“O Guardião das Causas Perdidas” de Jussi Adler-Olsen

“O Guardião das Causas Perdidas” de Jussi Adler-Olsen

Impiedosa sede de vingança

O policial é um género que, por vezes, peca por uma subserviência por parte de quem o idealiza e passa o esboço dessa criação para o ato da escrita face ao já existente. Reza a história da literatura que foi Edgar Allan Poe que fez nascer este tipo de abordagem criativa e desde “Os Crimes da Rua Morgue” foram muitos os que ousaram colocar o mistério e a arte de resolver os mais diversos delitos na forma de livro.

Em alguns casos, os personagens criados sobrepuseram-se face aos seus criadores. Hercule Poirot, Sam Spade, Sherlock Holmes, Javier Falcon, Kurt Wallander ou Mikael Blomkvist, entre muitos, muitos outros, tornaram-se referências maiores de obras que encontraram acérrimos seguidores por todo o mundo.

Por falar em Blomkvist, desde a morte precoce do sueco Stieg Larsson que as editoras anunciam um novo nome que faça, de certa forma, renascer o universo narrativo do autor do estrondoso sucesso que foi a trilogia Millennium. As promessas são muitas mas os resultados ficam (sempre) aquém.

Ainda assim, são muitos os autores que surpreendem os fãs dos mistérios policiais em forma de livro. Um deles é o dinamarquês Jussi Adler-Olsen que antes de se dedicar à escrita foi editor de inúmeras publicações. Hoje, com mais de 10 milhões de livros vendidos em 34 países, Adler-Olsen chega finalmente a Portugal através de “O Guardião das Causas Perdidas” (Editorial Presença, 2014).

No centro da ação está o ensimesmado inspetor Carl Morck, detetive da Divisão de Homicídios de Copenhaga, recentemente vítima de uma emboscada que vitimou dois dos seus mais queridos camaradas. Na ressaca desse caso, Morck vê-se obrigado a liderar uma nova secção dentro do sistema policial local. O Departamento Q tem a missão de rever casos arquivados e na berlinda surge o misterioso desaparecimento de Merete Lynggaard, uma muito atraente deputada que desapareceu há mais de cinco anos tendo sido vista pela última vez em uma travessia marítima.

A hipótese de suicídio é apontada como a mais provável causa do desaparecimento de Merete mas o corpo nunca apareceu. Todos pensam que a deputada está morta mas Carl Morck, na companhia do seu peculiar braço-direito, o sírio Assad, vai provar que o reacender do caso não é uma perda de tempo e dá início a uma fantástica investigação policial que revela contornos inesperados e sinistros.

A narrativa flui de uma forma natural e agarra, definitivamente, o leitor. A intriga vai crescendo à medida que vamos conhecendo melhor os acontecimentos e a própria personagem de Carl Morck que tem um profundo carisma solitário e persistente, e luta contra o poder dogmático e um certo sentido de desleixo e incompetência de uma instituição que tem nas figuras de Bak Borge ou Lars Bjorn o exemplo máximo de um servilismo que transforma pessoas em meras marionetas do sistema.

Inconformado, Morck agarra-se a este caso como uma espécie de catarse existencial e o Departamento Q afirma-se como algo mais do que uma qualquer divisão escondida na cave de uma instituição policial.

Jussi Adler-Olssen constrói um enredo que aposta em particulares doses de humor (negro) e tem na personagem Assad um verdadeira lufada de ar fresco. Comparativamente com o universo do já referido Stieg Larsson, Adler-Olssen opta por uma crueldade menos declarada e o jogo que faz entre o presente e o passado possibilita ao leitor juntar as peças que vão tornando-se cada vez mais evidentes e encaixadas à medida que o livro evolui sendo o seu final verdadeiramente excitante.

Tal como em outros livros de autores nórdicos, a questão social (e política) é bem explorada em várias vertentes e não é inocente a presença de um personagem como Assad, um muçulmano que é em si mesmo um mistério dentro do próprio complexo misterioso ou a referência à comunicação social enquanto um poder que mistura o dever de informar e a arte de manipular a opinião pública.

Vivamente aconselhado a todos os que gostam de um bom romance policial, “O Guardião das Causas Perdidas”, que foi recentemente alvo de uma adaptação cinematográfica, vai, de certeza, figurar no mapa das obras favoritas dos fãs da ficção escandinava e resta saber se a Editorial Presença vai fazer-nos chegar mais tomos da série Departamento Q que assentariam que nem uma luva na coleção O Fio da Navalha.



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