PJ Pereira

PJ Pereira

Entrevista com o autor brasileiro, autor da saga "Deuses de Dois Mundos"

Reginaldo Prandi afirma que se trata de um caso de pôr “a mitologia de cabeça para baixo”, daí que a aposta da Individual na saga Deuses de Dois Mundos seja vencedora. Jogando com o imaginário dos iorubás, a macumba e um thriller contemporâneo, O Livro do Silêncio (a primeira parte) é exemplo de grande entretenimento. Procuramos compreender como foi moldada a obra para atingir o sucesso, bem como apostas futuras do autor brasileiro PJ Pereira.

Refere nos agradecimentos da primeira parte de “Deuses de Dois Mundos” que sentia medo de “macumba”, mas não tanto dos crentes e praticantes que foi conhecendo. Poderá julgar-se que é uma contradição, como explica?

Eu sentia medo de tudo. Dos rituais. Das oferendas que eles deixavam nas ruas e na praia. E dos crentes também! Mas um dia descobri, depois de anos de convivência, que um dos meus colegas de trabalho mais próximos, que acabou se tornando um amigo muito querido, fazia parte dessa religião. Foi esse conflito, de ter medo da religião e dos crentes, mas descobrir que gostava tanto de alguém que era parte dessa cultura, que me causou o choque que iniciou o livro. Se esse amigo era uma pessoa tão boa e fazia parte de algo “tão ruim”, alguém haveria de estar mentindo para mim. Ou os que disseram que a religião era do mal, ou o amigo que fingia ser do bem. Então eu fui pesquisar, e descobri um universo incrível, que me foi negado pelo preconceito.

É discutível afirmar-se que o mundo caminha para o cepticismo total, mesmo com a evolução da ciência. Como vê o mito e a crença religiosa em 2014?

Eu moro nos Estados Unidos. Aqui, essa discussão é muito grave e violenta. Metade do país caminha para uma visão cética, metade caminha para uma visão fanática. Eu não gosto de nenhuma das duas. Prefiro transitar entre ciência e religião. Para mim, essas são duas linhas paralelas que em algum momento, contra todas as expectativas e regras de um lado ou de outro, vão acabar se encontrando.

A minha motivação ao entender esse universo e resolver escrever essa trilogia, contudo, não era científica ou religiosa, tampouco unir essas duas visões. Eu pensava: por que eu cresci ouvindo estórias dos mitos gregos, romanos, vikings, japoneses, chineses… e não dos africanos? Me parecia injusto. Mais que isso, eu me senti roubado da oportunidade. Por isso escrevi. Para que mais pessoas pudessem ter a oportunidade de conhecer uma visão de mundo tão fascinante quanto a deles.

Deuses de Dois Mundos é um livro de aventura, de entretenimento. Há leitores que o descrevem como um Harry Potter ou Senhor dos Anéis passado na África. Eu não vou eu mesmo me comparar a Tolkien ou J.K.Rowling, mas a menção de suas obras ajuda a entender do que trata o livro. São livros de entretenimento, feitos para divertir, e ao mesmo tempo, apresentar o universo.

No seu romance, uma mitologia muito particular, a dos iorubás,coexiste com um thriller obscuro. Como evoluem estas partes distintas depois d’O livro do Silêncio?

O Livro do Silêncio é a introdução desse universo. Ao longo do livro essas duas estórias aparentemente distintas começam a se cruzar e ao final da obra descobre-se como e por que elas são contadas juntas, o que a vida de um jornalista cético, no ano de 2001, tem a ver com a aventura épica de guerreiros ancestrais.

No Livro do Silêncio, Orunmilá, o maior adivinho de todos os tempos, sai em busca de um grupo de guerreiros para resgatar os príncipes do Destino. Enquanto isso, no mundo atual, o jornalista Newton Fernandes é convocado, contra sua vontade, a ajudar nessa busca.

No Livro da Traição esses dois mundos se unem. Os guerreiros saem em busca dos 16 príncipes sequestrados, enquanto o jornalista Newton Fernandes se descobre num mundo ainda mais perigoso do que poderia imaginar.

Então eu diria que o Livro do Silêncio é a preparação para a grande aventura entre esses dois mundos. O Livro da Traição é a grande aventura em si. E o Livro da Morte, a consequência dessa aventura.

O booktrailer que está online é promissor, há alguma novidade no processo de levar Deuses de Dois Mundos para além dos livros?

