“Nada a Dizer” | Elvira Vigna

“Nada a Dizer” | Elvira Vigna

Como a arte imita a vida, mas nem sempre isso é bom

Com oito romances e ainda vários contos e livros infantis publicados, Elvira Vigna (n. 1947) é já uma veterana das letras no Brasil. “Nada a Dizer” é o sétimo romance da escritora brasileira, e aquele que a Quetzal escolheu para a apresentar aos leitores portugueses.

O livro narra a história de um casal de sexagenários de classe média, urbanos e liberais (ambos tradutores, não são casados, têm filhos de relações anteriores, foram oponentes à ditadura militar), cuja relação de muitos anos é subitamente abalada quando Paulo se envolve com uma colega de trabalho vinte anos mais nova. A crise conjugal que a partir de então se desenrola é narrada na perspectiva da mulher traída em forma de diário, em que cada data marca uma etapa do crescendo dessa mesma crise. Percorremos com a narradora todo um percurso psicológico que passa pela suspeita inicial, pela inquirição e pesquisa obsessivas, pela incredulidade, desgosto e repulsa face ao parceiro, até ao questionamento da sua própria identidade: ela, uma mulher culta e emancipada, acaba por reagir à infidelidade como qualquer outra mulher menos esclarecida reagiria.

O facto de se tratar de um descrição muito plausível da infidelidade conjugal – há até uma vaga sugestão autobiográfica, uma vez que nunca sabemos o nome da narradora – é ao mesmo tempo a sua maior virtude e a sua principal fraqueza. Contado numa prosa seca e directa, “Nada a Dizer” agradará a leitores interessados nos pormenores mesquinhos do adultério contemporâneo (há muitas páginas dedicadas a pesquisas no registo de chamadas do telemóvel, e-mails protegidos com senha, conversas furtivas via skype, ficheiros de imagem de origem desconhecida e ofertas de ipods), mas não tanto àqueles que na sua literatura não dispensam uma boa história.



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