Deuses de Dois Mundos – O livro do silêncio

Deuses de Dois Mundos – O livro do silêncio

O que há de novo no mito

Partindo de um esforço colectivo de vários anos, PJ Pereira levou o seu projecto a bom porto. Na génese um tanto ou quanto inocente, a versão original do seu romance passou pelas mãos de uns tantos amigos e pessoas de confiança. Deuses de Dois Mundos – O livro do silêncio (Individual) muniu-se de um carisma que o torna aliciante, sobretudo para jovens adultos. PJ Pereira considera-se “contador de histórias” e não escritor, privilegiando o enredo e sua originalidade ao opor-se a virtuosismos literários. Não estamos perante um devaneio que se torna num épico metafísico de monólogo interior. Deuses de Dois Mundos é entretenimento puro.

O que o torna fresco em relação a tantos outros potenciais bestsellers (que preparam caminho para o cinema ou televisão), é demarcar-se do mais que batido imaginário da ficção associada aos ditos jovens adultos, sendo que o tema da macumba e dos orixás, bem como as experiências extra-sensoriais resultantes dessa mitologia afro-brasileira, somam pontos positivos. PJ Pereira encontra inspiração em temas culturais muito próprios do Brasil que o criou, não dependendo em exclusivo da estética norte-americana que inunda o globo. A originalidade, neste caso, suplanta qualquer minimalismo sem recurso ou vertente popularucha no seu contar da história.

Tratam-se de narrativas paralelas: capítulos de trama mitológica dos orixás, centrada na demanda de Orunmilá, adivinho; uma troca de emails entre um jornalista espertalhão, Newton Fernandes, e um desconhecido misterioso – registos totalmente diferentes. Nesta segunda vaga de capítulos intercalados, PJ Pereira cria um thriller pautado pelo tal misticismo bizarro da macumba, disposto num cenário competitivo de repórteres à procura de furo num jogo de poder e crime.

Sendo a primeira parte de uma saga, daí meramente introdutória, Deuses de Dois Mundos – Livro do Silêncio aguça o apetite, já que coloca muitas questões que ficam por responder (não faria sentido perder leitores na primeira parte, há obrigatoriamente que criar expectativas). Caso o leitor se sinta inspirado a imaginá-lo, existem sequências na obra de fazer inveja a grandes séries da HBO, a título de exemplo. Quase se esquece que afinal se trata de um livro: é, no fundo, parte de um universo que resultará em pleno com uma componente visual.

Porém, com alguma pena, ler a odisseia de PJ Pereira em versão portuguesa, de Portugal, resulta num híbrido linguístico que perde alguma autenticidade, já que ambas as correntes da língua se misturam de forma estranha, o que não favorece a voz interior que o leitor está a construir. Quer-se-ia toda uma torrente de brasileirismos, nada que umas notas de rodapé ou glossário extra (existe, de facto, um para os termos africanos) não resolvesse – ponto este que nunca irá gerar consenso entre editores e leitores, aliás, como a própria língua portuguesa.

Não existe motivo claro que justifique a aura promissora desta saga, sendo que tantas outras, com ambições semelhantes, falham. Talvez seja por não tentar impingir uma moral barata. Abordar, com argúcia, temas pouco explorados ou cruzar mundos porventura condenados a estarem separados, encanta mais que (re)visitar aqueles a que estamos, por demasia, familiarizados.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This