“Os Antiquários” | Pablo De Santis

“Os Antiquários” | Pablo De Santis

O sonho do livreiro é o de queimar todos os livros

Santiago Lebrón cresceu numa casa onde não havia livros. Curiosamente, a sua imensa paixão pela literatura nasceu por via de um castigo cumprido nos tempos da adolescência, onde para impressionar uma miúda pegou na fisga, errou o alvo e acertou no vidro de uma montra. Foi assim que o fecharam na biblioteca da aldeia durante umas semanas, onde pôde descobrir o amor pelos livros, muitos deles com páginas por guilhotinar: «Não me ocorreu que eu próprio devia separar as páginas, pensava que esses livros já eram assim, que era lei sagrada lê-los com dificuldade, como quem espia. Livros destinados a guardar um segredo.» É neste cenário de livros por abrir e estantes empoeiradas que entramos no mundo de “Os Antiquários”, livro do argentino Pablo De Santis, sucessor do premiado “O Enigma de Paris”.

O livro conta a saga de Santiago Lebrón – ele próprio o narrador -, desde que deixou para trás a sua aldeia rumo a Buenos Aires, para trabalhar com o tio numa oficina de reparação de máquinas de escrever e calculadoras. O tio, vendo que as suas aptidões estão a ser desperdiçadas na sua oficina, consegue-lhe um emprego no jornal “Ultimas Noticias”, como o técnico que substitui as borrachas, as lâmpadas, as torneiras e que cuida, também, das máquinas de escrever da redacção. Mas o destino tinha algo mais reservado para Santiago. Depois da morte de um colaborador, torna-se o cruzadista de serviço, bem como o responsável pela escrita da coluna “O Mundo do Oculto”, que seguia os passos de médiuns, mentalistas e hipnotizadores, tentando revelá-los como fraudes.

Antes de uma intrigante missão, Santiago será contactado pelo Comissário Farias, que o recrutará – à força – para trabalhar no Ministério do Oculto. O seu trabalho é simples: em meia página, escrever um relatório sobre um mentalista e depositá-lo num marco de correio especial. Será na sua terceira missão que Santiago irá ouvir falar dos Antiquários, seres que não sofrem a passagem do tempo nem a doença, e que apenas poderão morrer pela violência; que vivem escondidos, sempre rodeados de objectos do passado, em livrarias ou velhas lojas de antiguidades, tentando controlar a sede primordial que os assola diariamente. Até então pouco ambicioso, Santiago terá de lidar com a ideia de imortalidade.

Entre a reinvenção das histórias de vampiros, uma homenagem aos livros em papel – e a toda a literatura – e o combate à impossibilidade do amor, Pablo De Santis oferece, em “Os Antiquários”, uma visita de sonho a uma livraria universal onde, para além de livros raros, se esconde um cemitério de estátuas e um livro que, se não for lido na ordem certa, se transformará em chamas. «Não é essa a tentação dos livreiros. Sonhamos é em queimar todos os livros», lê-se às tantas sobre o amor incondicional à literatura.



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