“Quando o cuco chama” | Robert Galbraith

“Quando o cuco chama” | Robert Galbraith

Um policial à séria sem recurso a feitiçaria

Quando, por vezes, alguns escritores procuram explorar territórios literários longe do seu normal habitat criativo, fica no ar algum sentimento de reserva sobre a capacidade de superação do autor enquanto criador de novas atmosferas.

Se, em 2012, “Uma morte súbita” significou a primeira aventura de J.K. Rowling no reino adulto dos livros com uma aventura policial bem aceite pela crítica, a eterna criadora de Harry Potter resolveu voltar à carga mas, desta vez, através de um pseudónimo rapidamente descoberto.

Sob a máscara de Robert Galbraith, Rowling tentou, em vão e através de um certo anonimato, afastar-se do “preconceito Harry Potter”, mas conseguiu construir um romance noir q.b. que, alicerçado num interessante humor, agarra o leitor gradualmente, sendo alguns dos seus maiores trunfos o fantástico detetive Cormoran Strike e um enredo meticuloso e muitíssimo bem desenhado.

Quando o cuco chama” (Editorial Presença, 2013) dá-nos a conhecer um dos momentos mais atribulados da vida de Cormoran Strike, um investigador privado e ex-combatente das forças britânicas no Afeganistão que sentiu na pele a dureza desse conflito, ao ser vítima de um acidente que lhe valeu a perda de um dos pés. Para além das mazelas físicas que o atormentam amiúde, Strike luta pela sobrevivência de um negócio à beira do caos, sentimento extensível à sua vida privada depois do fim da sua relação com Charlotte, sua ex-noiva.

Mergulhado numa profunda depressão sentimental e financeira, Cormoran é contactado por John Bristow, irmão adotivo da entretanto falecida supermodelo internacional Lula Landry, de forma a reabrir um caso encerrado pelas autoridades policias que tinham “logicamente” encarado a morte de Landry como suicídio.

Descrente face ao desfecho do caso da morte de sua irmã, Bristow, depois de aconselhado por alguém que conhecia o trajeto profissional de Strike, contacta o detetive acenando-lhe com uma generosa quantia se o veterano de guerra conseguir descobrir o que realmente se passou com a jovem Lula. Aquilo que muitos acreditavam ser um caso resolvido leva Cormoran a percorrer uma longa e estranha viagem sobre a vida da supermodelo, bem como daqueles que a acompanhavam de perto.

Na companhia de Robin Ellacott, a sua atual secretária temporária chegada ao convívio do investigador privado por um erro de casting da empresa de recrutamento, Strike acredita que esta demanda pode ser a salvação do seu negócio mas, à medida que se embrenha no caso sente que, afinal, nem tudo o que perecia lógico o é afinal, e o mundo que envolvia a jovem modelo é sinónimo de um universo sombrio cujo preço da sua exploração pode ser pago com a própria vida.

Será que alguém queria ver Lula morta? À medida que percorremos as páginas de “Quando o cuco chama” maior se torna a lista de potenciais assassinos. Será que Guy Some, o designer de moda que tinha Lula como musa teria algo a ganhar com o desaparecimento da modelo? Poderá algum dos membros do inenarrável e desavindo casal Bestigui ser responsável pela morte da vizinha? Pode a ambição de um motorista com o desejo do estrelado levar alguém a tirar a vida de outrem? Será que um membro da própria família Landry pode ter arquitetado a morte de Lula? Ou terá sido Evan Duffield, ex-namorado da modelo, o grande responsável por tal desfecho? Qual o verdadeiro relacionamento entre Lula e o rapper Deeby Macc? As perguntas crescem, as respostas são arrancadas a ferros…

Através de um uma narrativa envolvente, sabiamente concentrada do atraente cenário de uma Londres revestida de várias camadas de invernia, Rowling, ou Galbraith, leva o leitor a palmilhar as ruas mais elitistas de Mayfair passando pelos decrépitos bares do East End ou pelo rebuliço noturno do Soho, na busca de pistas que possam colocar Strike no caminho certo para desvendar o triste fim de Lula Landry.

Sem nunca se desviar do seu objetivo, a criadora de Harry Potter escreve uma (boa) estória que precisa de uma certa dedicação inicial por parte do leitor que, aos poucos, se deixa levar pela cadência algo meticulosa e lenta da investigação de Cormoran, vertiginosamente assente no mais pequeno ou aparentemente desprezível pormenor. Rowling volta a apostar na excelente introdução progressiva dos muitos e ricos personagens secundários que podem conter a solução desta terrível charada.

Ainda que se possa, eventualmente, achar a narrativa algo extensa, é evidente a empatia que a escritora consegue arrancar a quem ler este muito recomendado “Quando o cuco chama”, um misterioso romance que exige a máxima atenção e dedicação ao leitor que, por certo, desejará ler mais sobre a dupla Strike e Robin.



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