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Acção em Hong Kong

Em Dezembro a Zero em Comportamento dedicou um ciclo ao cinema de Hong Kong. Para arrancar 2011, fazemos uma retrospectiva aos seus maiores criadores.

A 2 de Agosto de 1986 “A Better Tomorrow”, de John Woo, estreia nas salas de cinema de Hong Kong. É um pequeno filme de gangsters de baixo orçamento, protagonizado por um actor de telenovelas, que se revela um estrondoso êxito de bilheteira (o maior até à data). Cedo, os jovens do território adoptam os óculos escuros marca Alain Delon (o actor francês terá chegado a agradecer aos autores do filme) e as gabardinas usadas por Chow Yun-fat, o tal actor de novelas que a partir daí passou a ser uma das estrelas mais radiantes do mundo asiático.

“A Better Tomorrow” foi produzido pela Film Workshop, uma companhia de produção e distribuição de filmes, fundada por Tsui Hark. Tsui pertence à chamada Nova Vaga, uma geração de cineastas – aparecida no final dos anos 70, princípio dos anos 80 – que havia estudado no estrangeiro e queria mudar o panorama do cinema de Hong Kong. Como realizador e produtor, tentou criar um cinema de qualidade artística que pudesse competir comercialmente com os outros.

É bom não esquecer que, apesar de ser considerado um fenómeno de culto no resto do mundo, o cinema de Hong Kong sempre viveu e morreu pelo sucesso dos seus filmes no mundo asiático, onde imperou durante muito tempo. Chegou a ser a terceira potência cinematográfica mundial, a seguir a Hollywood e a Bollywood.

Ao produzir “A Better Tomorrow”, Tsui Hark, que experimentara e experimentou (continua e continuará a experimentar) todos os géneros cinematográficos, opera uma mudança radical no cinema de Hong Kong. As fitas de Kung fu – que haviam feito as delícias dos ocidentais na década de 70 – e as comédias são ultrapassadas em popularidade pelos filmes de gangsters. As pistolas e as metralhadoras passam a ser rainhas e senhoras em Hong Kong. Até hoje. Irónico ou não, a grande maioria dos filmes era financiada e controlada pelas próprias tríades – organizações criminosas de tipo familiar – que retratava.

Outra mudança mais profunda no cinema de Hong Kong, que atingia o seu culminar nesta altura, foi a emancipação artística e criativa face à China. Devido aos esforços dos cineastas da Nova Vaga, Tsui incluído, o cantonense substitui o mandarim como a língua “oficial” dos filmes do território e as temáticas mais realistas e socialmente relevantes ocupam o lugar das fantasias das artes marciais (wuxia). Antes, muitos dos profissionais de cinema a trabalhar em Hong Kong vinham da China e incutiam as suas ideias. Agora, nascia a particularidade por que tantos ocidentais se apaixonariam e tentariam imitar.

John Woo

A 12 de Junho de 1985 os governos do Reino Unido e da República Popular da China registam uma declaração conjunta nas Nações Unidas. Dali a 12 anos, a soberania de Hong Kong passará dos ingleses para os chineses, se bem que num regime especial: o sistema capitalista continuará obrigatoriamente em vigor no território nos cinquenta anos seguintes à passagem de testemunho.

Católica no meio da guerra civil chinesa, que culminará na vitória do Partido Comunista de Mao Tse-tung, e subsequentes purgas à classe-média, a família de John Woo foge da China para o porto seguro ocidentalizado que é Hong Kong. Segundo Jillian Sandell, no seu artigo “American Masochism and Hong Kong Action Films” (ver nos links relacionados), o cinema de Woo como o conhecemos – antes de “A Better Tomorrow”, realizara uma série de filmes desconhecidos no Ocidente – vive na tensão dessa iminente re-anexação da colónia inglesa ao gigante asiático.

Na filmografia clássica de John Woo – “A Better Tomorrow”, “A Better Tomorrow II”, “The Killer” e “Hard Boiled” -, há sempre homens solitários regidos pela honra, preparados para tudo de modo a defendê-la (um deles é invariavelmente Chow Yun-fat), de ambos os lados da lei, que se juntam para combater um mal maior, normalmente uma força colectiva, normalmente as tríades. Para Sandell, as tríades, nos filmes de Woo, representam a China (as mulheres também, por serem uma força familiar, portanto colectiva).

E como é que o indivíduo luta contra as forças colectivas? Através de um banho de sangue. O “heroic bloodshed”, nome pelo qual ficou conhecido este género, envolve a morte de milhares (tenho a certeza que chegam a ser milhares) de capangas das organizações criminosas. São corpos que se amontoam uns nos outros, vítimas do bailado de violência perpetrado pelos heróis de Woo. A câmara filma tudo como se de uma história de amor se tratasse, ao ralenti, com um foco suave, apaixonado. E o sangue e os corpos vão caindo. E Chow Yun-fat, uma pistola em cada mão, flutua pelo ar disparando certeiramente sobre todos. Jillian Sandel também fala de homoerotismo – os heróis solitários juntam-se amorosos na inevitável batalha final, a mais sangrenta de todas -, mas também poderia falar do erotismo da violência.

