Noite Escura

O recente trabalho de João Canijo já foi considerado o melhor filme nacional do ano. Será verdade?

85, um número como outro qualquer mas que tem um significado especial. Trata-se do número de casas nocturnas que João Canijo visitou em dois anos de pesquisa para fazer o filme Noite Escura, que está agora nas salas de cinema. Bares de alterne, casas de meninas, lupanares, bordéis, nightclubs, strip-clubs… enfim, acho que já perceberam do que estamos a falar.

De garrafa em garrafa (champanhe, como é óbvio), o realizador foi falando com proprietários, dançarinas e clientes, para construir a sua história, que podia bem ser a de muita gente, embora poucos o admitam…

Destes dois anos de trabalho e investigação saiu um filme sério, cru, negro e não apenas uma suposição daquilo que será o ambiente da noite. Também os actores, Fernando Luís, Rita Blanco, Beatriz Batarda e Cleia Almeida fizeram alguns dias de “estágio” em diversos estabelecimentos nocturnos para poderem encontrar-se com as suas personagens. Os quatro compõem uma família que gere um bar de alterne, bar esse que existe realmente, em Alcochete, mas que nunca chegou a abrir e que foi utilizado para as filmagens.

O resultado é uma trama familiar que se passa numa só noite e que joga as personagens umas contra as outras, num confronto final que acaba por determinar a tragédia que já se esperava. Nelson, (Fernando Luís), decide oferecer a filha Sónia (Cleia Almeida) a uns mafiosos russos para assim saldar as suas dívidas. Esta concorda, no entanto Celeste, a mãe (Rita Blanco) e Carla, a filha mais velha (Beatriz Batarda), acabam por precipitar tudo alterando o rumo da história. Em Noite Escura vemos vultos, sentimos cheiros, antecipamos a morte… É o melhor filme de Canijo, e sem dúvida um dos melhores filmes portugueses do ano.

Todo este enredo já estava na cabeça do realizador na forma de uma tragédia grega de Eurípides “Ifigénia em Áulis”. Sónia, a filha mais nova é Ifigénia, filha de Agamémnon e Climnestra, que é oferecida em sacrifício. Já Carla é Aquiles, que tenta salvar Ifigénia sem êxito. Este enredo andava na cabeça de Canijo há algum tempo, que pretende ainda adaptar as tragédias Coéforas e Euménides ao cinema.

O próximo filme do realizador vai ser sobre a máfia e Canijo já começou a investigação, portanto, soltem a vossa imaginação e esperem mais boas surpresas para breve.



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