Oldboy/Velho amigo

Oldboy/Velho amigo

A vingança é um prato que se serve mal passado.

Bem cedo pela manhã entro no meu carro e dirijo-me para um dos cinemas da capital, o objectivo desta matutina incursão, é ir visionar a versão de Spike Lee do afamado OldBoy, um filme que na sua versão original (2003) se tornou de culto e fez do Coreano, Park Chan-wook, um dos mais respeitados realizadores orientais.

A manhã está muito fria e enquanto escuto na rádio as mesmas requentadas notícias que ouço todos os dias, penso nos pequenos absurdos do quotidiano, na forma violenta e suicida de conduzir dos portugueses, e vez por outra, nas impressões que Oldboy me deixou da primeira e única vez que o vi.

Não foi uma história de amor, longe disso. Mas antes uma inquietante constatação dos fantasmas profundamente cruéis e violentos que povoam o imaginário oriental. Li muitos “Mangas” nipónicos, dos quais deriva este Oldboy, e presente em literalmente todos eles, existe esta visão perversa da realidade humana, onde a vingança se serve fria mas extremamente temperada, com as mais inenarráveis torturas…o que distancia estas narrativas modernas, das ancestrais lendas de fundo moral que todos admiramos e que identificamos com a cultura oriental.

Chego ao cinema e sento-me, envolvido na penumbra de uma sala já em fase final do ocaso que precede a noite estrelada do grande ecrã.

Ao meu redor existe uma não habitual profusão de vozes que discutem os méritos do que se vai ver. Prendo-me a uma conversa em particular -mesmo sabendo que não se escutam as conversas dos outros – e escuto o seguinte diálogo:

– Este filme é desnecessário, e acho estranho que se mexa com o Oldboy, afinal é uma obra-prima e nas obras-primas não se mexe!

– Ainda por cima o Spike Lee…ainda se fosse o Tarantino ou mesmo o Lynch…o Spike Lee nem realizador é.

O ecrã ganha vida, mas tenho tempo ainda de constatar que a reverência por Oldboy e pelas obras-primas, não tem para mim o caracter quase religioso que tem para outros. Lembro-me de uma cena horrível do filme, onde um polvo é devorado ainda vivo por Dae-su Oh (Min-sik Choi) e sinto um arrepio, pois para mim fazer isto a um ser vivo, não é arte como lhe apelidou Park Chan-wook, mas precisamente o contrário da arte.

De repente tomo consciência que sou um herege…e assim me fico, que o filme começou.

Joe Doucett (Josh Brolin), é um executivo de publicidade, alcoólico, misógino e irresponsável que ignora constantemente as suas responsabilidades para com a sua filha de 3 anos. Numa noite particularmente dramática em que destrói a sua carreira após uma tentativa falhada de sedução à mulher de um seu cliente, Joe entra numa espiral descendente de álcool e drogas. É nesse momento que conhece uma estranha mulher com uma sombrinha amarela…estamos a 8 de Outubro de 1993…

Ao acordar na manhã seguinte, Joe apercebe-se gradualmente que está aprisionada num estranho cárcere, em tudo muito semelhante a um quarto de motel, mas de onde não pode sair. Através de uma televisão que está sempre ligada, Joe toma conhecimento que é o principal suspeito da violação e morte da sua ex-mulher e que a sua filha foi entregue para adopção.

Durante os 20 anos seguintes (na versão original são 15, o que aparentemente não tem importância nenhuma, mas que tem muita no desenrolar do filme, reflectindo a diferença entre a cultura Oriental e a Ocidental em termos de relacionamentos entre homens mais velhos e mulheres mais novas…mas vou evitar spoilers), Joe passa por uma enorme modificação interior e exterior, semelhante por vezes à que encontramos em Edmond Dantes/Conde de Monte Cristo, sendo nesta versão de Spike Lee, mais notória a inspiração da obra maior de Alexandre Dumas, que tem até uma referência numa das cenas do filme.

Quando em 2003, Joe sai do seu cativeiro, ele é um homem muito diferente daquele que nele entrou, estando completamente centrado em provar a sua inocência, ganhar o amor da sua filha, descobrir e vingar-se do seu captor.

O que se segue é uma orgia de sangue e vísceras de proporções épicas, que em nada fica a dever à já de si muito gore versão original. Contudo ao longo de todo o filme, tive sempre a sensação de que, quanto maior a violência da cena, maior a censura a essa violência (ao jeito do que faz Guy Ritchie no excelente “Revolver”), o que não acontece na obra de Park Chan-wook, onde a violência é mais crua e gratuita.

Isso é particularmente evidente, numa das cenas que ambos os filmes partilham e que é (intencionalmente) uma das mais ridículas cenas de combate na história do cinema, e que Spike Lee coreografa de uma forma caricatural.

Uma diferença importante: desta vez a companheira de aventura de Joe, Marie Sebastian (Elizabeth Olsen), é uma voluntária de uma espécie de ONG e não uma “Sushi Chef” como acontecia com Mi-do (Hye-jeong Kang), o que nos poupa da triste, contudo célebre cena do polvo, o que por si só, me parece uma evolução.

Outra diferença é o final que não sendo “americanado” é mais ocidental. Uma vez que deixa as coisas mais explicadas, mas ao mesmo tempo, dilui um pouco a apoteose de sofrimento, culpa e consequências morais, que permaneciam sem catarse ou resolução na versão original.

Mas não deixa de ser um final bastante interessante e apropriado.

Quando o filme acabou, ninguém comentava à minha volta. Se foi por angústia ou espanto, não estou certo, muito embora tenha a minha opinião.

Uma coisa no entanto é inegável: Seja qual for o angulo pelo qual olhemos para este filme, ele será sempre polémico.

É violento?

É e muito!

Contudo parece que Lee está a tentar escrever Shakespeare com sangue ou tocar Rachmaninov ao som de balas…ao nível de um Teatro Grand Guignol.

Alguns classificarão as interpretações de Josh Brolin e do vilão Sharlto Copley, como rígidas, monolíticas até. Outros entenderão que a força da sua interpretação está na capacidade quase demoníaca com que se apropriam das suas personagens e as vivem, como se aquela frieza, aquele desespero e aquela dor, fossem suas.

Mas a pergunta que me interessa mais responder é a seguinte: Deve-se mexer em aquilo que alguns consideram uma obra-prima?

Eu já vos responderei, mas antes disso vou ouvir uma versão trash do “Clair de Lune” de Debussy.

Sai com um Satisfaz Bem!



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