Heróis solitários que eram também John Woo e Tsui Hark, realizador e produtor. Melhores amigos que deixaram de o ser, no meio de disputas de quem era verdadeiramente a autoria dos filmes e de acusações de interferências. Não sei se por isso, Woo emigra para os Estados Unidos em 1993, onde ainda vive. Lá nunca atingiu o estatuto que alcançou em Hong Kong. Para mal dos seus pecados começou por realizar “Hard Target”, protagonizado por Jean-Claude Van Damme, que não é propriamente um Chow Yun-fat. Desde aí, tirando “Face/Off”, pouco fez de relevante, mais um tarefeiro na indústria de Hollywood.

Nesta altura, os filmes de Hong Kong eram objecto de um enorme culto no Ocidente, nomeadamente nos EUA, cassetes de VHS devem ter sido copiados e recopiados. Quentin Tarantino aprendeu muita da sua arte com eles (há quem diga que também copiou o enredo de “City on Fire” de Ringo Lam em “Reservoir Dogs”). Estranhamente, os dois outros realizadores que partiram para Hollywood – Ringo Lam e Tsui Hark – tiveram a mesma sorte de Woo: fazer fitas do Van Damme. Só anos mais tarde, uma estrela de Hong Kong vingaria no Ocidente: Jackie Chan, o actor especializado na mistura da comédia com artes marciais. Depois de quase vinte anos de tentativas.

Johnnie To

A 1 de Julho de 1997 Hong Kong deixa de ser uma colónia inglesa e passa a ser uma Região Administrativa Especial da República Popular da China.

Em finais dos anos 90, o cinema de Hong Kong é dado como moribundo, as fórmulas dos filmes de gangsters repetem-se até à exaustão, as personagens são sempre as mesmas, arquétipos sem alma, a realização maneirista, demasiado estilizada, abusando dos efeitos especiais, os actores são as estrelas juvenis do Cantopop (pop cantada em cantonense) para atrair o público que já não comparece às salas de cinema.

Longe vão os tempos das liberdades formais dos realizadores da Nova Vaga que, pouco preocupados com enredos – a maior parte das vezes ininteligíveis e martelados na pós-produção -, investiam tudo no poder da imagem, inventavam planos impossíveis, soluções impensáveis. Geralmente, não tinham de se preocupar com os diálogos, que eram gravados (e às vezes escritos) depois, podiam dar-se a esse luxo. Era esse o seu charme.

Terá acontecido um pouco com os filmes de gangsters de Hong Kong o que aconteceu com os western spaghetti. Sergio Leone estabeleceu as regras, a sua versão maior do que a vida do western americano, que dezenas de outros rentabilizaram à sua maneira, em sucedâneos menores. Em Hong Kong, John Woo deu origem a incontáveis cópias cada vez mais esbatidas. Curiosamente, é possível fazer uma analogia aqui: os filmes de gangsters de Hong Kong estão para os filmes de gangsters clássicos americanos como os western spaghetti estão para o western clássico americano. É a mesma revisão maximalista, o mesmo rebentamento até à desmesura.

A redenção do cinema de Hong Kong veio na forma de uma pequena produtora independente, a Milkyway Image. Johnnie To e o seu colaborador Wai Ka-Fai, que a idealizarame fundaram, deram o passo seguinte de que ninguém se tinha lembrado de dar. Retrabalharam o filme de gangsters, paralizaram-no, limparam-lhe o sangue, criando um género quase meditativo à maneira de um Melville na França dos anos 50/60.

Nos filmes de Johnnie To não há litros de sangue, nem bailados elaborados, a coreografia agora é pós-moderna, os actores/dançarinos estão parados e é a câmara que dança à volta deles, mostrando e escondendo o que quer. Basta pensar na brilhante cena do centro comercial de “The Mission”, um dos momentos mais geniais da história do cinema. Contudo, a fraternidade de homens honrados contra forças opressoras continua. Mas estes homens não são torturados como os de Woo, têm famílias, integram-se na sociedade. A China não ensombra To como ensombrava Woo. De qualquer modo, o que havia a temer já aconteceu.

“Mad Detective”, uma co-realização de Johnnie To e Wai Ka-Fai, protagonizada por Lau Chin-wan – bem mais mundano do que Chow Yun-fat, feio, meio bruto, desenrascado -, é um dos grandes sucessos de bilheteira dos anos 2000 em Hong Kong. Equiparável, só a trilogia “Infernal Affairs” de Andy Lau e Alan Mak, que viria a ser refeita por Martin Scorsese em “The Departed”, que lhe valeu o tão ansiado Óscar.

