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Um Funeral à Chuva

O Indie contra-ataca.

“Um Funeral à Chuva”, filme de Telmo Martins (realizador estreante) que estreia dia 3 de Junho, é um daqueles filmes que dá vontade de dizer bem e de apoiar. Não só pelo filme em si, que consegue facilmente ser do melhor entretenimento que temos agora em sala, mas também pela forma que foi feito. Praticamente sem orçamento, sem qualquer tipo de apoio do estado, este é um filme feito à margem do sistema (sistema esse que, por cá, é factor crucial entre o poder ou não fazer um filme), fruto da mera vontade da sua equipa de trabalhar junta e fazer uma longa; sem qualquer tipo de pretensões.

Quase se pode chamar a “Um Funeral à Chuva” de o primeiro filme Indie português. Não só pela forma como foi feito, mas pelo próprio filme em si: energético, simples, com um estilo particular, que fala sem dúvida um pouco a todos. Mas principalmente aos jovens. Porque, afinal de contas, o filme é sobre isso: a juventude e as amizades que deixa, a história de um grupo de amigos da faculdade que, após anos sem se verem, se junta para o funeral de um amigo de juventude e que acaba por recordar o porquê da forte amizade que nutria (e nutrem) uns pelos outros. Premissa simples, mas com a qual muitos se revêm. “Quando sais de casa e tens de ir para uma faculdade longe, é uma experiência muito forte. Todas as relações que tinhas antes são substituídas, e tens a necessidade de te agarrar a alguém, e daí nascem amizades muito, muito fortes” diz Telmo Martins, resumindo em poucas linhas a alma do filme.

Martins é como o filme: simples, acessível, alguém com quem dificilmente não se simpatiza (a entrevista para o artigo transformou-se numa conversa informal de uma hora sobre tudo um pouco) e muito honesto. Afinal de contas, que outro realizador nos olharia nos olhos e perguntaria “Que é que achaste do filme? Quais foram as falhas, na tua opinião?” e, após resposta, concordaria com as falhas apontadas (não tive grandes falhas a apontar, no entanto)?

Se o filme não é perfeito, após saber pelo próprio realizador como este foi feito a pergunta que fica é: mas como é que conseguiram fazer isto? A resposta é óbvia: com pouco ou nenhum dinheiro, e com muita dificuldade.

“Foi uma rodagem muito violenta, muito cansativa. Rodámos o filme em vinte-e-seis ou vinte-e-sete dias. Às vezes dormia só três ou quatro horas e depois ia à empresa, ver se conseguia segurar algum trabalho”. Sim, a empresa feita pela equipa do filme após terem saído da universidade porque “queríamos continuar a trabalhar juntos”. Essa mesma empresa, a Lobby Productions, que agora está em perigo.

“Usámos tudo aquilo que juntámos ao longo de três anos. Desde que começámos a trabalhar que o objectivo foi o mesmo: a longa. E chegou uma altura em que simplesmente decidimos que era agora, tinha mesmo de ser agora senão nunca ia acontecer. E foi o que fizemos, colocando a própria empresa em risco.” diz Martins, com ar nostálgico na forma como fala do empenho e da amizade de toda a equipa. Essa nostalgia está perfeitamente presente no filme, que é um retrato da vida académica feita por alguém que, certamente, a viveu. Afinal de contas, o filme decorre na Covilhã e é um retrato fidedigno do ambiente do local; ninguém da equipa do filme lá vive, mas muitos estudaram lá, e isso vê-se bem.

Esse próprio ambiente que lá se vive, aquele ambiente de familiaridade e de companheirismo (nada característico de uma grande cidade), acabou por ser essencial à produção do próprio filme. “Tivemos imensa ajuda logística, sem a qual o filme simplesmente não poderia ter sido feito. O apoio que tivemos das pessoas foi incrível. Chegávamos a um hotel a perguntar se podíamos filmar e ofereciam-nos logo estadia; o director artístico a certa altura pediu um determinado tipo de armário para uma cena e veio logo um camião e deixaram lá o armário sem pedir qualquer tipo de identificação. As pessoas foram todas elas acessíveis e deram-nos uma ajuda enorme. Foi incrível”. Teria sido possível fazer o filme, por exemplo, na capital? “Não. Era impossível”.

