“LAWRENCE DA ARÁBIA”

“LAWRENCE DA ARÁBIA”

O épico dos anos sessenta está de volta em alta definição para nos lembrar a grandeza da Hollywood de outros tempos

“Lawrence da Arábia” envelheceu bem. É algo surpreendente perceber que mesmo 50 anos depois, a viagem de transformação inspirada na história de T. E. Lawrence mantém uma frescura de conteúdo quase perfeita. Não só isso: olhando para a actual geografia política mundial, é possível encontrar várias semelhanças entre a nossa realidade e a do mundo mergulhado na 1ª Grande Guerra retratado na obra-prima que valeu a David Lean o segundo Óscar de Melhor Realizador.

Um império sem noção da própria decadência, convencido da sua superioridade em qualquer batalha, embarca numa aventura megalómana com o objectivo de impor a cultura ocidental e tomar o controlo dos recursos naturais do Médio Oriente. Um grupo de combatentes composto por tribos locais provoca perdas enormes e impõe derrotas quase impensáveis a uma força invasora com superioridade numérica e incomparavelmente melhor armada. Onde é que já vimos isto?

A Arábia Saudita de “Lawrence da Arábia” tem parecenças quase inquietantes com o Iraque e o Afeganistão dos nossos dias. É quase impossível não nos lembrarmos das imortais palavras do filósofo e escritor italiano Geoge Santayana: “Aqueles que se esquecem do passado estão condenados a repeti-lo”. No entanto, apesar dos temas se manterem tão relevantes como há 50 anos atrás, a verdade é que “Lawrence da Arábia” nunca consegue esconder que apesar da renovada qualidade visual, é um filme profundamente deslocado do cinema actual.

Desde o primeiro acorde da inconfundível banda sonora composta por Maurice Jarre, é óbvio que “Lawrence da Arábia” é um oásis no meio de um deserto de adaptações sombrias de contos de fadas, histórias de amor entre personagens fotocopiadas de todas as comédias românticas que alguma vez existiram e filmes de acção acéfalos onde a quantidade de explosões compensa a total falta de enredo. As quase quatro horas de duração aproximam o filme de David Lean dos seus contemporâneos “Ben Hur” e “Música no Coração”, mas seriam impensáveis em qualquer épico moderno.

Ainda assim, para todos os fãs de cinema esta é uma oportunidade única para rever, ou para muitos ver pela primeira vez “Lawrence da Arábia” no grande ecrã. A metamorfose de T.E. Lawrence de soldado inglês idealista para líder tribal capaz de fazer tremer o Império Otomano e o exército britânico é inigualável, e ganha vida graças a um trabalho de génio de Peter O’Toole que mesmo assim não lhe valeu o Óscar que o ilude até hoje.

O trabalho de recuperação visual e sonora é absolutamente soberbo, e apenas num ecrã de cinema é possível fazer justiça ao trabalho de captura de paisagens desérticas da equipa de filmagem. Os olhos de Peter O’Toole nunca foram tão azuis e certamente vão trazer à memória os tempos em que partiam corações.

“Lawrence da Arábia” é o mais recente exemplo da vaga de clássicos restaurados e melhorados para alta definição, seguindo-se a “Vertigo”e “Psycho” de Hitchcock e mais recentemente ao genial “Taxi Driver” de Martin Scorcese.



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