Nuno Sarafa

Nuno Sarafa

"Toco com muita gente, mas há uma coisa que eu não me canso de referir, eu não aceito tudo. Só toco com cenas que me identifique, porque gosto de pensar que tenho alguma coerência artística, não faço favores a ninguém"

Super-Heróis há muitos. Temos o Homem-Aranha que combate temíveis vilões e acaba sempre nos braços da namorada. O Zorro, que cavalgando no “Tornado”, empunhando uma espada e sob uma máscara e uma capa negra, consegue defender os fracos e oprimidos. E o Aníbal Sete Caras, que parece conseguir estar em todo lado à mesma hora e fazer muita coisa sem deixar de ser coerente. Nuno Sarafa está longe de ser um Super-Herói. Não que não tenha poderes para isso, simplesmente não tem tempo.

O baterista da Invicta anda com duas baquetas nas mãos desde os seis anos, mas é desde os catorze que persiste na labuta da música a sério. Mascarado das mais sarapintadas formas e feitios, nos mais variados projectos, hoje é o baterista de mais de cinco bandas, entre elas We Trust, X-Wife, Best Youth e Fat Freddy. Mais de cinco? Claro, o Nuno só não é Super-Herói porque não quer.

Como é que fazes para ensaiar?

Normalmente isto está tudo mais ou menos faseado e equilibrado. Como é a nível profissional, não fazemos aquela cena do ensaio como nas bandas que tinha quando era puto, em que tínhamos os dias regulares de ensaio todo o ano. Aqui não, só quando estamos a compor o disco é que trabalhamos mais. Temos que nos juntar para ver como as coisas funcionam, começar a escrever mais ou menos alguma coisa. Depois, a partir do momento em que as músicas começam a ganhar corpo, começamos a ter uma regularidade de praticamente todos os dias, três horas seguidinhas, tipo fábrica. A gente entra lá às nove, sai à meia-noite e é sempre a andar. Depois vamos gravar o disco e enquanto está a misturar e masterizar paramos de ter ensaios para desenjoar. Só quando temos tournées, aí um mês e meio antes, é que nos voltamos a juntar para “olear” tudo. No fim de três, quatro, cinco concertos, em que está tudo no ponto, nunca mais ensaiamos. Por exemplo, eu já não ensaio com os X-Wife para aí há um ano.

Então não podes gravar um disco com os X-Wife e os We Trust ao mesmo tempo?

Poder posso. Por acaso têm sido mais ou menos desfasados. Por exemplo, no caso de We Trust e Best Youth foi basicamente em cima um do outro. Foi tipo, numa semana gravei Best Youth e na seguinte já estava no estúdio para começar a gravar We Trust.

Neste caso específico, eu já sabia desde o momento em que o Tentugal me convidou para os We Trust que ia criar uma banda de suporte ao seu projecto. Enquanto que nos Best Youth me convidaram para gravar só por gravar. O Ed quis que fosse eu a gravar e fizemos aquilo numa tarde. Não era suposto eu fazer parte da banda, mas eles devem ter curtido tanto que passadas duas semanas estavam-me a ligar para me juntar a eles. Ele aí tinha a ideia de constituir uma banda mesmo, com baterista, baixista, ele nos teclados ou na guitarra e a Catarina Salinas na voz. Esta era a ideia inicial, só que quando saiu a primeira versão do EP a cena correu bem e tiveram vários convites para tocar. E como não havia tempo para formar uma banda, eles foram os dois. Tinham uma cena montada lá com os bits, teclados e guitarra, ela a cantar e controlaram a cena. Era uma coisa intimista e puderam ir fazendo sem ter o stress da banda e tal. Quando começaram a ter os convites para os concertos mais importantes aí eles voltaram a falar comigo e a ideia voltou a ser formar uma banda. Mas primeiro fomos os três experimentar. Logo no primeiro ensaio o Ed disse que não queria banda nenhuma. Comentou: “Vamos ser só nós o três”. Ele segurava a parte do grave e das harmonias e eu dava a parte rítmica. Complementamo-nos bem os três e continua a ser uma estrutura simples, que é bastante importante hoje em dia. Há ali dois tipos de formato a explorar.

