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Marta Dias @ Europa

"Gosto de trabalhar para os outros se divertirem". A porteira do after hours mais concorrido de Lisboa em discurso directo na RDB.

Entre as seis e as 10 da manhã, todos os noctívagos que desaguam no Europa passam por ela. Por detrás de uma fila de gente mortinha por um pé de dança, é ela que permite a passagem para mais umas horas de música. Marta Dias, 29 anos, é a porteira do after hours mais concorrido de Lisboa. Já não gosta de sair à noite e não ouve música electrónica em casa.

Estiveste de férias… onde foste?

Estive no Algarve com a minha mãe, em Olhos de Água. Foi óptimo porque estava bom tempo mas achei o Algarve muito estragado. Já não lá ia há alguns anos e vi muita construção à toa: rotundas, supermercados e prédios, prédios, prédios, prédios.

És de Lisboa?

Sou.

Como começaste a trabalhar como porteira?

Foi por acaso. Comecei a trabalhar no Souk quando o Renas, o Lois e o Gustavo foram para lá. O Renas perguntou-me se eu estava interessada e comecei a fazer duas ou três noites por semana. Isto foi em 2004.

O que é preciso para ser um bom porteiro?

Paciência [risos]. E tens de gostar de lidar com as pessoas, ter calma e ser educado. Tens de respeitar as pessoas para que elas também te respeitem a ti.

O que aprendeste com esta experiência?

Aprendi a ser mais calma, aprendi a gerir situações de stress, de tensão. Por vezes tens de conseguir controlar comportamentos sem entrar em choque com as pessoas e isso nem sempre é fácil. Também aprendi a controlar o meu mau feitio, que eu tenho um bocado mau feitio.

Quais são as vantagens e as desvantagens deste trabalho?

As vantagens são os horários. A rotina das 9h às 18h mata-me e no Europa entro às 06h e saio às 10h, o que me permite ter tempo livre durante o dia. O ordenado também é uma vantagem. Outra vantagem são as pessoas que conhecemos embora também tenha feito alguns inimigos. Mas sobretudo gosto de trabalhar na noite, gosto de trabalhar para os outros se divertirem.

Trabalhas noutros sítios?

Às vezes estou no Maxime. E agora estou também na Academia Recreativa de Linda-a-Velha, durante a semana, a ajudar uns amigos que estão a explorar o bar.

Dormes antes de ir para o trabalho?

Não, normalmente não. É estranho acordar às cinco e tal e ir para ali.

Quais são as situações mais difíceis de lidar no teu trabalho?

O pior de tudo são as pessoas que ficam violentas… nesse caso conto sempre com o apoio dos seguranças. Já tive várias situações, sobretudo no Europa, mas tenho sempre os seguranças porque senão era impossível.

Já barraste alguém à porta só pela aparência ou pela maneira como se apresenta?

Já. É um bocado complicado mas algumas casas têm uma clientela definida e às vezes tem de ser. Nesses casos temos de tentar contornar a situação, dizer que está a haver uma festa privada ou isso. Mas é sempre complicado.

Há algum sítio onde gostasses de trabalhar além do Europa?

Sim, adorava trabalhar no Lux. Admiro o profissionalismo e eles são muito profissionais. Não há muitas casas a trabalhar como eles em Lisboa. É uma casa onde acho que podia aprender muito.

Que fazes durante o teu tempo livre?

Gosto de ir ao cinema, gosto de ouvir música, mas sobretudo de passear. Gosto muito dos sítios junto ao rio.

Gostas de sair à noite?

Acho que já não gosto de sair à noite [risos]. Prefiro mil vezes sair para trabalhar do que para ir beber um copo, sem dúvida. Às vezes vou ao Lux, ao Op Art ou à LX Factory… Também gosto muito do Musicbox. Tem bons concertos e é um dos poucos sítios onde vou com alguma regularidade.

A música do Europa é electrónica… Que música ouves em casa?

Gosto de música electrónica mas não oiço música electrónica em casa. De resto oiço de tudo mesmo, não tenho um estilo de música preferido.

Como descreves os noctívagos lisboetas?

Nós gostamos de festa e qualquer pretexto é bom para fazer uma festa. Acho que, em Lisboa, as pessoas ainda saem para se divertirem e ouvir música e conviver e não só para se embebedarem. Pelo menos gosto de pensar assim, essa vertente da noite nunca me agradou muito.

Que pensas de Lisboa?

Acho que Lisboa consegue conciliar a vertente urbana das grandes cidades europeias com aquele espírito quase de vila. E é uma cidade muito bonita, com uma luz brutal e um clima óptimo. Só comecei a dar mais valor a isso quando vim de Londres onde vivi três anos, porque antes disso nem olhava à volta. Quando voltei foi como se fosse uma turista na minha cidade.

Qual é o teu sítio preferido de Lisboa?

Gosto da zona onde moro [a Bica]. É um bairro histórico e eu gosto muito disso. Já vivi em Alfama, já vivi no Castelo. Gosto do contacto que há entre os vizinhos, das pessoas falarem de uma janela para a outra. Não são aqueles bairros frios em que as pessoas estão metidas nas suas caixinhas.

Interessas-te por política? Votas?

Não. Não.

Comida preferida…

Eu adoro comer, ponto. Já fui vegetariana mas não consegui porque gosto mesmo de quase tudo. Gosto de petiscos, de caracóis, de comida tradicional… Adoro cozido à portuguesa. Mas a minha paixão neste momento é o Sushi. Quando tenho paciência vou ao Mercado da Ribeira onde o peixe é muito fresco e faço Sushi em casa. Gosto de ir ao mercado porque tens o contacto com as pessoas e, às vezes, directamente com o produtor.

Se tivesses uma máquina do tempo ias para o futuro ou para o passado?

Gostava de ir ao passado porque o passado pode ajudar-nos a compreender o presente e pode ajudar-nos a decidir o futuro.

Um sonho que tenhas…

Gostava de viajar muito e conhecer o máximo de sítios, pessoas, culturas e gastronomias diferentes. Hoje em dia não tenho muita disponibilidade porque vivo sozinha. Sou eu que pago as minhas contas sozinha, a renda, etc, por isso não dá para grandes viagens.

Das viagens que fizeste quais foram os países que gostaste mais?

Gostei muito da República Dominicana. É um país muito pobre, com muitas dificuldades mas as pessoas têm uma alegria de viver e um sentido de partilha que mexeu muito comigo.

Acreditas em algum Deus, alguma religião?

Não sou católica. Tive uma educação católica mas hoje em dia não acredito no catolicismo. Mesmo assim, acredito que há qualquer coisa que nos guia. Posso dizer que não sou católica mas tenho fé.



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