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O Movimento Alternativo Rock já é uma editora!

Segunda parte da conversa com os três membros fundadores do M.A.R.

A partir de hoje, 1 de Fevereiro de 2012, o Movimento Alternativo Rock é uma editora e esta é a segunda parte de uma conversa sobre o passado, presente e futuro do M.A.R.. A primeira parte, publicada o mês passado, pode ser lida aqui.

João Morgado – Lisboa é onde se passa tudo, para o bem e para o mal.

Paulo Candeias – Lisboa ou Porto.

JM – Lisboa.

PC – Eu acho que [pensas] isso porque vivemos aqui…

JM – Não, não. Lisboa! Eu estou no centro, tenho a perspectiva dos dois lados.

PC – Acho que os dois lados têm o seu próprio mundo.

JM – Têm, mas, na minha opinião, o Porto é um bocado mais bairrista, até mesmo em termos de bandas. Tem bandas muito boas, mas são muito…

PC – Sabes o que me dá a entender? Que eles lá em cima conseguem viver bem sem conhecer as bandas de cá de baixo.

Bruno Broa – E isso é mau?

PC – Nós cá também somos um bocadinho assim. Não tanto. Lá são um bocado mais extremistas. Começa no futebol e…

BB – Nós queremos é chegar ao Porto, tocar à [campainha da] porta, entrar, tocar coisas e dizer assim: Amigos, vimos de Lisboa. “Mi casa es tu casa”. Que língua é que tu falas? Português. Ah, também eu! Anda cá abaixo.

Acham que as bandas do Porto oferecem resistência a vir a Lisboa?

BB – Não são as bandas do Porto.

PC – Não, é o próprio público.

JM – As próprias bandas… não tens muitas bandas do Porto a tentar sair dali.

PC – Aí concordo. Estão lá em cima, no mundo deles, tem a sua variedade, chega-lhes, como público. Obviamente que conhecem bandas de Lisboa e do resto do país [mas] têm ali o seu cantinho, estão contentes e bem dispostos. Conhecem algumas bandas de Lisboa…

BB – A minha opinião relativamente às bandas do Porto é que elas lidam [bem] com o sítio onde estão e com o sítio onde estão para tocar…

PC – É normal. Nós aqui também lidamos com o nosso próprio sítio.

BB – No sítio onde estão para tocar, a oferta é limitada ao número da população. E o que a maior parte das bandas do Porto diz é: Eu não toco muitas vezes porque não quero gastar o público. Então tens uma banda do Porto a tocar com menos frequência que uma banda de Lisboa. A banda de Lisboa se se aplicar e procurar, mesmo em Lisboa, consegue tocar uma ou duas vezes por mês.

PC – Por meia dúzia de tostões?

BB – Não interessa.

PC – Isso também é uma diferença entre a zona de cima e a zona de baixo.

BB – Não interessa. O que estou a dizer é que [as bandas do] Porto fazem com que haja uma espécie de circuito interno, juntamente com as salas de espectáculo. Existe um acordo não assinado entre as partes, ao nível da conduta. Aquilo que os Blá [Blá Blá] estão sempre a querer fazer é sair do Porto para vir tocar a Lisboa. Problema? Não é falta de vontade. Na minha opinião, desculpa discordar [Paulo], não é porque estão bem lá em cima, é porque hoje em dia é caro. Os Blá Blá Blá, para virem tocar ao Alentejo, em custos, fica quase em 400 euros. É caro. Essa é que é a grande razão. Não é [por] estarem bem…

PC – O Porto, assim como Lisboa, tem “booms” de bandas, tem montes de bandas e de muita qualidade e isso para o público que lá vive…

BB – O que o MAR está a tentar fazer é criar parcerias com entidades como a Fender que tem ligações com o Tertúlia Castelense e com o Hard Club. Ou seja, o que estamos a fazer é finalmente chegar ao Porto, fazer essa parceria e criar uma ponte. Ainda hoje falava sobre isso. A margem Sul e Lisboa são duas coisas que se respeitam uma à outra. Ou seja, vamos falar no sentido pictórico. A margem Sul admira a margem de Lisboa porque tem prédios e é bonita, e a margem de Lisboa admira a margem Sul porque é verde e espera que nada daquilo mude. O que importa para que as duas sejam unas? Não é secar o rio e juntar – seria difícil. A junção é a ponte, o truque é a ponte. E quando uma ponte já não chega, porque está saturada, Lisboa e a margem Sul optaram por ter mais uma ponte.

Passando a analogia, o que Lisboa, Porto, Algarve, Alentejo e interior de Portugal precisam é de pontes. Então precisa que entidades como o MAR, como a Amor Fúria, como a FlorCaveira, como a Chifre, como a Portugal Underground, como a Santos da Casa e como a Rua de Baixo criem pontes. E essas pontes é que vão facilitar o trânsito. Porque o trânsito está a ser dificultado pelas situações regulares da vida. O pessoal do interior pensa que o de Lisboa não quer ir lá tocar, porque simplesmente é caro. Então nós temos que criar condições para que deixe de ser caro, entre nós – somos os intervenientes. Olha, a Rua de Baixo, a Central Musical, o MAR – juntamos tudo e dizemos assim: “Uma banda do MAR, uma banda da Amor Fúria, uma banda da FlorCaveira e uma banda da Chifre. Fazemos um mini festival, com apoios de todos. Todos conhecem alguém, todos pedem ajuda a alguém e assim, no meio do nada, de uma conversa à mesa, arranjas um festival altamente comparticipado por todos e a gerar receitas [para] todos. Assim é que se fazem as pontes.