E conciliar isto tudo?

Nem sempre é fácil porque muitas vezes aparecem datas umas em cima das outras. Há dias em que tenho que fazer dois concertos, já houve dias em que tive que fazer três. Também já tive a sorte de ter várias vezes no mesmo festival duas bandas.

Vai acontecer isso este ano?

Vai acontecer agora do Alive, aconteceu no Primavera e na semana passada no São Jorge, mas as coisas vão-se conciliando.

E qual é o facto determinante para conseguires ter tantas bandas?

Eu vou trabalhando mais com X-Wife, Best Youth e We Trust. Este núcleo de pessoal é todo amigo. Quando fui tocar para os X-Wife conheci o Ed dos Best Youth num videoclip e o André Tentugal a mesma coisa. Ou seja, há a facilidade de conciliação porque eles compreendem-se uns aos outros e curtem-me assim como eu curto tocar com eles também. Toco com muita gente, mas há uma coisa que eu não me canso de referir, eu não aceito tudo. Só toco com cenas que me identifique, porque gosto de pensar que tenho alguma coerência artística, não faço favores a ninguém.

Isso é reflexo da tua personalidade?

Sim, eu gosto mesmo de tocar e não consigo estar parado. Tenho sempre o meu dia, desde de manhã até à noite com cenas para fazer. Gosto de fazer assim, apesar de a minha mãe stressar muito comigo porque diz que sou muito magro por andar sempre de um lado para o outro (risos).

E o que achas do futuro da música portuguesa?

O futuro da música portuguesa não pertence à música portuguesa. Está bem entregue em termos de executantes, em termos de intérpretes, de pensadores da música. Os músicos cada vez são melhores. A formação musical em Portugal melhorou, não nas bases como na França ou na Suécia, mas melhorou. Por exemplo, no sítio onde vivo somos quase cem mil e só fiquei eu e o João André (baixista dos We Trust). Toda a gente desistiu e foi trabalhar para a ZON. Hoje em dia os miúdos mais novos têm outro gosto pela música e têm uma maneira de ver as coisas diferente. Não sei o que vai acontecer quando chegarem à minha idade e tiverem a responsabilidade de pagar contas. Uma coisa eu sei, se trabalhares numa mercearia durante o dia e fores músico à noite, só como hobby, não estás formar-te como bom músico, porque não consegues ser muito bom se só dedicares duas horas por dia à música.

Não queres dizer com isso que hoje em dia um músico tem que aceitar tudo o que dê bom dinheiro…

Não quero dizer com isto que um gajo se venda. Eu acho que qualquer trabalho, qualquer expressão artística, tem que ser remunerada. Ainda há muito a ideia em Portugal que o pessoal da música tem que ir de borla para se promover. Acho um aproveitamento hipócrita porque não é assim que os músicos vão crescer. Se continuarem a fazer só os showcases nas Fnac’s e assim, isso não interessa. É fixe mas não pode ser só isso. É preciso convencer as marcas que investem na música que também há o lado de lá. Se não conseguires, através daquilo que fazes e gostas, sobreviver, vais ter que ir trabalhar para outro sítio e isso vai-se reflectir na tua arte.

Espero sinceramente que este País nos deixe tocar, nos deixe trabalhar. Temos muitas gerações com grande talento, e isso reflecte-se no carinho que todos têm recebido. Hoje em dia já não há só uma rádio a passar boa música portuguesa. As pessoas já conhecem mais bandas nacionais em comparação de quando eu tinha vinte anos, em que era Xutos e pouco mais. Hoje em dia metem as bandas portuguesas a fazer abertura de palco às seis da tarde nos festivais de Verão, mas já não é mau porque antigamente isso nem sequer acontecia.

Mas vão para equilibrar orçamentos?

Vão por vários motivos. Não quero estar a ser polémico, mas há bandas que vão pelo lobby, para tapar buracos, outras que até valem a pena, há todas as justificações. Quero pensar que é pelo valor do trabalho das bandas. Agora, eu sei que nem sempre é assim.

