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“Lust”, de João Paulo Simões

“Já me chamaram compositor de filmes”

A viver em Inglaterra há cerca de 15 anos, João Paulo Simões é um dos mais prolíferos realizadores de cinema de nacionalidade portuguesa.

“Lust” (The Power Supreme), uma curta-metragem concebida tendo como génese a música de Ithaka, chega até nós envolta de uma áurea polémica, tendo um dos pecados capitais como tema central, e segue a bitola dos anteriores projectos do realizador que actualmente trabalha na pós-produção do documentário “A Vida é Simples”, que narra a curta vida e o suicídio de um jovem estudante de engenharia.

Para a elaboração de “Lust”, João Paulo Simões dividiu-se entre Inglaterra, onde vive, e Portugal, e contou com a participação de actores nacionais e britânicos. O resultado são vinte minutos intensos, a preto-e-branco, que nos transportam para dentro de um universo onírico fragmentado.

Ao longo do vídeo somos convidados a assistir à evolução de uma jovem até atingir a fase adulta, período em que descobre, e se entrega, à luxúria, fazendo disso um lema de vida, um prazer dentro do prazer.

A acção é marcada pela música de Ithaka, o fio condutor de toda a trama. As imagens, fortes, ganham ainda mais pujança com a alternância entre música e silêncio, entre o som e o vazio, entre o sonho e a realidade.

Mas para melhor entender esta recente aventura de João Paulo Simões estivemos à conversa com o realizador.

Como nasceu a ideia de “Lust”?

Surgiu do acaso que é ser contratado para conceber um videoclip. Ou seja, obedece a uma dinâmica criativa completamente diferente. Está muito mais dependente do que a canção me pode inspirar ou suscitar. Ainda assim, a natureza híbrida do projecto facilitou a incorporação de elementos mais cinemáticos. A ideia, em termos de conteúdo, evoluiu aos poucos. De uma intenção inicial de nos centrarmos mais numa única personagem, para segmentos mais elaborados com diversas outras. Sempre a ilustrar múltiplas facetas da luxúria.

Dizes que foste contratado, mas em condições “especiais”, certo? Existe uma relação de amizade entre ti e Ithaka. Isso é uma condicionante ou um estímulo?

Sim. Ao contrário de muitos outros videoclipes que me contrataram para fazer ao longo dos anos, este tinha uma forte vantagem de ser para um velho amigo. Alguém que acompanhou desde o início toda a minha trajectória e que de todos os realizadores que poderia ter escolhido para este trabalho, seleccionou-me a mim. Por acreditar e confiar. A liberdade criativa foi total. Ithaka não é só um músico excelente. É um artista consagrado e inteligente que percebe que, para receber o melhor de outro artista, não se podem impor restrições.

Tendo entre mãos vários projectos (sequelas de “Antlers of Reason” e de “Mercy”, bem como o documentário “A Vida é Simples”) este “Lust” representa um escape, um novo respirar entre os vários trabalhos mais cinematográficos?

De certa forma, sim. Para mim, videoclipes (híbridos, como este, ou não) são sempre a plataforma ideal para a experimentação. Para explorar abordagens novas. A vários níveis. O que se cria nestes está ao serviço do tema ou canção, mas pode-se ser mais ousado em termos de linguagem visual e estética. Com diversas opções. Todas elas válidas. Em Cinema a história é outra…

“Lust” divide-se entre Inglaterra e Portugal, entre actores britânicos e nacionais. Esta miscigenação cultural é importante para o teu trabalho?

Completamente. É a realidade em que vivo. Por um lado, a decisão de filmar em Londres é um reflexo disso mesmo – pela concentração de tantas culturas num só espaço. Mas Lisboa atrai-me por muitas razões: a luz, a arquitectura, os nossos actores… Acho, no entanto, que cada povo tem algo muito específico para oferecer. Se os britânicos oferecem o distanciamento e ordem que muito do meu trabalho de ficção reflecte, reconheço-me muito na alma lusitana (com todo o peso que tal acarreta). Por outro lado ainda, em toda a minha vida me foi feito notar que sou mestiço também (NDR: João Paulo Simões é filho de angolanos). Algo que tem, necessariamente, de ter alguma influência. Nem que seja inconsciente.

