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Samuel Úria & Márcia @ Maxime

26 de Março de 2009. Descontracção e entrega a marcar mais uma actuação do florcaveiriano Samuel Úria e a estreia de Márcia Santos no palco do cabaret lisboeta. Com pouca electricidade mas com muita intensidade.

Mesmo tratando-se de uma noite a meio da semana, a afluência de público notou-se constante, resultando numa audiência bem composta a tornar a sala ainda mais acolhedora. A causa? Como se pode ler no blog de Samuel Úria, «um concerto de contrastes». E este foi, de facto, o mote desse serão de quinta-feira. Contraste entre o kitsch dos lustres do tecto e das cortinas de lamé e a despretensão dos solistas em palco. Contraste entre as canções desalinhadas de Úria e as melodias feitas marulho de Márcia Santos. E, emergindo de todos os contrastes, uma sensação prazenteira de verdadeira sintonia.

A abertura fez-se levando ao extremo o espírito do it yourself que tem caracterizado desde o seu surgimento os autores da FlorCaveira: uma interpretação a cappella, acompanhada apenas de um martelo, de «Ao Tom Dela». Um recurso simples, mas capaz de silenciar o corrupio que os assíduos conhecem como uma constante das noites do Maxime. Daqui, e com as atenções já completamente focadas em si, Úria partiu para «Teimoso», a canção que funciona como uma verdadeira biografia melómana incluída no EP “Em Bruto” editado no ano passado.

O tom confessional, pontuado pela auto-ironia e a interacção fluída com o público, marcariam, de resto, toda a sua actuação. Tanto nas versões de «Kids in America» de Kim Wilde (momento em que piano substitui, por instantes, a guitarra) ou «Something», dos Beatles como no piscar de olhos a «Luto e Lábios Pintados» de Tiago Guillul, ou nos regressos ao EP como em «Ossos do Ofício», «Segreguei-te ao Ouvido» ou «Tigre Dentes de Sabre», a distância do palco reduziu-se ao mínimo sem que com isso se perdesse a carga emotiva do momento.

Um equilíbrio delicado, mas plenamente conseguido que no desfecho da primeira parte, com «Não Arrastes o Meu Caixão», teve o seu auge. Ficou provado em mais uma prestação memorável que, tanto em tom jocoso como nas baladas mais intimistas, a presença de Úria é sempre segura, e cresce a expectativa para o seu próximo álbum, com lançamento previsto para este ano.

Como continuidade ao momento introspectivo surge Márcia Santos, uma das revelações do fim de 2008 do “Ciclo Voz e Guitarra” no programa Portugália, de Henrique Amaro, na Antena 3. Ainda sem disco editado, vinculada à editora Pataca Discos, do artista João Paulo Feliciano, poderemos encontrá-la em breve tanto a solo como enquanto membro do Real Combo Lisbonense, conciliando a música e as artes plásticas, actividades que mantém em paralelo desde os 18 anos de idade.

Se em Úria ouvíamos virtuosismo folk nas guitarras, cruzando-se com uma voz orgulhosamente imperfeccionista, em Márcia o contraponto faz-se inversamente, o que origina uma perfeita complementaridade: acordes acústicos frequentemente próximos da cadência Bossa Nova a par dum timbre rico em nuances subtis onde cada sílaba é como uma pincelada.

Envergando um simples vestido preto e totalmente imersa na sua própria melodia, embalou-nos com as imagens que traz ancoradas às palavras que, mais que histórias, são impressões passíveis de caber na história pessoal de cada um dos ouvintes.

E se estas impressões convocam vários sentidos – «Misturas», «A pele que há em mim», «Reino costa azul» ou «Um passo» são alguns dos sugestivos títulos – ultrapassam também a barreira da língua, em francês com «Ça me dit» ou em inglês com «Melody» e «Nothing to say». Beth Gibbons ou Cat Power, referências assumidas por Márcia, surgem de uma forma velada no seu registo, uma linhagem de canções que devem tanto a um timbre peculiar como ao ardor com que são entoadas.

Sendo a entrega como tónica da noite, ela ficou mais patente que nunca no desfecho, com os duetos em «Barbarella e Barba Rala», uma das baladas mais marcantes de Úria, e em «Vem», da autoria de Márcia.

Se dúvidas restassem, os momentos finais provaram a tese: não é preciso mais que duas vozes e duas guitarras para deixar o início da Primavera prenhe de promessas e os lábios de quem esteve no Maxime marcados por esboços de sorrisos.



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