Antes mesmo de chegar às livrarias no Brasil, os direitos da trilogia foram vendidos para a produtora The Alchemists, que atua em Hollywood e no Brasil. Atualmente, eles estão trabalhando em roteiros para ver se a obra se adequa mais ao cinema ou a uma série de TV.

Eles pretendem ainda trazer o franchise para quadrinhos, audiolivros e jogos de RPG, que é algo que vários leitores já me reportaram que estão fazendo por conta própria.

Além das suas vivências no Brasil, sobretudo o interesse pela macumba ou o Candomblé, que influências literárias (e não-literárias) moldaram os seus livros?

Há muitas referências e influências se colidindo nesse livro. No lado moderno, minha maior inspiração vem do estilo cínico e pervertido de Nelson Rodrigues, meu escritor brasileiro predileto. O lado africano tem toques inspirados nas narrativas inocentes de obras de fantasia como Senhor dos Anéis e Harry Potter, misturadas com momentos violentos que devem ter vindo da minha obsessão por filmes de kung-fu e pela nova safra de séries de TV a cabo que investem numa narrativa mais pesada e obscura que costumávamos ter à nossa disposição, como Guerra dos Tronos, The Knick, The Wire…

O autor, PJ Pereira, está desligado dos personagens que cria, ou há um pouco de si no protagonista Newton Fernandes, por exemplo?

Há um pouco de mim em todos os personagens. No caso do Newton, eu vejo muito a minha ambição no início da minha carreira como publicitário. Mas o New é um cretino orgulhoso – o que não combina comigo. Confesso até que sempre tive a fantasia de ter coragem de fazer e dizer o que ele diz e faz. Mas definitivamente a forma como ele faz e pensa não sou eu.

O Newton, aliás, é o personagem mais controverso do livro. Tem gente que o ama, gente que o odeia, e quem o despreze. Esses dias fiz uma pergunta no Facebook (a página do Deuses de Dois Mundos tem mais de 100.000 participantes) perguntando se o New era um herói, um vilão ou uma vítima. Os leitores não conseguiram concordar de forma nenhuma – e os votos ficaram praticamente empatados entre as três possibilidades. Como autor, isso me agrada. era exatamente o que eu queria fazer. Porque esse conflito vai ser importante para a chegada do livro 3, o Livro da Morte, onde a história do Newton se torna muito mais sombria.

Contou com a ajuda de muita gente para rever o texto e ajudá-lo durante o processo de escrita. Quer apontar algumas diferenças significativas que melhoraram o texto, ou algum conselho valioso que queira transmitir a escritores não-publicados?

A ajuda maior que recebi foi na pesquisa. Muita gente que conhece a fundo o mundo dos orixás africanos dedicou muito tempo para me apoiar e eu serei eternamente grato. Eu fiz muita pesquisa bibliográfica, mas se não fossem essas conversas, não teria desenvolvido a sensibilidade que precisava para escrever uma história que fosse minha, não apenas uma cominação de pesquisas anteriores. Mas isso foi só o começo do meu trabalho. Como disse o autor Stephen King, pesquisa é importante, mas tem que ficar bem longe da vista do leitor. Colocar o livro na frente de várias pessoas, especialmente gente que não é meu amigo e não pretendia me agradar, ajudou muito nesse processo. O Newton, por exemplo, era muito mais vítima do que herói ou vilão nas primeiras versões do livro. Depois de ouvir vários leitores, eu ajustei a personalidade dele. Gosto muito mais de como ele é hoje.

Sobre conselhos a novos autores, minha história talvez seja um péssimo exemplo. Eu escrevi um livro muito difícil de “vender” para um editor. Ele não se encaixa em uma categoria de livros porque tem duas estórias de tipos completamente distintos. Ele trata de um tema difícil, cercado de preconceitos. Ele é longo e ambicioso demais para um autor iniciante… tinha tudo para dar errado. E de fato, por um tempo, deu. Eu levei mais de dez anos para conseguir publicar o primeiro volume. E para isso, tive que construir uma reputação na publicidade que permitisse que me olhassem com algum respeito. Mas a imagem do publicitário também vem regada de preconceitos por si só. Então eu diria que fiz tudo errado. A única coisa que fiz certo é que eu sempre acreditei na minha história e não desisti dela. Mas isso é porque a decisão de escrever essa trama, de retratar esse universo, era muito mais importante do que virar escritor. Eu não queria, não pretendia ter livros publicados. Eu queria ter aquela história contada. Mas isso fez com que eu tivesse que esperar mais de uma década para chegar às livrarias. Mas quando chegou, foi um sucesso. Hoje, nas livrarias físicas das principais cidades do Brasil, os dois volumes já lançados do DDDM (como chamam os fãs) estão sempre em posição de destaque, meses depois do lançamento. E nas online, os livros sempre aparecem próximos ao topo entre os livros do gênero fantasia, que é o mais próximo do que a obra realmente é. Então meu conselho é entender bem o que você pretende: se é contar uma história específica (que pode se tornar um calvário e exigir muita paciência e obstinação) ou se quer ser escritor (o que lhe dará mais flexibilidade para jogar o jogo editorial com menos sofrimento).

