Ludovico Einaudi

Ludovico Einaudi @ Coliseu dos Recreios (21.04.2016)

Elementar, meu caro Einaudi

Foi de costas para um Coliseu praticamente esgotado, à excepção das galerias que circundam o bonito anfiteatro, que Ludovico Einaudi se sentou para manipular docemente as teclas que tão bem conhece.

De costas para completar uma circunferência com o quinteto que tão bem o acompanhou durante as duas horas de música com que nos brindou na passada quinta-feira.

De costas para que a audiência não se distraia a tirar fotografias e afins, e aprecie a magia que vai acontecendo em palco, por entre a cumplicidade e a harmonia patenteada pelos diferentes executantes.

Rodeado de percussões, guitarra eléctrica, baixo por vezes, teclados electrónicos noutras, e em especial violino e violoncelo, é o piano do mestre italiano que vai ditando a cadência, a ligeireza, ou o crescer do som, que não cessa de encantar independentemente do trajecto que percorra.

Ao vivo parece notar-se mais evidente o contributo destes instrumentos adicionais, que chegam por diversas vezes a roubar o protagonismo do piano, de forma consentida, claro está.

Ainda assim, perante este sexteto de músicos, o silêncio e as pausas nunca são esquecidas ou desrespeitadas. E, felizmente, o público do Coliseu soube desta feita entender esses silêncios, coibindo-se de violá-los com os já demasiado frequentes gritinhos e deixas auto-proclamadas de humorísticas.

Se “Elements” foi o nome escolhido como título do mais recente disco de Ludovico Einaudi, o ar para a música respirar e fluir foi claramente aquele que teve o papel principal.

Foi efectivamente sobre o disco lançado em 2015 que incidiu o holofote deste concerto, trabalho esse que fez história ao ser o primeiro álbum de música clássica a entrar no Top 15 britânico nos últimos 20 anos. Tal facto prova que, tal como a nós, que raramente ou nunca frequentámos os corredores da música clássica, as composições do simpático senhor Einaudi têm o condão de colocar novos ouvidos à escuta deste género, que se desdobra consequentemente no subgénero da neoclássica.

Ele não tem medo de arriscar e trazer para as suas pautas experimentações que não têm também por hábito cruzar-se com o som mais tradicional da música clássica. Não raras vezes foi possível observar os músicos entoando sons deveras minimais, ambientais (incluindo um instrumento de percussão que era mergulhado ciclicamente numa espécie de aquário, cuja designação desconhecemos), sendo o referido piano do mestre a cola que torna tudo congruente ao longo desses exercícios.

Foi também neste “Elements” que se inspiraram as imagens que foram sendo projectadas ao longo da performance do pianista italiano e demais companheiros de palco. Diversas fórmulas, equações, letras e números que iam vagueando pela tela, crescendo e desaparecendo em sintonia com as composições musicais que ilustravam.

O músico transalpino falou muito pouco com o público lisboeta. Apenas uma curta abordagem sensivelmente a meio do espectáculo, para agradecer a atenção e dedicar um dos seus temas ao génio de Prince (falecido nesse mesmo dia), e outro antes de terminar o encore com que rematou a noite.

As duas ovações em pé que arrancou de toda a plateia que preenchia o Coliseu aquando da primeira saída de palco e a segunda no final do encore falam por si e atestam a qualidade oferecida por Ludovico Einaudi e seus músicos, caso algumas dúvidas restassem.

Após ter esgotado salas de média dimensão no nosso País em 2013, estava realmente na altura de um giro pelos Coliseus.

E fomos para a rua a respirar melhor.



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