaid Avenue Vol.II”, o segundo disco que reunia interpretações de letras, nunca antes ouvidas, de Woody Guthrie, cantautor folk, falecido em 1967. «Remember the Mountain Bed», canção escrita em 1944 era uma dessas, e foi a escolhida por Tweedy para nos presentear.

«Feel Free», «Enough» e «Lou Reed Was My Babysitter» revisitam “Twilight Override”. Cada canção tem identidade, ao ponto de se imiscuir em cada um de nós. É fácil deixarmo-nos levar, e se em «Enough» cantamos , “Is your heart tired? / Don’t lie / Is your heart hiding / From your fire?”, em «Lou Reed Was My Babysitter» é um momento de celebração.

O talento de Tweedy tem-se vindo a refinar com a idade e isso reflecte-se não só nas canções que compõe e nas letras que escreve, mas também na sua postura em palco, ou até mesmo na forma como abraça e integra a família (dois filhos integram a banda que o acompanhará na digressão europeia a partir da data de Madrid). A recta final revisita os Wilco em cinco actos, ou canções, se preferirem. Primeiro com «I’m the Man Who Loves You», do seminal “Yankee Hotel Foxtrot” e seguido de «How to Fight Loneliness», canção de “A Ghost Is Born”. «Hate It Here» levou-nos ao final do século XX e ao álbum “Summerteeth”, uma verdadeira viagem por momentos longínquos mas incontornáveis da história dos Wilco. A fechar a perfeição de «Jesus, Etc.» e quiçá com um toque de ironia, «A Shot in the Arm», esta de “Being There”. Para irmos para casa a levitar, embora a canção que fosse a trautear fosse mesmo aqueles versos da «Jesus, Etc»… “Tall buildings shake / Voices escape singing sad sad songs / Tuned to chords strung down your cheeks / Bitter melodies turning your orbit around”.

Foi um luxo.

Fotografias da autoria de Estelle Valente, gentilmente cedidas pela produção.



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