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José Rebola

As Vidas dos Outros.

“As Vidas dos Outros” é o primeiro longa duração do projecto de Coimbra Anaquim.

Sob a habilidade subtil e metafórica de José Rebola, Anaquim encarna exemplarmente o universo socio-musical dos dias de hoje. Uma espécie de reviver do modo de estar de cantautores que precederam a revolução dos cravos e deram origem ao chamado movimento de intervenção, que tinha nos cantos de protesto o seu palco natural.

É certo que as músicas de Anaquim expressam temáticas que não empenham o nervo das baladas de resistência que foram a raiz de uma atmosfera político-musical que revelaria, entre outros, Sérgio Godinho ou Zé Mário Branco, bebem antes o modo de estar dos cantautores de uma época e firmam José Rebola numa espécie de cautautor dos tempos modernos.

Se os cantautores de Abril ferviam nos seus cantos mensagens que repudiavam desde a guerra colonial às perseguições políticas, José Rebola e companhia não resistem na análise do mundano que (n)os circunda e divertem-se/nos com isso.

Os motivos de protesto agora são outros, mas fazem-no com a mesma, ou ainda mais, leveza  e empenhamento dos músicos de intervenção dados a conhecer no passado.

O modo de tocar, bem conseguido, é leve, mordaz mas de modo cauteloso. Sem cair no exagero, Anaquim espreme e deleita sobre as intrigas e vicissitudes alheias, mas de que também ele e todos nós fazemos parte.

Anaquim é a personagem criada por José Rebola para expandir as suas observações. Uma espécie de duende perspicaz, observador e crítico, que fura e vagueia pelas ruas e avenidas e se cruza com as gentes que por elas passam diariamente. Limita-se a observar, escrutinando depois o alvo das suas apreensões.

Foi à conversa com o mentor de Anaquim, que se ficou a perceber um pouco mais deste ainda recente percurso, das diferenças e óbvia evolução na passagem de “Prólogo”- E.P de estreia – para o primeiro disco da banda, da adesão do público e seus motivos e referências aquando do processo criativo.

José Rebola é conhecido de outros projectos, que buscam no rock a força para se exprimirem, como é o caso de Cynicals, talvez por isso Anaquim tenha surgido com um sabor, se não especial e pessoal, diferente. JR explica: “Anaquim é sem dúvida um projecto que começou por ser muito pessoal, tendo servido como veículo para expressar algumas temáticas e sonoridades que não se coadunavam com os outros projectos que integrava na altura. No entanto, não penso nele como uma evolução ou uma expansão em relação aos outros, são ideias que já andavam por aí em paralelo, e simplesmente houve os meios e o timing certo para deixar o projecto ver a luz do dia. Com a inclusão dos outros músicos percebi que estas letras e estas músicas também funcionavam como forma de expressão conjunta sobre a nossa maneira de ver o mundo, e assim sendo o carácter pessoal de alguns temas passou a ser naturalmente absorvido como colectivo”.

A analogia, feita no início, entre a música que faz e o avivar dum cenário que libertou o seu padrão estético e sonoro por uma libertação democrática esperada e ansiada, é clarificada pelo músico do seguinte modo: “Infelizmente nunca cheguei a conhecer tão a fundo o Universo da Música de Intervenção como devia. Mas mesmo não conhecendo ao pormenor todas as músicas e nomes, o imaginário daquela luta e daquele período foi-me passado pelo meu pai, nas minhas primeiras exposições à música e à guitarra. Reconheço em todo esse imaginário a elevação da música e dos músicos como capitães de uma guerrilha ou de um alerta social contra o que julgam não estar bem. É claro que hoje em dia o contexto é diferente, mas isso não significa que a música não continue a ser um meio de mudança e de reflexão. É essa tradição na música de expressão portuguesa que pretendemos fazer perdurar com alguns dos nossos temas”.

“As Vidas dos Outros” traz diferenças, decorrentes da maturação própria no processo evolutivo, em relação ao E.P “Prólogo”, que são entendidas na primeira pessoa do seguinte modo:

“Este disco está tudo muito mais maduro, muito mais pensado. O E.P. era um cartão de visita, uma manifestação de intenções, enquanto que “As Vidas dos outros”, é o trabalho feito, um portfolio. Pode-se pensar neles como o esboço e o quadro. O “Prólogo” foi importantíssimo junto das pessoas com quem primeiro contactámos e que suscitou curiosidade para que quando o disco finalmente saísse já se soubesse quem era este Anaquim, pai babado das “Vidas dos Outros”.

Surpreendente tem sido a adesão do público, “as reacções das pessoas têm sido extremamente positivas. Este é um disco de diálogo, e assim sendo só faz sentido quando, após explanarmos estas ideias para o público, recebemos o tal ricochete sobre as músicas ou as letras. Ainda mais agradados ficamos quando nos apercebemos que o nosso público é transversal a muitas faixas etárias ou estilo de música que ouvem. E ainda mais gratificante é quando nos concertos toda esta comunhão é conseguida através da interactividade e da festa. Quem conhece gosta, quem gosta partilha, e depois toda a gente vem!” afirma com alguma admiração. Continuando: “não andamos à procura dum público específico. Se assim fosse não tínhamos feito um disco tão heterogéneo. Gostamos de pensar que muito do público não se prende tanto ao estilo das bandas que ouve como à qualidade delas. Dito isto, sei que algum do nosso público era também público de Cynicals, por reconhecer nos dois projectos muita qualidade musical. A meu ver as pessoas estão a afunilar cada vez menos os seus gostos, e isso é óptimo.” afirma com agrado.

Peço-lhe que deixe uma ideia de valor para os leitores da RDB. O músico registou:

“A ideia de maior valor que posso deixar é mesmo o valorizar das ideias. Temos assistido recentemente a mudanças drásticas nos panoramas sócio-económicos no mundo inteiro, e as revoluções dentro desta inconstância só se poderão fazer com ideias. Creio ser por isso que as pessoas vêm ouvindo mais música em português, estando mais alerta ao que se passa à volta delas, tendo mais coragem para assumir as iniciativas que lhes surgem. É neste admirável novo mundo que nos revemos e contamos que a nossa música e a de outros artistas portugueses seja mais uma de tais iniciativas. Se puder ser com um sorriso nos lábios, tanto melhor!”



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