“O Peso dos Outros”, de Fábio Ventura
Labirintos obscuros da Memória
Fábio Ventura tem uma assinatura muito própria, ideal para quem gosta de thrillers que não dão tréguas ao leitor. Uma escrita que coloca o dedo diretamente na ferida psicológica das personagens, sem rodeios desnecessários, que avança a um ritmo que agarra o leitor desde as primeiras páginas. O autor tem uma capacidade visual muito forte, conseguindo transitar entre os cenários físicos e os labirintos mentais das personagens de forma fluida, o que torna a leitura muito imersiva e rápida.
Mestre a criar aquele ambiente claustrofóbico, onde o leitor sente que algo está prestes a quebrar a qualquer momento, sabe fazer uso do suspense e das omissões, onde aquilo que não é dito ou o que a memória das personagens esconde acaba por ser tão importante, ou mais, para o enredo como o que está escrito explicitamente.
O autor não mascara a fealdade humana, pelo contrário, foca-se nas fraturas e nos segredos, despindo as personagens das suas máscaras sociais. O diálogo é afiado e serve sempre para revelar as dinâmicas de poder, a culpa e a manipulação entre elas, numa prosa direta, moderna e focada no impacto emocional e na progressão do mistério, que nos mantém em alerta, onde cada pista e cada traço de personalidade contam para o puzzle final.
![]()
Em O Peso dos Outros, o autor mexe exatamente nessas fraturas, feridas e segredos, de forma a alterar a vida dos personagens para sempre. O título em si já carrega uma bagagem enorme: o fardo das expectativas, os segredos que guardamos pelos outros ou o impacto destrutivo que as ações de terceiros, ou de nós mesmos, têm na nossa mente.
O que torna este livro tão magnético são precisamente essas personagens “morally grey” que o autor tanto aprecia criar, onde ninguém é 100% bom ou mau. São pessoas reais, levadas ao limite pelas circunstâncias, o que nos faz questionar: ”O que é que eu faria no lugar delas?”
A tensão entre a rutura total e a esperança de redenção ou renovação é o que nos prende até à última página. Vamos vendo as personagens a caminharem na corda bamba onde a fragilidade e a culpa coexistem, a escuridão ameaça consumir a luz e o leitor perde o chão. Não há um “vilão puro” para odiarmos, nem um “herói inocente” para protegermos, o que acaba por tornar-se num espelho desconfortável, onde sentimos empatia pela dor e pelo trauma delas, mas, no segundo seguinte, somos confrontados com as escolhas terríveis que elas fazem para sobreviver ou para se protegerem. Essa linha ténue faz com que o choque não venha de um evento isolado, mas sim da perceção constante de que qualquer pessoa, sob a pressão certa, é capaz de se corromper.
É quase como se o livro nos dissesse que a inocência é um luxo que aquelas mentes fraturadas já não se podem permitir ter.
O final de O Peso dos Outros, de Fábio Ventura (Penguin, 2026), é agridoce, poderoso, algo melancólico, porém com um toque de esperança, dando-nos um soco no estômago enquanto ecoa na nossa mente durante dias.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados