04_juana_aguirre_zdb_by_Luis_Pereira

Juana Aguirre @ ZDB (19.05.2026)

Aquário divino

Não consigo deixar de pensar em Juana Molina sempre que oiço a Aguirre. Há pontos de contacto e semelhanças que vão para além do factor conterrâneo. Um início de percurso assente em folk, entoada com aquele límpido castelhano da América do Sul, seguido de uma incorporação de elementos electrónicos. O espírito livre e DIY, ainda que distintos. Depois há as influências mais actuais que moldam as canções e composições de Juana Aguirre e lhe conferem alma própria.

O início é subtil. Um instrumental que se vai estendendo e entrelaçando sobre nós e deságua em «Configuraciones Onduladas» de “Claroscuro”, com Aguirre escondida na névoa, e rodeada pelos teclados e maquinaria que fazem soar o som de pássaros, que vai sendo gradualmente desconstruído à medida que outros elementos são introduzidos, voz incluída, como ondas.

«Las Mañanas», conduz-nos à abertura de Anónimo, etérea, mas pulsante, com cada palavra cantada entregue assertivamente. «Violeta» leva-a pegar na guitarra acústica, complementada com a guitarra eléctrica de Cruz, que a acompanha em palco. Registo nu ao início, mas que se eleva com a guitarra eléctrica a criar uma parede sonora que envolve tudo, para pontualmente, deixar a guitarra acústica prevalecer.

«Los Ausentes» integra o álbum de canções ao vivo, “una casa sin esquina”, com os agudos bem lá em cima, capazes de nos dar palpitações, para depois mais uma vez, Aguirre nos mostrar o caminho, antes de encetarmos mais uma vertiginosa subida.

«150m_km», mais uma vez projecta as canções de “Claroscuro” para um plano diferente de existência, aqui com batidas, ora alinhadas, ora descompassadas, ora atravessadas por outras que simplesmente colocam o nosso corpo a oscilar síncrona e assincronamente. Tudo encaixa.

«automatico» é antecedida de uma breve ajuste técnico. Segue-se «VOLVIERON», com as cordas das guitarras sempre palpitantes, como que a antecipar a ansiedade e a questionar o “Qué más urgente que nuestro amor”? Nada ou nadie, atrevo-me a dizer.

Em «las ramas» é impossível não pensar nos Radiohead na sua dase de “Kid A”/“Amnesiac”. O drone na retaguarda, e as teclas na camada superior que depois desaguam num drum’n’bass contagiante.

A entrega em «la noche» é tremenda, uma rave localizada, em pleno aquário. E em «Fuego», de “Claroscuro”, salta à vista a forma híbrida como elementos de folk se combinam com electrónica.

«las espinas», de “Anónimo” é uma cavalgada épica que anuncia o encore onde, a fechar, começamos no escuro, sem luzes, a pedido de Juana Aguirre e ouvimos «lo_divino» que, humildemente, é uma canção que faz jus ao seu nome.

Somos uns felizardos.

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Luís Pereira / Cortesia da ZDB
Restantes fotos aqui.



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