Francisco Antunez

O jovem realizador, autor da curta “2º Direito”, em discurso directo na rua de baixo.

Muitos afirmam que o cinema português continua a ser aquilo que sempre foi, uma miragem. Felizmente, existem aquele que acreditam no potencial criativo e profissional dos actores, realizadores e técnicos nacionais. A rua de baixo esteve à conversa com um dos que “acredita” e não tem medo de tentar.

A arte non stop, que decorreu no Santiago Alquimista no início de Dezembro foi o mote para a conversa com Francisco Antunez, autor de “2º Direito”, uma das curtas-metragens exibidas na mostra. Para além de ficarmos a conhecer melhor o seu trabalho, na entrevista que se segue podemos também ficar a conhecer a realidade da produção nacional, a falta de apoios do ICAM e até mesmo as principais diferenças entre o Conservatório e as escolas privadas. Em suma, nas próximas linhas vamos falar sobre CINEMA.

RDB: Quem é o Francisco Antunez?

Francisco Antunez: Sou um jovem realizador [25 anos], português, nascido em Caracas, na Venezuela. Estudei no Conservatório de Cinema e frequentei ainda a Escola Superior de Comunicação Social. Trabalhei (e trabalho) como assistente de realização em filmes e publicidades. Em 2003, criei a marca U-hu Faz Misso! como resposta aos meus anseios criativos, e a vontade imensa de seguir caminho pelo meu próprio pé, começando a realizar. Realizei a minha primeira curta-metragem “CACTO” em 2003, e a segunda em 2005, “2º DIREITO”. Neste ano realizei ainda mais quatro videoclips (Freddy Locks, Verbal e dois para o Conjunto Ngonguenha). Para além disso encontro-me neste momento a colaborar como crítico com a revista de cinema “Première”.

RDB: Tiraste o curso do Conservatório. Achas fundamental ter formação desse nível para ser um bom realizador?

FA: É muito importante ter uma formação tanto teórica, como prática, mas existem várias excepções, de vários realizadores (tanto nacionais como internacionais) sem essa formação universitária, e que são excelentes realizadores. Portanto acho que é possível ser-se auto-didacta nesta área.

RDB Já existem alguns cursos de cinema noutras instituições. Quais as maiores diferenças para o Conservatório?

FA: Creio que as maiores diferenças são de nível económico. O Conservatório (sendo do Estado) é mais barato, mas as condições de trabalho prático muitas vezes não são as mais desejáveis. Pelo contrário, os cursos privados, por terem essa vertente financeira mais alta, acabam por ter mais dinheiro para investir no trabalho prático, o que é muito bom pois este lado é muito importante, e muitos alunos do Conservatório ressentem-se na sua saída da escola, aquando do choque com o mundo do trabalho. É muito difícil entrar no Conservatório e creio que a maior vantagem que se traz é a credibilidade da escola, sobretudo a nível internacional.

RDB: Conta-nos o teu percurso depois de sair do conservatório. Foi difícil encontrar trabalho?

FA: Por acaso não foi difícil, tive foi muita sorte. Durante o 2º ano de curso, tive a oportunidade de estagiar durante duas semanas no filme “Capitães de Abril” de Maria de Medeiros. Acabei por ficar o filme todo, como estagiário de realização. Mal acabei esse filme recebi um convite dum dos assistentes de realização para ser 3º Assistente de Realização num filme americano rodado parcialmente cá, “The Invisible Circus”, com a Cameron Diaz, e a coisa continuou a evoluir desde aí. Continuei a ser chamado regularmente para filmes e depois publicidades. É óbvio que para fazer alguma coisa como realizador ainda demorou um bocado. Isto foi em 1999, e só em 2003 consegui realizar a primeira curta. Mas esta vertente prática de trabalho como assistente de realização foi sem dúvida a mais importante do meu percurso. Foi no terreno que desmistifiquei muitas teorias e aprendi realmente a noção de filmar.

RDB: É difícil ser realizador em Portugal?

FA: Difícil é pouco… É mesmo muito difícil! Como é um país pequeno, o nosso cinema também é pequeno, logo o número de realizadores não pode ser muito grande. Principalmente para os que começam, é muito complicado impormo-nos. Nota-se o medo que os que já estão implantados sentem dos mais novos, quase que os “encorajam” a desistir, tal é a dificuldade que existe.

