“O da Joana” | Valério Romão

“O da Joana” | Valério Romão

Entre a insanidade de "Carrie" e a violência psicológica à moda de Tarantino

Um romance e um conto bastaram para que, em menos de um ano, Valério Romão fosse apontado como o escritor da incomodidade e uma das mais sólidas promessas literárias a escrever na língua de Camões e seus pares. Em “Autismo”, primeiro livro de uma trilogia intitulada Paternidades Falhadas, contava-se a história de um casal a partir da descoberta do autismo do filho, e do combate desigual – contra o mundo e entre si – face a uma doença dada a silêncios incómodos; já em “À medida que fomos recuperando a mãe”, conto integrante do primeiro número da Granta portuguesa, assistiu-se à instalação da insanidade numa família após a morte da figura matriarcal.

O da Joana” (Abysmo, 2013), segundo livro da trilogia Paternidades Falhadas, debruça-se agora sobre uma outra tragédia familiar: o parto de um feto morto e a destruição de um sonho. Joana é a protagonista desta história, entre o acto de narração e o papel de paciente, uma mulher que em sonhos sonha com amamentar um bebé que não o seu, ainda por nascer; e que, oito anos antes de estar grávida, já havia mobilado o quarto da criança, pintando-o de um branco neutro por não lhe conseguir adivinhar o sexo.

Valério Romão promove neste livro uma descida ao recanto do cérebro onde nasce a loucura humana, regressando ao carrossel vertiginoso de um hospital público e às atribulações da vida de um médico (ou enfermeiro). Mesmo sem contar com o twist assombroso do primeiro livro – um valente murro no estômago – Valério Romão escreve à velocidade de um F1 e termina de forma sanguinária este segundo tomo, numa cena que andará entre a insanidade de “Carrie” e a violência psicológica à moda de Tarantino, tornando-o de certa forma um adepto e criador do “gore” literário. Pode haver o perigo de o autor ficar preso a uma temática centrada no drama familiar, mas por enquanto a sua escrita é uma vertigem muito bem-vinda. Que se encerre agora a Paternidade para ver o que o futuro de Valério Romão nos reserva.



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