Ponte de Espiões

Ponte de Espiões

Um filme clássico, no melhor sentido do termo.

Em 1957, no auge da Guerra Fria, o FBI captura em Nova Iorque o espião russo Rudolph Abel (Mark Rylance). O advogado James Donovan (Tom Hanks) aceita relutantemente a tarefa de defender o espião. Em tribunal, Donovan argumenta que Abel não é um vil traidor, mas apenas um patriota russo, que serviu o seu país com bravura.

Donovan consegue impedir que Abel seja condenado à morte, o que o coloca a si e à sua família numa posição ingrata. É apelidado de simpatizante comunista, e mesmo de traidor, pela imprensa da época.

Alguns anos depois, o piloto americano Francis Gary Powers – aqui interpretado pelo inexpressivo Austin Stowell – é abatido nos céus da União Soviética e capturado pelos Russos. Donovan acede a deslocar-se a Berlim para negociar a libertação e troca de Powers por Abel, numa altura de convulsão histórica: precisamente quando está a ser erguido o Muro de Berlim, que separará a Alemanha de Leste da Alemanha Ocidental até 1987.

A mentira e a ambiguidade, dominantes nos estados Unidos nesses paranóicos anos 50 e 60, projectam-se no filme desde a cena de abertura, em que vemos um retrato da duplicidade: um espelho à esquerda devolve a imagem do espião, ao centro, que por sua vez pinta um auto-retrato, à direita. Segue-se a cena da captura, brilhantemente executada. Spielberg filma uma longa sequência que diz tudo sem que se ouça uma única palavra.

O lendário realizador constrói uma intriga pacientemente urdida, movendo as várias personagens com confiança e mestria, como se fossem peças de xadrez. Spielberg tem aqui uma obra inspirada e competente, um dos seus melhores filmes dos últimos anos.

Para colaborar no guião original do dramaturgo britânico Matt Charman, Spielberg chamou nada mais nada menos que os irmãos Coen. Há detalhes deliciosos que terão sido de certeza obra sua: é hilariante a cena na embaixada russa em Berlim, na qual os russos apresentam a falsa “família” mal amanhada de Abel a Donovan: cheios de lencinhos na cabeça, drama e poses teatrais.

Tom Hanks tem um desempenho impecável num papel que lhe assenta como uma luva.

Encarna o papel de um moderno Jimmy Stewart, representando tudo o que há de decente e honesto na cultura americana.

O actor britânico Mark Rylance não lhe fica atrás: a sua interpretação do taciturno espião Rudolph Abel é fabulosa. Rylance encarna com subtileza e contenção um homem que esconde uma enorme inteligência por trás de uma fachada banal. “Você não parece nada preocupado…” diz Donovan quando o tribunal pondera a condenação do espião à morte. “Isso ajudaria?” responde. Pode ser que me engane, mas acredito que esta actuação vai abrir a porta a Mark Rylance para mais papéis de relevo nos próximos tempos – quem sabe até para um merecido Oscar de melhor actor secundário.

Destaque também para a fotografia, a cargo de Janusz Kaminski, colaborador de longa data de Spielberg: visualmente o filme é de uma beleza cintilante. Tanto a América dos anos 50 como a Berlim da Guerra Fria são evocados de forma brilhante.

Ponte de Espiões é um sólido filme de espionagem, que retrata com confiança e bom gosto um episódio menos conhecido da História americana. O filme presta homenagem a todas as pessoas que tornaram possível que a Guerra Fria nunca chegasse a ser uma Guerra Quente: os diplomatas que negociaram nos bastidores para que as nações se entendessem sem violência. Um filme clássico, no melhor sentido do termo.



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