Mas o maior problema reside no ICAM, a instituição que atribui os subsídios (tantos aos filmes como aos festivais). E sem subsídio do ICAM é impossível fazer um filme em película e apoios privados não existem, porque a Lei do Mecenato não privilegia o cinema. E quando se faz filmes sem o selo do ICAM (que é o caso dos meus), muitas vezes são postos de lado nos festivais em detrimento dos que levam o selo. Portanto existe uma teia muito bem montada para impedir que os realizadores já implantados deixem de receber o seu subsídio.

RDB: Em 2003 criaste uma marca/produtora. Qual é o conceito? Em que tipo de projectos gostavam de trabalhar?

FA: A U-hu Faz Misso! foi criada por mim e pela designer Raquel Matos Carreiro. O conceito: “Cria, deita as sementes para que cresça tudo aquilo que sente o teu coração” U-hu Faz Misso! porquê? Faz misso, faz me qualquer de coisa inovadora, criativa, façam coisas, faz misso! O objectivo é trabalhar em todo o tipo de projectos relacionados com a imagem, desde longas e curtas-metragens a videoclips, passando pela publicidade e documentários, e todas as artes visuais.

RDB: “2º Direito” é a tua segunda curta. Conta-nos um pouco da história do filme.

FA: Houve vontade de fazer uma nova curta, os apoios do ICAM não vieram, decidi criar uma história que pudesse filmar em 2 dias e num décor que eu já tivesse. Surgiu o “2º DIREITO”, filmado no final de 2004, na minha própria casa e respectiva rua. Eram os locais que dispunha gratuitamente! Assim que o texto estava finalizado, iniciei os contactos para a equipa técnica e actores, tudo pessoas e amigos que fui conhecendo durante o meu percurso como assistente de realização, e juntamos [U-hu Faz Misso!] uma equipa de profissionais à séria, tudo técnicos experientes, solidários que trabalharam por amor à arte. Ao mesmo tempo conseguimos que nos fosse cedido material, tanto de imagem, como de som, electricidade e maquinaria, através de mais alguns benfeitores com amor à camisola. Nota especial para o apoio que nos foi dado por Valdjiu (dos Blasted Mechanism), que fez a edição e o inovador tratamento de imagem (correspondendo aos nossos anseios criativos), para além de ter emprestado uma música sua, especialmente para o projecto.

A história da curta em si gira à volta de um dealer, Simone (Peter Michael), que recebe na sua casa uma visita não muito desejada. Ferrão (Gonçalo Diniz) vem às “compras” mas é inexperiente nestas andanças. Com esta premissa inicia-se uma viagem onde a realidade se torna fantasia, e a fantasia realidade, e onde pelo meio surgem outros personagens, entre elas as interpretadas por Rui Unas e Bruno Bravo (agentes narcóticos), Nuria Madruga e Carla Vasconcelos (as freaks) e São José Correia (a mulher). O final reserva uma mensagem de alerta, entreaberta.

RDB: Para além de uma promotora, a U-hu Faz Misso também está ligada ao design. Conta-nos um pouco dessa “aventura”

FA: A co-criadora da marca, Raquel Matos Carreiro, é designer (trabalhou durante cinco anos na Brandia) e art director dos filmes da U-hu Faz Misso!, e  surgiu a ideia para a criação da ramificação, no decorrer da processo. O conceito é o mesmo, mas aplica-se ao design especificamente, sobretudo na criação de moda, espaços, design industrial e gráfico.

RDB: Para além dos filmes, também produzem videoclips. Vai ser esse o caminho a seguir ou estão mais interessados nas curtas e, quem sabe, longas-metragens?

FA: O nosso maior objectivo é fazer longas-metragens, mas tal não é possível ainda. Mas a imagem e a música estão cada vez indissociáveis, portanto queremos continuar a produzir e realizar videoclips, e todas as outras formas de expressar arte através da imagem.

RDB: Projectos para o futuro, a curto, médio e longo prazo?

FA: Neste momento estou a finalizar a montagem de um documentário sobre Luanda e os problemas dos seus habitantes. Ao mesmo tempo estamos a preparar a rodagem, no início do próximo ano, de uma nova curta-metragem. Temos igualmente agendado a realização de mais 3 videoclips. Parece que o contacto com a indústria musical veio para ficar… e ainda bem!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This