Estarão todos interessados em fazê-lo?

BB – Quem não estiver interessado…

JM – Mas isso não impede que uma pessoa se atire de cabeça, para tentar fazer com que as coisas aconteçam. Quem não estiver interessado é porque tem a sua própria agenda.

PC – Pois, é essa agenda que, por vezes, estraga um bocadinho a festa.

O futuro. Não é fácil dizer o que vai acontecer, mas por onde vocês acham que vai passar? Pela Internet?

PC – Não sei se a Internet não vai começar a saturar um bocado…

JM – Eu não consigo ter perspectivas porque a Idade da Pedra… quando foi inventada a roda, essa foi “a invenção” durante sei lá quantos séculos. Depois veio a revolução industrial. Começámos a ter [entre as invenções] ciclos cada vez mais curtos. Hoje em dia, se virmos como era a vida há dez anos atrás, e se virmos como é hoje, é completamente diferente. A Internet hoje em dia é uma coisa corriqueira, comum. Se calhar, daqui a cinco anos, a Internet já é um meio ultrapassado, já há outra coisa. Hoje em dia, a Internet é o maior meio para divulgar as coisas. É o que me parece. Mas também se vê cada vez mais, ao nível da música, que o vinil está a crescer outra vez.

PC – Está a apanhar esta onda de saudosismo.

JM – Mas é um saudosismo de há 30 anos atrás.

PC – Apareceu, desapareceu e agora está a voltar. É como o Carlos Paião – era bom nos anos 80 e agora voltou outra vez.

BB – A Alma Fábrica, por exemplo, disse-te [anteriormente], a venda das K7 para descarregar em formato MP3 e mais um inédito… Aquilo foi muita fixe de fazer. Mas até me lembrar como se fazia, o REC e o Play, mais a caneta…

JM – Acho esse um bom meio. Não é tão imediato e fácil ir buscar as coisas.

BB – Fomos a geração que acompanhou a evolução do analógico para o digital. A geração que veio a seguir é digital.

Vão tornar-se uma editora. Hoje em dia vamos à Pitchfork e tenho os álbuns à borla para audição. Como é que vocês pensam contornar isso, o streaming gratuito?

BB – O disco mudou, o conceito de disco mudou. Primeiro, no conteúdo, não sonoro, mas no conteúdo da oferta. Tu vais comprar um disco dos Pearl Jam e está lá tudo, só falta teres preservativos usados dos gajos. (Risos).

PC – Esse é um caminho a seguir e já tenho os meus guardados. (Risos)

BB – O disco em si, já sabemos facilmente como sacar. Tu só compras um disco em determinadas condições… quando realmente o admiras e queres ter aquilo na tua posse.

JM – Exactamente, aquilo que estavas a dizer inicialmente. Eu tenho a banda portuguesa. Eu tenho esta K7 desta banda que toca em português e não sei quê…

BB – E depois tens que ser condicionado. E como é que és condicionado? Da forma mais honesta possível que um músico pode condicionar a compra de um CD. [Toca o telemóvel]. Será a resposta certa? (Risos). É… tocares! E o público diz: Grande concerto. E aí é dinheiro suado, mas honesto. O CD não é para vender nas lojas da Fnac. Por isso é que tomámos sempre a dianteira de oferecer as amostras.

PC – Farto-me de comparar os músicos com os pintores. Um gajo faz um quadro, põe à venda, é um artista. Os músicos têm que ser tratados assim, é igual. São artistas.

BB – Acima de tudo essa interdisciplinaridade moral entre as classes, entre a classe artística. O futuro da música portuguesa, e que já se nota, é que as bandas e o futuro das editoras é sempre esse, a proximidade. É isso que vai fazer as pessoas sentirem-se mais à vontade para saírem de casa, para conviverem, porque a fase do “de onde teclas?”…

JM – Ddtc. Isso é Mirc. Olha, isso já é ultrapassado.

O Messenger já é ultrapassado

JM – O Messenger já é ultrassado, já nem uso Messenger. Voltando à conversa, uma coisa que o MAR tem é [o facto de] as bandas que cá estão já serem bandas com alguma idade. Nós os três, fundadores do MAR, somos da geração que passou do analógico para o digital. Nós transportamos essa nostalgia. Não é bem nostalgia. A banda mais nova, em termos de idade, são os Blá Blá Blá.

BB – Uma banda, em três anos no MAR, graças ao convívio com as outras bandas e ao percorrer da estrada, é possível que tenha crescido seis.

JM – Isso é verdade, nós fazemos a coisa pelo amor. Nós damos valor à música. Nós vemos mais-valias naquilo que estamos a fazer. Não quer dizer que isso tenha um correspondente monetário equivalente ao que estamos a fazer. Nós temos uma paixão muito grande. Eu estou quase nos 30, o Bruno está nos 30, tu [Paulo] estás nos 30 e… vimos as coisas todas a acontecer, continuamos a acreditar nas coisas e queremos que as coisas aconteçam. Temos essa perspectiva e tentamos fazer isso.

PC – É amor.

BB – O movimento em si, na conclusão dos três anos, é a continuação do futuro. Apercebeu-se, finalmente, que tem o arcaboiço e a vontade de pôr na mesa…

JM – Este passo agora para editora…

BB – Onde está a garganta, vai passar a estar a cabeça. Para tudo, para o bem e para o mal. Queremos ser as pessoas que contribuem com a qualidade que acreditamos ter nas nossas bandas. E vamos passar sempre a enaltecer e a lembrar um primeiro ano em que foi construída a filosofia, um segundo ano em que foram construídos os mecanismos e um terceiro ano a solidificar.



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