Julia_Navarro ┬® J. Manuel Fernandez

“O menino que perdeu a guerra” de Julia Navarro

Para que nunca esqueçamos as lições da História

A conjuntura mundial vive, em termos políticos, momentos que implicam uma profunda reflexão sobre as razões que têm permitido o crescimento de movimentos relacionados com a extrema-direita e que ameaçam resgatar seriamente o poder de muitos países que aprendemos a conhecer como democráticos e livres do extremismo, alguns deles ainda com muitas feridas socioemocionais abertas devido aos que se passou durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente no que toca à ideologia Nacional Socialista que parece ter renascido das cinzas na última década.

No entanto, felizmente, a literatura tem sido um veículo cultural sempre atento a esta realidade recente e são muitos os escritores que, atentamente, nos lembram o terror que significou o Holocausto. O mais recente livro da espanhola Julia Navarro, O menino que perdeu a guerra (Bertrand Editora, 2025), é um desses exemplos, sendo uma poderosa narrativa que lembra o elevado preço que a Humanidade pagou face a ideologias totalitárias, associada à perda da inocência que significa viver dias de guerra.

Neste belo romance, a autora de livros como A irmandade do santo sudário, A bíblia de barro ou O sangue dos inocentes, relata a história de Pablo, um menino de cinco anos que é forçado a deixar a Espanha após a Guerra Civil para viver na crescente e utópica União Soviética. O grande responsável por essa decisão é o seu pai, fervoroso seguidor da ideologia comunista, ainda que a contragosto de Clotilde, sua mulher, preocupada por tudo o que poderia significar a viagem para longe da sua terra natal. Apesar dessa discórdia familiar, a motivação de seu pai é que Pablo não seja criado numa Espanha que emergiu da vitória nacionalista na Guerra Civil, mas que seja educado e criado sob os ideais da «Pátria do Proletariado».

Dividindo o palco entre Espanha e União Soviética, ainda que a história se desenrole mais em território espanhol, especialmente Madrid, O menino que perdeu a Guerra revela como os seus protagonistas vão perceber que Moscovo está longe de ser o paraíso que muitos acreditam, sendo antes o berço de uma ditadura terrível e temível, na qual as liberdades, os direitos e as opiniões face à força política vigente são duramente perseguidos.

Navarro narra e descreve de forma crua, ao longo de mais de 500 páginas centradas entre o final da década de 1930 e o início da de 1950, as dificuldades sofridas pelos habitantes do país soviético, onde a traição, a denúncia e a cobardia são temas e ações enraizadas nas almas dos cidadãos tomados pelo medo de represálias que podem sofrer. Além disso, são muitas as passagens que fazem como que uma comparação entre o devaneio do poder político franquista e o que emergiu após a Revolução Russa, com os personagens a expressar duras críticas ao(s) regime(s), testemunhando, no caso, a dura realidade do que foi viver a passagem de uma tirania alimentada pelo poder exacerbado do Czar para uma ditadura alicerçada nos ideais comunistas.

Através da habitual escrita hábil, direta, emotiva, envolvente e sempre elegante de Julia Navarro, o leitor é confrontado com opressão política, censura, medo e resistência, enquanto se expia a identidade e a memória como campos de batalha pessoais, com personagens que vivem entre o trauma e a tentativa de reconstrução e reencontro, que, no caso de Pablo significa crescer entre as lembranças cada vez mais ténues da sua mãe, que, inconformada, tenta resgatar o seu filho das garras da distância, e o carinho de Anya que lhe transmite o seu amor pelas artes, no caso a música e a literatura, e a sua busca pela liberdade.

Em entrevistas recentes sobre este livro, que Julia Navarro confessou precisar «da vida toda para o escrever», pois nele estão gravadas algumas das suas «maiores preocupações e obsessões», a autora refere que se trata de uma obra «que nos lembra que as crianças são as primeiras vítimas silenciosas dos conflitos ideológicos», sublinhando também que um dos seus objetivos foi «mostrar que, tanto no franquismo como no estalinismo, as pessoas foram descartadas em nome de ideias que acabaram por se afastar da humanidade».

Como uma carta aberta para que nunca esqueçamos do que podemos aprender com os erros da História, em O menino que perdeu a Guerra conseguimos perceber a alternância entre visões ideológicas e geografias, sem nunca se perder o foco no drama humano e nas contradições dos regimes que marcaram o século XX, motivando uma reflexão profunda sobre como as grandes narrativas políticas se infiltram nas nossas vidas, e que a busca da liberdade, tendo a cultura como aliada, só será bem-sucedida entre os que têm a coragem de a perseguir, desafiando o esquecimento, com os olhos postos no presente e futuro.



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