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Mother

O Amor é cego.

Quantas vezes homenzarrões de barba rija foram ridicularizados por exibirem o “Amor de Mãe” tatuado no ombro? Uma chusma de murros e pontapés eram inevitavelmente a resposta, porque com o amor de sua mãe não se brinca. Nem se deve. Se há amor incondicional, é o de uma mãe por um filho. E incondicional significa que há amor mesmo que o filho seja pulha, ladrão, mentiroso, drogado, violador, assassino ou pedófilo.

“Mother” fala deste amor. Uma cegueira que leva tudo à frente, que se sujeita a tudo, que se corrompe, que se rebaixa, que enlouquece. Bong Joon-ho, co-argumentista e realizador do filme, conduz este amor às últimas consequências e conduz-nos a nós espectadores nessa viagem. Com uma mestria digna de um Hitchcock, Bong Joo-ho assegura o controlo sobre a sua audiência aos primeiros momentos, e com aparente simplicidade, nunca o larga até final.

Tudo começa no argumento, muito bem urdido, que quando prega uma rasteira ao espectador mais para o final, deixa-o a bater palmas, em vez de a insurgir-se contra a trapaça. O controlo começa aí e avança pela montagem que o aperta até transformar o espectador num joguete. Quando argumento e montagem são tão bem trabalhados e casam tão bem, temos cineasta, temos cinema puro.

Recordo umas das primeiras cenas (portanto, não será exactamente um spoiler o que vou escrever), em que a mãe está a desatentadamente a cortar umas ervas enquanto olha para o filho – que, cedo percebemos, não é o rapaz mais brilhante do bairro – a fazer macacadas no meio da rua. A montagem paralela faz-nos crer, sem a bengala da música, que algo de sinistro vai acontecer, e o suspense, com tanta simplicidade criado, é de uma eficácia avassaladora, deixando-nos cada vez mais ansiosos.

Outro dos pontos fortes do filme é a forma como balança suavemente entre a comédia e o drama, nunca pendendo demasiado para nenhum dos lados, fazendo-nos rir e comovendo-nos ao mesmo tempo, horrorizando-nos e enchendo-nos de compaixão, tudo temperado pelo desenrolar da trama thrillesca.

“Mother” não tem medo de jogar no campeonato do filme narrativo, rivalizando nesse campo com o melhor cinema americano, e ganhando-lhe em elegância e justeza, costumeiras na região de onde provem, numa junção do melhor de dois mundos.

Pode não ser uma obra-prima (que não será), mas é dos filmes mais sólidos e bem orquestrados, não meçamos palavras, um dos melhores filmes que vamos ver nas salas este ano. “Mother” é um exemplo do que se deve fazer, quando se aposta num cinema mais virado para o público.



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