La Gran Familia Española

La Gran Familia Española

No amor e no futebol, haja esperança!

E se escolhêssemos para o dia do nosso casamento o dia em que todas as atenções estão viradas para a final do Campeonato do Mundo de Futebol? E se essa final estivesse a ser disputada por uma Espanha que está a um triz de se tornar campeã do Mundo? E se a juntar a estes dois ingredientes bomba-relógio ainda fizermos parte de uma família suficientemente desconexa e desequilibrada para que tudo o que está em risco de correr mal durante este dia possa correr… ainda pior?

La Gran Familia Española” desenha-se a partir deste cenário pela mão do realizador Daniel Sánchez Arévalo que metaforiza (e bem) sobre o amor em metades desiguais do qual é resultado uma noção de felicidade que parece estar indubitavelmente condenada ao desastre a menos que a polvilhemos com boas porções de perseverança.

São 6 os elementos desta Grande Família Espanhola: Efraín (protagonizado por Patrick Criado), que apresenta irrefutáveis semelhanças físicas com o jogador Iker Casillas ou não fosse o seu casamento com Carla (Arancha Martí) acontecer num dia em cheio para o futebol espanhol. Ele é também o irmão mais novo da família que, além do amargurado patriarca (Hector Colomé) que nunca superou a separação da mulher, é ainda constituída por mais quatro irmãos: Adán (Antonio de la Torre) é o irmão mais velho e é um homem que vive profundamente deprimido não só pelo fracasso da sua vida profissional mas também pelo seu casamento falhado; Benjamín (Roberto Álamo), que sofre de um ligeiro atraso mental e a sua ingenuidade vale-lhe a estatueta de personagem mais apaixonante e comovente de todo o enredo; Daniel (Miquel Fernández) é o irmão a quem cabe a responsabilidade de zelar pela família e Caleb (Quim Gutiérrez) é o quinto irmão que regressa para assistir ao casamento após dois anos de permanência em África a exercer medicina.

La Gran Familia Española

Aos leitores que após a leitura do último parágrafo notaram existir alguma semelhança entre os nomes dos elementos da família e os dos protagonistas do musical “Seven Brides for Seven Brothers”, acertaram. O realizador Daniel Sánchez Arévalo desenhou propositadamente uma série de personagens invulgares evocando nelas aquele que é um musical que se pauta pelas extravagâncias musicais da época (o musical data de 1954).

De regresso ao filme, a configuração é simples: como se não bastasse estarmos perante um casamento em dia de final do Campeonato do Mundo de Futebol e o pai desmaiar minutos após o início de cerimónia, o regresso de Caleb vem iniciar uma nova teia no novelo dramático: durante a sua ausência, a ex-namorada Cris (Verónica Echegui) começou a namorar com Daniel. Está lançado o rastilho embebido na pólvora certa e que vai dar origem a um sem fim de situações caricatas que vão ter lugar durante o dia do casamento mas que nos vai parecer antes uma semana, ou até um mês! Ao noivo que às tantas fica confuso quanto à mulher que escolheu para companheira de uma vida junta-se uma prima de seios abundantes e com um desejo sexual pulsante, uma avó em cadeira-de-rodas a quem é retirada a bolsa de oxigénio para ajudar na recuperação do patriarca da família, perdem-se alianças por meio de agressões físicas em público e há ainda espaço para um tesouro escondido que está prestes a ser roubado pelos próprios herdeiros. O ritmo com que tudo isto acontece não é contínuo e, quando sentimos que estamos mesmo à beira de um novo desastre, eis que irrompem novos fluxos e novos acontecimentos onde volta a reinar a diversão e onde a gargalhada nos é facilmente roubada.

La Gran Familia Española

Em termos visuais toda a história decorre num quadro perfeitamente traçado em tons pastéis que espelham na perfeição o calor característico do Verão espanhol e ao realizador gaba-se-lhe a capacidade de fazer brilhar algumas das mais recentes estrelas do cinema espanhol com a sua luz muito própria, como são exemplo os jovens actores Patrick Criado e Sandra Martin. No entanto o nosso destaque vai, sem a menor sombra de dúvida, para a doçura e inocência com que nos envolve Benjamín que, por entre a sua genuína ingenuidade, vai pairando sobre os excessos e confusões dos restantes irmãos.

La Gran Familia Española” é uma comédia comovente e divertida com muitas palpitações e alterações emocionais e, ao final de contas, acabamos por perceber que o futebol não é mais do que um elemento que existe para ajudar na organização da narrativa e também dá um empurrão para a transmissão da mensagem principal do filme: a metáfora do amor enquanto uma realidade emocional que só é passível de ser vivida em plenitude se for acompanhada por doses generosas de persistência e perseverança.

A lição é simples: Tanto no amor como no futebol ganham as equipas que acreditam até ao fim. Haja esperança!



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