Da Nova Zelândia para o Mundo

Da Nova Zelândia para o Mundo

Será a Cultura feita em Portugal um bem verdadeiramente exportável? Lançamos o debate a partir de casos de sucesso e pedimos ajuda ao Luís Oliveira (Antena3) e Luís Costa (You Can't Win, Charlie Brown) na busca da resposta

Durante o ano de 2013 deu-se uma espécie de boom da música neozelandesa. Este boom não é caracterizado pela música tradicional Maori, mas sim pela emergência de música pop e indie rock de elevado valor comercial. Certamente que nomes como Kimbra, Lorde ou Unknown Mortal Orchestra não vos passaram ao lado, uma vez que tiveram bastante air-play nas rádios nacionais.

Não se pode, no entanto, deixar de pensar nas razões que levaram a que, repentinamente, a música neozelandesa passasse a ter tanta visibilidade.

Uma breve investigação, levou-nos à conclusão de que uma das razões foi o Governo ter decidido apostar fortemente na exportação de Cultura. Entre outras acções levadas a cabo com este fim salientamos duas: facilidades financeiras e de know-how para cineastas filmarem na região e fortes apoios para a exportação de música.

A primeira acção prende-se com o facto da Nova Zelândia ter desenvolvido toda uma máquina cinematográfica para andar a par com as suas paisagens avassaladoras; contratos são celebrados e os financiamentos avançam para que filmes sejam lá rodados – veja-se o caso de “Avatar”. Tal acção leva a que outros vejam o País como um destino de eleição para a indústria cinematográfica e o retorno do investimento está, em boa parte, reflectido num crescimento ímpar do turismo para a região.

A segunda acção, aquela com que iniciamos este ensaio, prende-se com a música; e para isso foi criado um projecto que pretende financiar e exportar música durante os próximos dez anos ao qual deram o nome de “Creating Heat – Tumata Kia Whita”. Este projecto assume-se como sendo uma espécie de kick-off para algo que se pretende com continuidade, já que tem como objectivo lançar um “grande nome” todos os anos.

O relatório inicial, elaborado por um painel de 17 peritos e ao qual chamaram “NZ Out There”, foi dividido em três fases distintas, sendo que a primeira pretende identificar os mercados mais abertos a novos artistas, a segunda permitir que estes e o seu management consigam promover os seus trabalhos de forma activa e, por último, financiar digressões de grandes dimensões (aqui salienta-se o nome do pilar “Breaking into the Market”).

Será que o mercado é assim tão teoricamente estável ao ponto de ser exequível?

Apesar de contar com um budget limitado, os responsáveis pelo projecto prevêem que este se torne rapidamente auto-sustentável. No entanto, outros especialistas referem que estes relatórios são utópicos já que nem sequer identificam os países de destino da exportação; mas quatro anos após o início do programa já se apontou um corpo – “NZ Music Industry Commission” – que funciona bem e que pode ser um impulsionador da iniciativa. Uma rápida pesquisa num qualquer motor de busca usando as palavras “NZ music” direcciona-nos para a página deste organismo.

Os artistas, na sua maioria, não apontam o sucesso da nova vaga de música neozelandesa a este conjunto de medidas, pois falta solidificação interna antes da exportação, mas obviamente que as enaltecem pois constituem um esforço por parte das entidades públicas. Lorde pode não identificar este organismo como impulsionador, mas Six60 é um nome a ter em conta, e já presente na segunda vaga de investimento deste projecto.

Casos de Sucesso: Islândia

Este caso, no entanto, não é isolado. A Islândia, no ano de 2006, também criou um organismo, composto por entidades públicas e outras da esfera privada, com o intuito de organizar e divulgar a cena cultural islandesa.

Assim, com a informação organizada e reunida, é mais fácil para todos (de investidores a produtores ou simples curiosos) investigarem e divulgarem a música nacional a nível internacional. E o facto é que este projecto tem dados concretos para apresentar: num ano (2012 para 2013) conseguiram dobrar o número de concertos dados no estrangeiro (de 700 para 1400).

Este organismo ajuda também os artistas e produtores a cumprirem prazos de inscrição para financiamentos e festivais. Björk e Sigur Rós não usaram este organismo, mas talvez os Of Monsters and Men lhes devam algum crédito.