Trabalhar em publicidade – e ser bem sucedido nisso – foi importante para a gestação da sua história? De igual modo, o know-how do meio tem sido uma mais valia para promovê-la?

Claro que eu sabia que o livro seria bem divulgado. Se eu não imaginava a reação do público ao livro, sabia que eles gostariam do trailer que o promoveria (risos!). Mas acho que a disciplina da propaganda me ajudou em muito mais do que isso.

Da mesma forma que as religiões africanas sofrem preconceito, publicitários também. Especialmente no círculo literário. Os críticos, editores, o povo “de dentro” do mundo do livro parece não gostar da idéia de alguém que vendeu seus dotes criativos para vender pasta de dente e água açucarada venha se meter nessa arte superior que é a literatura. O bom é que muitos leitores não estão nem ligando para isso. A propaganda me ensinou a ser compacto na forma como eu conto histórias. A ser visual. A trabalhar bem com outras pessoas (a parte principal do trabalho do autor é solitária, mas depois vêm várias atividades em que é preciso interagir). E principalmente me ajudou a desenvolver conhecimentos nesse mundo de mídias sociais.

O Jeffrey Katzenberg, CEO da Dreamworks, outro dia falou num evento que o futuro de Hollywood está na combinação da estória linear com as mídias sociais. Eu acredito nisso. E estou experimentando um bocado com essa idéia no meu trabalho como publicitário, e inclusive ganhei um Emmy no ano passado como o trabalho mais inovador na TV americana, apesar de estar falando de uma série desenvolvida para o Youtube! Essa experiência acabou influenciando o livro também. Não é acidente que a parte moderna da história é contada através de emails. Nem que o email do personagem principal está publicado: o leitor pode realmente escrever e conversar com o Newton através daquele mesmo email. E como parte da narrativa acontece ao redor de mesas de restaurantes, o personagem também escreveu uma coluna de crítica gastronômica no Huffington Post brasileiro. Todas essas experiências me ajudaram, acredito, a trazer uma dinâmica mais vibrante e inovadora entre personagem e leitor.

Como vê o negócio dos livros/mundo editorial a longo prazo? Existe algum modelo em particular que beneficie mais os autores?

Quanto mais leitores e autores se aproximam, mais os intermediários deixam de ser importantes. Eu por exemplo tenho minha própria audiência de centena de milhares de pessoas com quem posso falar independente de qualquer outro elemento. Os leitores são meus, não da editora ou da livraria. Mas não acredito que isso vá significar o fim da editora ou de livraria. Vai causar, isso sim, a necessidade de que elas sejam cada vez menos um intermediário, e cada vez mais um elemento que influencie no processo, na comunicação e na obra.

Um bom editor, por exemplo, faz a obra ficar melhor. Eu agradeço muito aos conselhos do meu. Mas conheço outros autores que não gostaram da experiência. Já as livrarias terão que encontrar formas de facilitar o consumo dos livros: os leitores digitais como o Kindle e as plataformas de comércio eletrônico ou as micro livrarias especializadas, onde o vendedor conhece a fundo o que vende, são bons exemplos de como eles estão deixando de ser apenas intermediários.

Por fim, o que podemos esperar de si nos próximos tempos?

Estou finalizando o Livro da Morte e estou gostando bastante. Ele tem um formato diferente dos outros dois. O lado africano acontece dessa vez entre os orixás, no mundo dos deuses, que eles chamam de orum. No lado do Newton Fernandes, a história acontece 10 anos depois do fim do Livro da Traição, e é muito mais sombria que os dois anteriores. Será um livro mais denso. Depois disso tenho algumas idéias na cabeça, algumas com uma temática diferente (ainda passando de alguma forma pelo contraste da tecnologia e religião, mas fora do mundo africano); e tenho um projeto de pegar uma personagem dos livros 2 e 3 e criar um livro só sobre ela, passado antes do que vimos na trilogia atual. Vamos ver… mas agora estou 100% focado no capítulo final da trilogia.

 



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