E achas que isso é só na música?

Claro que não. A indústria funciona assim em todo o lado e é preciso saber viver com isso. Espero é que o País melhore de forma a que nós possamos viver fazendo aquilo que gostamos mesmo. Expressando a nossa arte, sejamos músicos, pintores ou cineastas. Acho que isto é o justo. Os filtros são feitos pelo público, pela própria indústria, pela mentalidade do povo.

Achas que é por esses filtros que “A tua cara não me é estranha” é líder de audiências?

É complicado. Porque é que o Tony Carreira enche três vezes o Pavilhão Atlântico em três dias seguidos? Tu perguntas aí e ninguém gosta mas está sempre cheio e o gajo vende os discos todos que vende. Mas eu não acho isso mal. Há uma música muito antiga dos Peste e Sida que diz: “Dinheiro há, está é mal distribuído. Uns têm muito e os outros nada” e é a mesma coisa. As oportunidades existem, uns têm muitas, outros não têm nenhumas.

E por falar em pagar contas. Tiraste o curso de Jornalismo…

Eu desde miúdo tinha dois planos. Tenho família ligada à comunicação social e à literatura e sempre fui influenciado pela parte das letras e da música. Por isso desde puto vivi estes dois mundos. Quando chegou a altura de decidir o que ia estudar optei pelo jornalismo. Gostei muito, era mesmo aquilo que queria fazer, mas sabia que um dia a música ia tomar conta do jornalismo e foi o que aconteceu. Trabalhei até 2004, 2005, como jornalista profissional. Trabalhei no Primeiro de Janeiro, fiz uns programas para a RTP, rádio, etc. Sempre com a música, até que na balança começou a pesar mais e optei por deixar o jornalismo.

E foram os X-Wife os principais responsáveis? Foi com eles que começaste a crescer mais?

Não. Eu senti um crescimento muito grande com os Fat Freddy. Nós tínhamos uma estrutura pequena e conseguíamos fazer 120, 130 concertos por ano.

E o gajo partia guitarras em todos os concertos como no 20 XX Vinte?

Depende (risos). Ali aquilo estava a correr mal. Já fiz muitos concertos naqueles moldes, mas daquela vez o sistema de escuta era diferente e foi tipo, “siga, toquem para aí”. Eu não percebi absolutamente nada do que se passou e ele como forma de protesto atirou a guitarra ao ar. Mas com os Fat Freddy tenho as maiores histórias do mundo, não saíamos daqui hoje.

Com eles senti mesmo um sentimento muito grande. Houve uma altura em que demos cento e vinte e tal concertos em nove meses, tudo marcado por nós. Claro que íamos tanto ao tasco mais reles até ao auditório mais fixe ou ao festival também. Sudoestes e não sei quê. Conseguíamos com uma cena meia, meia não, com uma cena psicadélica e meio esquizofrénica, super underground e instrumental, furar para muitos sítios. Com essa quantidade absurda de concertos é óbvio que ganhei estaleca.

Foi aí o salto para os X-Wife?

Sim, foi aí que me foram buscar em 2006. Senti que cresci muito em termos de experiência ao vivo com os Fat Freddy, agora onde eu cresci como músico e onde estive mais exposto foi com os X-Wife obviamente. Foi com eles que toquei nos Coliseus, em todos os Festivais de Verão, fiz tournées nos EUA, estamos sempre a ir a Espanha, França… Cresci muito com os Fat Freddy no sentido de me sentir preparado para enfrentar cenas a sério e foi por isso que com os X-Wife não tremi.

E os outros projectos? Foi a partir daí?

Sim, foi através deles que surgiram os convites para tocar com os We Trust, Best Youth, Praça, com montes de cenas que me vão entretanto convidando para fazer, com discos para gravar que eu nem sequer comento.

E para o teu futuro?

É trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Achas que se o Pinto da Costa fosse Presidente da Federação tínhamos ido à final?

Se o Pinto da Costa fosse presidente éramos campeões do mundo (risos).

Fotografia de Bruno Carreira



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