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Ninja

Recordam-se do fenómeno ninja dos anos 80? Ele pode estar de volta. Os irmãos Wachowski, responsáveis por "Matrix", estreiam em Novembro “Ninja Assassin”, uma história de vingança que tem no elenco uma das estrelas de “Enter the Ninja” - o filme que despoletou a ninjamania.

A presença dos ninjas no cinema ocidental data de 1967 e deve-se a James Bond. Em “You Only Live Twice”, o famoso agente secreto é enviado para o Japão para evitar uma iminente terceira grande guerra. No decorrer da missão, Bond necessita de ajuda. Diz ele:

– Precisamos de homens de primeira. Há por cá soldados?

– Tenho melhor, muito melhor. Ninjas. É secreto, Bond.

– Ninjas?

– A arte do disfarce e da surpresa.

Tal como Bond, também os ocidentais desconheciam a figura do ninja. Era a primeira vez que o cinema mainstream abordava os misteriosos guerreiros japoneses, especialistas em técnicas de guerra pouco ortodoxas, entre elas a espionagem, a sabotagem e o terrorismo.

Nos anos 70 o cinema norte-americano vivia o fenómeno kung fu. Da China vinham filmes em quantidades industriais, muitos deles dobrados e re-editados. Os “série B” eram depois projectados nos cinemas urbanos e preenchiam a programação das televisões aos domingos à tarde. Mas os ninjas estavam prestes a invadir o ocidente e a impor o ninjutsu como a arte marcial dominante no entretenimento de baixo orçamento. Começavam a ameaçar: em 1975 os ninjas são os vilões em “The Killer Elite”, filme de Sam Peckinpah. Em 1980 é Chuck Norris que os enfrenta em “Octagon”.

O sinal que faltava para que a atenção das produtoras se virasse para os ninjas é dado por Eric Van Lustbader. O escritor americano edita em 1980 “The Ninja”, romance que atinge o estatuto de best-seller, tanto na América como no resto do mundo. A 20th Century Fox percebe que há um novo filão a explorar e compra os direitos de adaptação do livro para cinema. O projecto ainda está na gaveta, talvez devido à Cannon Films. É que a produtora de filmes de baixo orçamento antecipa-se e em 1981 estreia nas salas norte-americanas “Enter The Ninja”, o primeiro de muitos filmes cujo protagonista é um americano que se veste de ninja porque na infância aprendeu ninjutsu e é tão bom naquela arte marcial que nem os próprios ninjas o conseguem vencer. Era o início da ninjamania.

“Enter the Ninja” tem no título uma óbvia referência a “Enter the Dragon”, apoiando-se no sucesso de um dos mais conhecidos filmes norte-americanos de artes marciais. Mas, ao contrário do filme protagonizado por Bruce Lee, “Enter the Ninja” é tão mau e tão engraçado que lhe podemos colar a etiqueta trash. Se bem que “Enter the Ninja” nunca pretendeu ser sério: o protagonista é o actor italiano Franco Nero, estrela de filmes western spaghetti que usa um farfalhudo bigode, é louro e tem olhos azuis. Se estas características já não são comuns num ninja, acrescente-se ainda que em grande parte do filme ele veste um traje ninja branco que nunca suja, independentemente dos inúmeros combates que trava e dos incontáveis inimigos que elimina. A determinada altura, os vilões falam sobre ele:

– 20 homens? Ele livrou-se de 20 homens? Impossível!

– Impossível ou não, ele matou-os todos.

– Isso tudo deve-se apenas a um homem?

– Não a um homem normal… mas a um ninja!

– Um quê?

– Um ninja… alguém que estudou ninjutsu. Eu tirei algumas notas – diz, recorrendo a um bloco com apontamentos.

O sucesso do filme dá origem a duas sequelas não assumidas e à propagação dos filmes ninja, fomentada pelo advento do VHS e pela onda consumista que se vivia naquela altura. Também os chineses começaram a exportar filmes de ninjas aos montes e de qualidade muito duvidosa. No fenómeno há ainda lugar para as Tartarugas Ninja, que da banda-desenhada saltam para a televisão e em 1990 para o cinema.

À Cannon Films também se deve o clássico “American Ninja”, de 1985. A história é a mesma – um norte-americano que se veste de ninja porque na infância aprendeu ninjutsu e é tão bom naquela arte marcial que nem os próprios ninjas o conseguem vencer – mas neste caso estamos perante um filme realmente mau e nem o passar dos anos o favorece. Seguiram-se quatro sagas, a última delas estreada em 1993.

O fenómeno teve a sua máxima expressão durante os anos 80 e nos anos seguintes os guerreiros nipónicos deixaram de fascinar o grande público. Mas o panorama pode mudar. Em Novembro estreia “Ninja Assassin”, filme que conta a história de vingança de um ninja. É produzido pelos irmãos Wachowski, responsáveis pela triologia “Matrix”, e dirigido por James McTeigue, o realizador de “V de Vingança”. Mais: Sho Kosugi, actor japonês que se destacou em “Enter the Ninja”, é um dos protagonistas, representando o chefe de um clã ninja. Vem aí a ninjamania do século XXI?



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Existem 4 comentários

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  1. PEREIRA

    Lembro-me de alguns desses tempos. Apesar da qualidade deplorável da maior parte desses filmes "directos para o VHS", a nostalgia fala mais forte. Quantos de nós não nos perdemos nos vídeo-clube lá da terra em busca daquele filme do Sho Kosugi que um amigo de um amigo tinha alugado na semana passada…

  2. DanielRoffle

    A febre ninja dos anos 80 teve realmente momentos deveras caricatos. A certa altura até houve uma série em que o Lee Van Cleef (!) fazia de ninja.

    O que é muitas vezes ignorado nas interpretações ocidentais da classe (e, para ser justo, em algumas orientais, também) é como o ninja funciona como o reverso da medalha do samurai – enquanto o samurai é a face "oficial" do poder, servindo o shogun (supostamente) com um sistema de honra complexo, o ninja encontra-se numa posição de servo, obrigado a sacrificar a vida pelo mestre, mas cuja obrigação é ser sorrateiro, amoral e completamente desprovido de escrupulos na realização da sua missão. Faz portanto sentido ter sido o James Bond a introduzir o mito ao ocidente – as histórias dos ninjas prevêm o cenário maquiavélico do mundo da espionagem.

    Para uma boa exploração destes temas, recomendo a série de filmes "Shinobi No Mono", bem como a manga "Path Of The Assassin".

  3. Gabriel

    Ninjas, Samurais ou vampiros entre outros nunca vão realmente desaparecer. É por picos, agora estamos numa fase em que os vampiros voltaram a estar na moda quem sabe depois deste filme não serão os ninjas.

    Eu gostei do V for Vendetta se tiver a mesma qualidade "Ninja Assassin" será um sucesso.
    Não é certo ainda mas parece que depois deste James McTeigue voltará a virar-se para os super heróis com o filme de Magneto.

  4. Nuno Mendes

    Shinobi No Mono (1962) é o primeiro de uma série de filmes que retratam a vida dos ninjas de forma realista. É um grande filme e uma óptima dica, Daniel. Tal como a tua referência aos samurais, pois poucos sabem que os ninjas surgiram para fazer o trabalho "sujo" que a honra dos samurais não permitia.

    Gabriel, estou contigo: adorei o "V de Vingança" e estou muito curioso para ver "Ninja Assassin". Com os Wachowski por perto, normalmente o resultado é bom.

    Pereira, o Sho Kosugi está aí de novo, mais uma oportunidade para relembrar os tempos da ninjamania!!


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