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Mas o Actor é um Adereço?

A propósito das múltiplas personagens de Peter Sellers em Dr. Strangelove e como Clare Quilty em Lolita, ambos de Kubrick, uma pequena dissertação sobre o papel do actor no cinema, entre o clássico e o moderno.

O cinema clássico de Hollywood estava formatado para um tipo diferente de star system, a realização e o argumento davam primazia à faceta mais séria do actor que, quase obrigatoriamente, teria que ter passado pela escola clássica do teatro. Esse relevo moldava os filmes e os diálogos de forma quase cirúrgica, dando espaço de manobra para a criação da personagem usando o processo de palco. Estamos no cinema do chamado período clássico de Hollywood, entre 1910 e 1960. No cinema mudo, a importância da pantomima e da expressão corporal era fulcral e após a revolução do cinema sonoro muitos desses actores não conseguiram vingar no novo cinema porque as suas vozes não eram perfeitas. O som não matou o cinema, mas é verdade que na gloriosa época do mudo a expressividade, a atmosfera e o trabalho do actor não eram destruídos pelo diálogo nem a estória sofria de pausas para excessos sonoros nem diálogos longos, mesmo que no mudo fosse frequente a utilização de inter-títulos que na maior parte dos casos eram apenas explicativos ou de diálogo muito reduzido.

O trabalho do actor no cinema do início do século XX era, portanto, completamente diferente, e a indústria sempre adaptou as suas produções às inovações tecnológicas; a transição para a cor nos anos 60 apenas mudou a estética e a forma de iluminar as cenas, mas ao mesmo tempo a indústria também mudou para acomodar novas vagas. É que a partir de 1960 começámos a ouvir falar de cinema Europeu, por exemplo. Uma forma diferente de inovar e de contar estórias, e também novos actores de outras escolas que não a clássica de Hollywood. Aliás, muitos dos actores que ficaram na estória do cinema Norte-Americano vieram, precisamente, de Inglaterra. Peter Sellers é um deles.

Essa adaptação do cinema e da indústria cinematográfica à tecnologia e às novas narrativas cria e destrói actores e, tal como há diferentes fases e estilos ao longo das décadas, há diferentes modos de representar.

Hoje em dia o teatro parece não ter tanta importância na formação de um actor, especialmente na produção televisiva de baixo custo e mau gosto que inunda as nossas casas. Nessas produções é frequente encontrarmos não-actores, corpos inertes que servem um propósito: dar vida a argumentos medíocres. Nesta televisão há pouca narrativa, há apenas um conjunto de situações e lugares-comuns que pouco evoluem, há relações primitivas entre personagens e diálogos feitos a pensar nesses actores que não são actores, se estamos numa época de consumo rápido os actores também eles são de rápida absorção.

Peter Sellers desempenha 3 personagens em “Dr. Strangelove” (em português, “Dr. Estranho Amor”), todas elas diferentes e igualmente geniais. Sellers era também conhecido por ser perfeito na improvisação e muito do diálogo do filme é inventado por ele. Esta é a perfeita concepção de uma personagem, a apropriação da respiração, da linguagem, do olhar, da presença. A personagem torna-se no actor e é indissociável dele, pelo menos durante o tempo que decorre o filme (no caso de Sellers todas as personagens são o próprio actor, já que Sellers não sabia responder quem ele era, verdadeiramente, e era frequente aparecer nas entrevistas em personagem). Mas para um actor genial há apenas desafios, e já em “Lolita” Peter Sellers roubava as cenas todas como Clare Quilty. Este trabalho de Sellers e de outros actores gigantes da época teve pouca repercussão no cinema moderno. Óbvio que os tempos são outros, são tempos de facilitismo e de fazer esticar a fórmula até implodir. Temos vários exemplos televisivos de actores que muito dificilmente sairiam das personagens que construíram, Kiefer Sutherland vai ser sempre lembrado como o Jack Bauer de “24” para muita gente, por exemplo. Não que Petter Sellers tenha ficado impune como inspector Clouseau nos vários filmes de “Pink Panther”, mas para um actor completo há sempre outra personagem à espera de ser sugada na genialidade da criação da personagem.

Mas é claro que ainda existem personagens, aliás este texto serve para analisar a evolução dos diferentes tipos de actor no cinema e não para fomentar o saudosismo. Mas na concepção da narrativa moderna e na produção industrial há cada vez menos originalidade nas personagens. E se as personagens são todas iguais ou estereotipadas, os actores pouco conseguem transformar-se. Isto torna urgente o aparecimento das produções independentes.

É nos independentes, no do-it-yourself que está a redenção, por assim dizer. Porque um mercado saturado e chato dá origem à criatividade. E nessas imensas minorias independentes há espaço para o actor e para a personagem e para a narrativa, sem qualquer peso comercial. É ai que está o futuro da representação, mesmo que o teatro esteja sempre vivo embora menos palpitante na rotina das pessoas. A escola do teatro é importante, pois é onde o actor encontra o tempo e a seriedade necessárias para que a personagem se apodere, corpo e alma, do actor.

O actor não é um adereço, mas tem tendência a caminhar para o estereótipo numa sociedade cada vez mais preparada para o consumo rápido, com pouca variação de gosto. Desliguem a internet e vão ao teatro. Agora.



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