“Manual de Instruções para vencer a crise ou falir a tentar” | Entrevista com Zé Pedro Silva

Entrevista com Zé Pedro Silva

O "Manual de Instruções para Vencer a Crise ou falir a tentar" está aí para nos ajudar

Chegados ao final de um ano complicado e no princípio de outro que se prevê ser de alerta vermelho permanente, nada como ter nas mãos o “Manual de Instruções para vencer a crise ou falir a tentar”, da autoria de Zé Pedro Silva.

Além de falar da maldita crise, que terá começado quando os gregos decidiram imprimir o seu orçamento em papel rascunho, “Manual de Instruções…” contém ainda um guia de desobediência civil, que apresenta boas e práticas soluções em hora de apertar o cinto até à última casa: como poupar na electricidade, como ter combustível a preço de saldo, como comer fora despreocupadamente, como trocar de carro para melhor ou como continuar a ter objectos de luxo sem dar cabo do orçamento familiar.

Falámos com Zé Pedro Silva a propósito do lançamento do livro, tentando não fazer muito barulho para que os ricos continuassem a dormir sem o perigo de nos cobrarem um imposto inventado na hora.

 

“Manual de Instruções para vencer a crise ou falir a tentar” | Entrevista com Zé Pedro Silva

Já começaste a imprimir em folhas de papel rascunho ou ainda restam algumas resmas lá por casa?

Meia resma, é tudo o que tenho. Acabo de confirmar. Comprei esta resma nos tempos áureos da nossa economia, quando ainda tínhamos dinheiro para gastar na papelaria. Mas já não me lembro da última impressão que fiz sem ser nas costas de alguma coisa. Em todo o caso, gostaria de dizer que eu não sou a Grécia, porque agora, quando falamos destas coisas, é bom deixar isto claro, sob pena de alguém pensar que vamos entrar em incumprimento.

Achas que “poupar” é um verbo pouco dado à alma lusitana?

Não. Antes pelo contrário. Eu até acho que os portugueses são muito poupadinhos, mas depois gastam tudo em políticos.

Ainda tens conta no banco? Neste Manual os bancos são vistos (e com muita razão) como um demónio de saias, que ainda por cima não caem...

Pois, os bancos são a única coisa nesta terra que não sofre os efeitos da gravidade. Se se largar um banco de uma altura de 50 metros, garanto que cai a grua e o banco fica lá.

Eu ainda tenho uma conta, porque não tenho alternativa, mas não tenho nem poupanças nem investimentos. Na verdade, também não teria dinheiro para isso. A verdade é que eu também gasto tudo em políticos.

Vais aplicar a receita deste Manual num paraíso fiscal?

Eu não, mas o dono do banco onde ela vai cair, provavelmente sim.

Quando em crise, será melhor bater à porta de gente rica ou o melhor é deixá-los sossegadinhos e tentar resolver isto de forma pobre mas honrada?

Nunca ninguém ficou rico à conta dos ricos. Só se fica rico à conta dos pobres. Agora é uma questão de escolher a porta. Em todo o caso, para visitar gente rica, não se deve bater-lhes à porta. O ideal é saltar a vedação quando não está ninguém.

Já meteste o frigorífico fora de casa alguma vez? Dá ideia de ser o inimigo público n.º 1 em tempos de crise

O frigorífico não é a fonte do problema. É apenas o catalisador. O ideal é deitá-lo fora e guardar os frescos na Bimby. Se no dia seguinte estiver tudo estragado, então é ligar para a marca a reclamar, pois disseram que o maravilhoso robot fazia tudo, mas pelos vistos nem conservar alimentos consegue. Receberá outra Bimby, uma indemnização e um livro de receitas.

Depois da liberalização do mercado da energia, a puxada é o futuro luminoso?

Depois da liberalização do mercado da energia, vai acontecer o que já acontece com os combustíveis, ou seja, vai tudo lavar a roupa e a louça a Espanha, porque em Portugal é muito mais caro. Mesmo para carregar o telemóvel, é melhor ir a Badajoz.

Um porta-cabelos pode ser um novo produto a equacionar? Parece ser algo de muito útil para quem pretender continuar a comer fora de casa…

É uma ideia muito boa, mas uma vez que sou contra o empreendedorismo, não posso apoiar. Por isso, podemos sempre sacar um cabelo de alguém ao lado. É uma táctica que só falha com um careca a comer num restaurante às moscas.

A crise é mesmo “o parque de diversões do amante sem cheta”?

Sem dúvida. O dinheiro é um problema numa relação amorosa. A falta dele será sempre o seu maior pilar. Quando há dinheiro e alguém nos diz “quero o divórcio” ou “vou sair de casa”, ficamos muito atrapalhados e procuramos saber: “Como? Como é que isso é possível? O que é que eu fiz? Não queres pensar melhor?”. Já quando não há dinheiro, à mesma pergunta já respondemos de outra forma: “Ai é, e vais para onde?” Passado um bocado estão os dois a ver televisão e a comer tremoços como antigamente e não se fala mais nisso.

A imagem do sem-abrigo é o novo look do mundo da moda?

Gostava de lembrar que já se vendem calças com buracos de origem. Por exemplo, recentemente vi à venda umas calças de ganga que eu ia jurar que tinham caído do camião em andamento e que o motorista as tinha apanhado depois de terem ficado presas no diferencial do camião que seguia atrás.

Mas atenção que eu não vejo isto como um problema. O look pobre tem muito mais estilo. Recordemo-nos da época de ouro da economia portuguesa, quando nos cruzávamos com indivíduos de calças encarnadas e com camisas onde a marca estava mais visível que as indicações na auto-estrada.

A crise deve ser explicada às crianças ou o melhor é deixar que passe sem fazer desenhos?

Deve ser explicada, até para evitar ser confrontado com a habitual crueldade dos pequenos: «Mafaldinha, o papá não te vai oferecer a bicicleta porque tu não tens estudado, ficas acordada até tarde e não arrumas o quarto!», «Fogo, pai! Não acredito que foste despedido outra vez!»

Tens recebido muitos cartões de pontos ou talões de desconto de amigos que deram de fuga?

Não. Dão tudo às namoradas, o que é uma estupidez, porque quando eles regressarem da diáspora já elas se casaram com o melhor amigo de ambos, mais corajoso, que ficou cá a enfrentar a Troika.

O mundo seria um sítio melhor sem dinheiro e sem economia por perto?

Claro. Basta ver aqueles espaços onde não se pode usar dinheiro, só fichas. São sempre mais divertidos.

Será o humor o melhor remédio para a crise?

Pelo menos atordoa. É a diferença entre arrancar um dente com ou sem anestesia.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This