As performances de Sara Belo e Sandra Rosado destacam-se neste vídeo. Estão os nossos actores num patamar idêntico ao que se vai fazendo lá fora?

O segmento protagonizado por Sara Belo e Sandra Rosado é talvez aquele que mais facilmente aconteceria um dia na minha filmografia (quer houvesse “Lust” ou não). Não por ser uma ideia antiga. Muito pelo contrário: surgiu naturalmente ao longo da transmutação narrativa do videoclip. Mas, respondendo de forma mais específica, eu ousaria dizer que os nossos actores não só estão num patamar idêntico, como são inigualáveis em muitos outros aspectos. Existe uma entrega muito especial ao que fazem. Algo que tanto tem de físico, como de espiritual. E possuem também uma impressionante abertura a abordagens mais alternativas.

Já disseste que este vídeo foi inspirado na manga japonesa. “Lust” assemelha-se também a um sonho fragmentado muito bem secundado pela música de Ithaka. A literatura, a música e a banda desenhada continuam no topo das influências ao fazer um filme?

São as minhas influências pessoais, sim. Ou melhor, as primordiais – pois foram o meu ponto de partida. Concordo que Cinema influencia Cinema, acima de tudo. E refuto a ideia de que o mesmo se possa sustentar de forma subserviente a outras artes ou interesses. Mas, se ao longo do tempo já me chamaram de “compositor de filmes”, considero também que é a com a poesia que o Cinema tem mais em comum. Na capacidade de evocar ou fazer sentir através de uma abordagem formal inesperada – que ora se quer complexa ou divinalmente simples e despida.

Que trabalhos te deram mais prazer realizar até hoje?

Não é uma pergunta fácil de responder, pois depende dos critérios que escolher na minha resposta. Mas vou tentar… O meu primeiro filme em Português, “Torpor” (2003) foi sem dúvida uma experiencia única. Dava ainda os meus primeiros passos cinematográficos, mas não só tive o privilégio de trabalhar com a Natália Luiza, que deu voz à narração, como foi a primeira vez que colaborei com o Alexandre Guedes de Sousa, com quem viria a fazer muitos mais filmes, incluindo agora o “Lust”. Outros trabalhos que me deram prazer realizar foram: “Antlers of Reason” (2006) – pelo aprofundamento na concepção e interpretação das personagens; e outro híbrido de videoclipe/curta-metragem o “He Can Delve In Hearts”, que concebi para o Matt Howden (Sieben) e que, mesmo tendo tido uma produção tortuosa, foi dos trabalhos em que senti maior à-vontade e confiança no domínio das minhas “já bastante usadas” ferramentas.

Tens projectos novos? Quando é que podemos contar com novidades?

Neste momento, entro em pós-produção com o documentário “A Vida é Simples” que, devido à sua natureza mais pessoal/delicada (o calculado suicídio de um jovem estudante de Engenharia interpretado pelos que cá ficaram) e às muitas horas que se filmou, ainda vai levar uns meses a estar concluído. Estou, por outro lado, a avançar com um projecto noutra área. A codirecção de COR/PO – que é uma performance coreografada e interpretada por Angelina Abel, que incorpora a poesia do meu falecido avô (o poeta angolano Maurício de Almeida Gomes) e que vai incluir um complemento audiovisual da minha autoria. Já foi apresentado algumas vezes e temos datas marcadas ao longo deste ano. Um trabalho que se irá aprimorando aos poucos, até ser finalmente apresentado em Luanda. Existe também uma ligação entre este trabalho e o segmento “Exortação” de uma longa-metragem minha, intitulada “Ausências Que Ficam”. Em “Exortação”, filmei o meu avô a ler um dos seus poemas. Estará disponível na data que seria o seu aniversário: 14 de Março.

A luxúria é para ti um poder supremo?

Não. Apesar de discordar com moralismos impostos por terceiros (como, por exemplo, a Igreja tenta fazer), depois de concluído o “Lust” apercebi-me que existe um fio condutor que une os segmentos. Uma “resposta moral”, por assim dizer. Como se a vida disso se encarregasse. Dois poderes presentes no filme e que na minha existência se consideram supremos são talvez a Perda e a Compaixão.



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