O ambiente de familiaridade presente durante a rodagem encontra-se no filme. Todo o elenco aceitou, por exemplo, fazer imediatamente o filme sem qualquer tipo de caché. “Aceitaram logo todos. O processo de casting foi feito ao longo da produção, claro, e aceitaram imediatamente todos entrar.” Se o filme é sem pretensões, é porque tanto o elenco (que está todo ele bastante bem, sem dúvida) como toda a equipa sabiam bem o que podia sair dali: um bom filme de entretenimento, com uma alma infinitamente maior a tudo aquilo que se vê normalmente numa sala de cinema. Foi um filme feito por amor, e isso nota-se. E feito, também, com o objectivo de mudar algo.

“O filme é, de certa forma, um grito de revolta, conta o sistema e contra a mentalidade que se vê por cá. Queremos mudar o nível de pensamento das pessoas, queremos levar o povo português ao cinema. E queremos provar que é possível fazer cinema fora do sistema, sem apoios”. A verdade é que “aqueles que se queixam mais do fraco apoio são muitas vezes aqueles que mais têm. Nós não tivemos nem temos qualquer tipo de apoio. As televisões nem nos deixam passar trailers ao filme sem passar nada, dizem que não está no protocolo. As coisas têm mesmo de mudar”.

Foi rodado em vinte-e-seis dias (chocante, no mínimo), com pouco ou nenhum dinheiro, e isso nota-se por vezes. Tem alguns aspectos verdadeiramente amadores, e uma ou outra falha a nível técnico que certamente teria sido resolvida com aquilo que mais faltou: dinheiro e tempo. Mas nada disto mina um filme com um coração do tamanho do mundo que consegue fazer aquilo que hoje em dia tão poucos filmes conseguem: pôr um sorriso na cara do espectador. Não um sorriso de diversão ou de riso, mas um sorriso de afecto. Porque é difícil ao espectador não se afeiçoar às personagens, à história tão simples mas tocante que, certamente, a muitos relembrará o grande “Os Amigos de Alex” mas que, realmente, nada tem a ver com o filme. A premissa pode ser parecida, mas apenas isso. É como Martins diz a propósito desta comparação: “Quando vais sair à noite com amigos tens já uma ideia daquilo que queres que seja a noite, tens logo uma premissa daquilo que esperas. Mas cada saída, cada bebedeira, acaba por ser diferente, e cada noite é uma história diferente”. Quem viveu (ou vive) uma vida académica, certamente leu esta frase com um sorriso na face enquanto acenava com a cabeça.

E “Um Funeral à Chuva” é sobre isso. Sobre as bebedeiras, sobre as histórias, sobre as amizades da juventude. É perfeito? Claro que não. “O filme tem as suas falhas, claro. Acho, por exemplo, que a história podia estar mais arrumadinha em alguns aspectos, ou que algumas cenas se alongam um pouco demasiado. Mas também houve falta de apoio, falta de tempo, de dinheiro… Mas o filme tem lá o que queria. Estou contente com o resultado final”.

E tem, de facto. Ver o filme é como estar entre amigos, é querer no final ir ter com os amigos da faculdade e falar daquelas quase duas horas que se viveram na sala de cinema. “Um Funeral à Chuva” é um filme difícil de não gostar não só porque é por si só um filme agradável mas porque é, ao fim de contas, um filme feito com um amor tão grande que isso se vê em cada plano e cada cena. É simples, directo, sem pretensões a ser mais do que é; e é-o muito bem.

E acaba por ser um pequeno grande evento. Não só pela qualidade do filme em si, mas porque foi feito com o objectivo de mudar algo de levar gente ao cinema e de as divertir, de mostrar que é possível fazer um filme fora do sistema e, surpresa das surpresas, fazê-lo bem. É, portanto, um filme que deve ser visto e apoiado. Não só pelo filme que é, mas também pelo que pode vir a significar.

Porque, para todos os efeitos, se o filme for um sucesso talvez as coisas comecem realmente a mudar. “Um Funeral à Chuva” foi o primeiro da sua espécie; o primeiro pequeno filme Indie português. E no final, ficamos a desejar que seja o primeiro de muitos. Há que vê-lo e apoiá-lo por duas razões, então: pelo que é, e pelo que pode vir a ser; pelo bom filme que é (já disse que é facilmente do melhor entretenimento que temos agora em sala, não disse?), e pelo impacto que pode ter.

No final de contas, fica apenas um pensamento: não é comicamente irónico que o filme com mais alma dos últimos tempos e a partir do qual pode vir a nascer verdadeiramente algo de grandioso seja sobre um funeral?

Mais irónico (e triste) talvez só o facto de o melhor filme português dos últimos tempos ser exactamente aquele que mais problemas teve em ser feito.



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