Até agora, Johnnie To nunca se decidiu a sair do território para trabalhar noutros sítios e parece que já recebeu propostas. Ainda assim, é bastante acarinhado em vários festivais de cinema pelo mundo fora – incluindo o nosso IndieLisboa – e é considerado por muitos – por mim também – um dos cineastas mais relevantes da actualidade.

Wong Kar-wai

A 1 de Julho de 2047 finda o período em que a República Popular da China é obrigada a manter o sistema capitalista e o “anterior estilo de vida” no território de Hong Kong.

Por essa altura, é provável que o cinema de Hong Kong já não exista, engolido pela gigantesca China, que começa a investir a sério no cinema para as massas. Até John Woo regressou pela primeira vez para realizar “Red Cliff”, financiado com dinheiros estatais. A concorrência será muito difícil, para mais quando a própria Hong Kong está cada vez mais integrada na Grande Nação. De todo em todo, o cinema de Hong Kong já não é o que era, não são só as infinitas repetições das mesmas fórmulas que destroem a indústria. As recentes pandemias – que costumam dar-se na Ásia – e o pirateamento dos filmes têm afastado ainda mais pessoas das salas.

Em 2004 Wong Kar-wai realizou “2046”, o seu penúltimo filme, em honra dessa data que ainda vem longe, a data em que Hong Kong fará definitivamente parte da China, sem estatutos especiais. O filme pouco tem a ver com isso, de resto, é complicado saber sobre o que é exactamente, entre histórias de amor e veleidades de ficção científica (o tal futuro, o tal futuro). Wong sempre foi uma carta fora-do-baralho, não se especializou em gangsters, só o seu primeiro filme é que teve sucesso em Hong Kong, sendo muito mais apreciado fora de portas.

É um cinema mais feminino, mais apolítico, de certa maneira, do que o de John Woo e o de Johnnie To. Contudo, é impossível fazer qualquer tipo de história dos últimos trinta anos do cinema de Hong Kong sem o referir.

Se Wong, cujo último “My Blueberry Nights” é internacional, se tem vindo a especializar numa espécie de filme de prestígio para ocidental ver, começou também ele por um filme de gangsters, “As Tears Go By”, embora mais próximo de um casamento entre Scorsese e Jim Jarmusch do que de John Woo. As suas personagens nesse filme vivem da honra e da lealdade (o tema que une todo o cinema de Hong Kong), mas a mulher já é uma salvação e não uma maldição. A maldição é a honra, que leva à morte.

Desde o início, a sua obra foi marcada pela música, pedaços de música pop tocados nos seus filmes até exaustão, até entrarem na cabeça do espectador (a canção “California Dreamin’” em “Chungking Express”). Os seus actores predilectos (Andy Lau, Tony Leung, Leslie Cheung) são estrelas do Cantopop. Refira-se que boa parte das estrelas de Hong Kong divide-se pelas duas carreiras e não é menos por isso. O que não deixa de ser curioso, é como imaginar um Al Pacino ou um Robert De Niro a lançar álbuns e a serem abalroados por adolescentes histéricas.

O delicado Leslie Cheung será o actor que mais facilmente se associa a Wong Kar-wai (mais do que o fabuloso Tony Leung). É uma figura meio trágica, uma das primeiras estrelas do Cantopop (considerado um dos pais do género) virou-se para uma carreira convincente na representação. O seu primeiro grande papel foi, curiosamente, em “A Better Tomorrow”, para o qual também cantou o tema-título. Para lá disso, foi a concubina em “Farewell, My Concubine” do chinês Chain Kaige, a primeira vez que interpretou um homossexual num filme. Uma outra foi em “Happy Together” de Wong Kar-wai, que relata um amor homossexual entre Cheung e Leung. Apesar do homoerotismo de alguns filmes, a homossexualidade não é propriamente o tema da moda em Hong Kong, à altura terão sido jogadas arriscadas. Leslie Cheung era ele mesmo bissexual assumido. Aos 46 anos, matou-se.

O futuro do cinema de Hong Kong não parece muito radioso, no entanto, ainda temos o incansável Johnnie To a fazer filme após filme e todo um passado valioso que ficou lá atrás.

Para escrever este artigo, fiz uso da sempre prestável Wikipedia, mas também de artigos que foi encontrado na Internet: o de Jillian Sandell, já referido; um de Michael Vesia, de onde roubei a ideia de dividir este artigo por estes três realizadores; e no blog de David Bordwell, crítico de cinema e autor do livro “Planet Hong Kong”, amante, está visto, do cinema do território. Aconselho os interessados a darem uma olhadela aos links relacionados (no canto superior direito) e a lerem os artigos. Valem bem a pena e explicam isto tudo melhor do que eu consigo.



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