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O ano do pensamento mágico

Um testemunho de vida e de amor.

Tudo começa uma noite, a penúltima do ano 2003, quando Joan e o seu marido John regressam a casa depois de visitarem a filha, Quintana, que se encontra internada no hospital com uma infecção generalizada e poucas hipóteses de sobreviver. Os dois instalam-se, está frio na rua, acendem a lareira, conversam e num instante imperceptível, no silêncio, John cai morto vítima de um ataque cardíaco.

Joan, interpretada pela actriz Eunice Muñoz, inicia, numa poltrona e com uma mesinha de apoio, uma estória que será toda a sua relação com a morte, com o desespero, com a fé e com a crença, mas principalmente com a força e com o amor das grandes relações, num processo emocional de confronto directo com a perda, com a dor e com as memórias.

Nesta viagem profunda e tão bem conduzida pela actriz, somos levados a reflectir sobre toda aquela estória de vida, tão presente ali naquela voz e naquelas lágrimas, no entanto, com o inquieto receio de que ela se transforme na nossa estória também e que no fim aquelas lágrimas sejam nossas:

“Um dia isto também vos pode acontecer, é uma questão de tempo”.

No cenário, há um emaranhado de espinhos em forma de teia, que ilustram a densidade e a amargura da dor e das memórias, que à medida que vamos chegando a um fim, narrativo, vão desaparecendo, como se a dor também ela desaparecesse com o tempo.

O pensamento mágico é o pensamento do “se” é o pensamento da probabilidade e do acaso: “Se o John voltar a Quintana viverá e iremos a Paris”.

É o pensamento que a personagem não quer deixar morrer e que lhe dá vida ao ponto de desenvolver uma consciência clínica que a torna apta a diagnosticar e a acompanhar o estado da filha, numa forma de aproximação e de entendimento que a faz persistir e acreditar que tudo ficará bem.

Este texto que é um testemunho de vida e de amor que nos dá uma imagem crua da dor, mas também grandes momentos de poesia.

“A vida é como a Geologia. Há blocos de gelo na água, há correntes de água, há a passagem do tempo.”

“Há que transformar os mortos em fotografia e deixá-los morrer.”

“O ano do pensamento mágico”, de Joan Didion.
Interpretação: Eunice Muñoz
Encenação: Diogo Infante
Teatro Nacional D. Maria II, Sala Garrett.
De 12 de Novembro a 20 de Dezembro de 2009.



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