E em Portugal?

Em Portugal foi assinado um protocolo com os mesmos trâmites dos casos apresentados (que podiam ser outros pois este modelo está espalhado pelo Mundo) nos finais de 2011. Mas este foi por água abaixo e considerado uma “nulidade jurídica” porque os fundadores ou co-fundadores eram entidades públicas e privadas. Então, e desde daí, não mais se avançou para desbloquear a situação. De referir apenas que a SPA (Sociedade Portuguesa de Autores) e a GDA (Gazeta dos Artistas – entidade de direito artístico) continuam a tentar obter fundos do Orçamento de Estado para avançar; a última conferência de imprensa da qual tivemos registo ocorreu em Julho do ano passado, e referem que está tudo pronto para avançar assim que houver luz verde estatal.

Questionámos duas pessoas que estão directamente ligadas ao mundo da música, de duas formas distintas, para obter a sua opinião sobre este tipo de apoios e se os mesmos resultam ou não. Por um lado temos Luís Costa, guitarrista dos You Can’t Win, Charlie Brown, e por outro Luís Oliveira, entre outras coisas radialista da Antena 3.

Luís Oliveira afirma que este é realmente um debate actual, e que há “vários estudos a apontar para um retorno efectivo do investimento de diferentes Estados na criação artística que é também alimentado pela capacidade de a exportar. A Cultura sempre foi vista como uma despesa. Talvez esteja na altura de rever o preconceito”. E que um organismo desta natureza será diferenciador ao aumentar a capacidade de promoção, ou seja, “na maneira como se cria uma estratégia de comunicação, a presença em certames internacionais ou a capacidade de potenciar uma rede nacional de contactos”.

Mas se formos buscar o exemplo de Lorde e a sua ascensão aos Grammys, Luís Oliveira refere outra realidade que é bastante pertinente. O facto de que, se olharmos para os “países com maior sucesso na internacionalização da sua música, vamos perceber que muitos relevam mais o papel da música na educação e na sociedade do que nós”.

Talvez seja este outro caminho a trilhar pela sociedade.

Luís Costa tem uma opinião similar, mas teve de recorrer a uma angariação de fundos para representar Portugal num evento em Austin, Texas (EUA) – o South by Southwest (SXSW) – que promove a música, filmes e interactividade cultural durante a Primavera ao vivo, mas que actua durante todo o ano como uma enorme plataforma de divulgação cultural através dos meios de comunicação social e redes sociais. As bandas são convidadas a participar no festival, que é uma montra gigante para o mundo através das suas várias plataformas, mas têm todas as despesas a seu cargo.

Luís conta-nos que “a ideia inicial era pedir apoio financeiro a várias organizações – como a SPA e a GDA – e entidades privadas – operadoras de telecomunicação, por exemplo – mas a resposta foi sempre a mesma: no passado tinham prestado esse tipo de apoios, mas na altura, devido à crise, não podiam fazê-lo”. Daí surgiu a necessidade do crowdfunding que felizmente correu bem. E a conclusão que retira é a de que “seria muito importante ter apoios oficiais para a internacionalização, porque já percebemos que, independentemente da qualidade da música, se não houver muito dinheiro para investir em promoção lá fora é impossível conquistar esses mercados”.

Ainda com a actual polémica dos quadros de Miró bem presente e com o constante recalque da palavra “crise”, este assunto não devia ser assunto. Mas a verdade é que tem de o ser, tal como a educação musical e outras que deviam existir e ser debatidas.

Qualquer forma de Cultura, para além de ser exportável, pode promover outras fontes de rendimento no seu próprio País. Na dança, nas artes plásticas ou na música, apenas para mencionar algumas áreas, temos nomes que dariam muitos frutos a nível internacional.

A Cultura deve ser também olhada como uma fonte de rendimento e não como o parente pobre da entidade nacional. Não será a Cultura a verdadeira entidade nacional?

Não pretendemos com este ensaio desenvolver um discurso demasiado idiossincrático, mas apenas agitar um pouco as mentes, colocá-las a pensar e lançar o debate.

Agradecemos ao Luís Costa e ao Luís Oliveira pela disponibilidade e respostas.



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