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“Noite e Dia”

Um Coreano perdido em Paris

Para quem não está familiarizado com o Cinema Asiático, sobretudo o Coreano, este será, possivelmente, um filme demasiadamente complexo para ser entendido e digerido numa só passagem. No entanto, a estética crua e realista de Hong Sang-soo nesta obra de 2008, agora lançada em DVD, é um exercício de equilíbrio entre a realidade Oriental trazida a Ocidente e momentos onde a subtileza da vulnerabilidade humana se sobrepõe a todo o contexto da história.

Kim Yeong-Ho interpreta Kim Sung-man, um pintor que, no Verão de 2007, se vê obrigado a fugir de Seoul para Paris, por fumar marijuana. Para além de se ver num país cuja língua não domina e de ter que partilhar um quarto de uma pensão com mais dez pessoas onde prolifera um cheiro nauseabundo, Kim Sung-man sofre com a ausência da mulher, que deixou em Seoul. Entre episódios de desejo, reencontros com o passado, um suicídio inesperado, Sung-man parece reencontrar-se e ausentar-se de si mesmo durante o seu percurso pela capital francesa.

O argumento é apresentado quase como um diário visual, onde a cada data nos é dado um momento importante do dia de Sung-man que nos permite ir construindo a nossa própria visão sobre o decorrer da história. O jogo de conceitos entre desejo e honra, a presença da Bíblia, não como fonte de religião mas como pragmatismo a aplicar no dia-a-dia para facilitar as relações humanas (“é um livro de histórias”), e as ligações coincidentes entre as pessoas que vão cruzando a rota de Sung-man obrigam o espectador a um exercício mental que lhe permita compreender a solidão de um homem deslocado, não só do seu espaço como da sua vida. Por outro lado, as questões da honra e sentimento de culpa por enveredar pela traição e submeter-se a uma paixão inesperada dão o toque perfeito para que o espectador possa sentir a dualidade entre a razão e a emoção e o que poderá ser moralmente certo ou errado.

“Noite e Dia” (título original – “Bam gua Nat”) mostra ainda como pode ser difícil viver com a nossa própria comunidade num contexto completamente diferente do original: as relações entre os coreanos que habitam Paris não se estreitam entre si por estarem todos longe de casa; pelo contrário, os entraves postos pela adequação ao meio e a postura rígida, resultado da Cultura e costumes Coreanos, ajudam ao distanciamento emocional entre os indivíduos. Mais: Hong Sang-soo atreve-se a colocar o dedo na ferida na relação entre Coreia do Sul e Coreia do Norte, salientando a tensão criada pelo desfasamento sociológico e político dos dois países. A forma como o faz, recorrendo à faceta naïf artística de Sung-man durante um jantar e utilizando novamente um posterior sentimento de culpa para contrabalançar qualquer julgamento de valor que possa ser feito, denota uma inteligência que se sabe afirmar através dos pequenos detalhes.

Para ver, rever e reflectir.



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