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Yo, También

Tão normal. Como o amor.

Pablo Pineda foi o primeiro portador de síndrome de Down europeu a obter um diploma superior e arranjou um emprego estável na Administração Pública, na divisão de Serviço Social. Isto bastaria para uma bela história comovente e moralizante, comme il faut. No entanto, não é disso que trata “Yo, También” (2009).

Encontramos Pablo Pineda (Concha de Prata em San Sebastian) – aqui Daniel – no típico primeiro dia de trabalho. A chefe de secção faz as apresentações, mostra-lhe onde ficam os gabinetes, indica-lhe onde será o local de trabalho. Tudo pontuado por sorrisos indulgentes e olhares enternecidos, próprios de quem tem aquela dificuldade típica em encarar estas situações. Até que, atrasada e com aspecto de pouco sono, chega Laura (Lola Dueñas, Concha de Prata e Goya para “Melhor Actriz”) que encontra Daniel sentado na sua secretária, encantado a ouvir uma cassete de auto-ajuda para deixar de fumar. Perplexa pela situação, Laura confunde-o com um utente e manda-o para o atendimento. Rapidamente é corrigida pelas colegas, que lhe põem ao corrente de quem é Daniel.

É neste encontro tão despudoradamente incorrecto e humano que Daniel vê Laura pela primeira vez, e sente então que tudo o que conseguiu ultrapassar será inútil se não alcançar o amor, em toda a sua plenitude, “como se fosse normal”. Tem aí início uma relação de amizade quase adolescente, onde não faltam os típicos momentos de felicidade cinematográfica, não esquecendo que estamos perante um par muito pouco típico.

O relacionamento dos dois passa para o espectador através de uma filmagem cheia de “tremeliques”, lembrando um vídeo caseiro, e a química entre Daniel e Laura quase faz esquecer de que se trata de ficção. Mais tarde, no comentário ao filme, Lola Dueñas conta que no primeiro encontro que teve com Pablo Pineda ambos ficaram largos minutos a olhar um para o outro sem dizer nada até começarem a rir sem parar. Um casal improvável, já se disse, mas com um entendimento raro de se ver.

E este entendimento é evidente ao longo de todo o filme, conseguindo fugir, dentro do possível, ao irresistível momento “Bela e o Monstro”. Laura é uma mulher perdida nos problemas normais da meia-idade: más relações com a família, solidão, relações fugazes, desencanto com o trabalho, enfim, o pacote completo. Daniel traz-lhe uma nova forma de ver as coisas, questiona-lhe o mais óbvio, comove-a com a sua ingenuidade e deixa-a desconcertada com o seu sentido de humor e a resposta inteligente sempre pronta.

“Yo, También” põe-nos em contacto com a realidade cada vez mais presente e necessária da diferença. Não no sentido das abordagens clássicas de alcance humanitário das milhentas campanhas que sempre vimos, mas numa perspectiva muito mais humana e genuína. A dupla de realizadores, Antonio Naharro e Álvaro Pastor, atreveu-se a colocar em causa o próprio excesso de zelo por parte dos pais de pessoas com síndrome de Down, que, muitas vezes, se recusam a encarar os seus filhos como homens ou mulheres, antes vendo-os como eternas crianças que não podem pisar a Terra, com tudo aquilo que há de mal e de bem. Na constante obsessão moderna pela superação dos obstáculos, de que a história de Daniel é exemplo, é o próprio que questiona a sua mãe, super protectora e grande responsável pelo seu sucesso: “Para quê tanto esforço, se não posso ser feliz?”



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